O amor também saiu às ruas Uma... Matheus Horacio
O amor também saiu às ruas
Uma crônica carioca sobre política, encontros e a estranha esperança de começar de novo.
O Rio de Janeiro tem dessas coisas: transforma qualquer acontecimento em espetáculo. Uma chuva de verão vira tragédia, um gol no Maracanã vira assunto de família, e a vitória de um presidente pode fazer da Cinelândia um lugar onde até os desconhecidos parecem ter alguma coisa em comum.
Naquela noite, o Centro estava tomado por gente. Havia bandeiras vermelhas, cartazes improvisados, vendedores de cerveja, ambulantes disputando espaço com os manifestantes e senhores de cabelos brancos abraçados como se tivessem acabado de reencontrar irmãos que a vida lhes roubara. Do alto dos prédios antigos, as janelas abertas pareciam camarotes de um teatro popular. A cidade inteira tinha descido para a rua.
O presidente de esquerda havia vencido.
Para alguns, era a confirmação de uma esperança antiga. Para outros, apenas mais um capítulo de uma história que nunca terminava como deveria. Mas, naquela noite, pelo menos entre as pessoas reunidas na praça, havia uma vontade quase infantil de acreditar que o futuro ainda podia ser diferente.
Clara chegou sozinha, depois de sair do trabalho. Trazia uma bolsa grande demais para o pouco que carregava, o cabelo preso de qualquer maneira e o cansaço de quem passara o dia inteiro atendendo pessoas que não sabiam seu nome, embora dependessem do seu trabalho. Tinha trinta e poucos anos e já aprendera a desconfiar das grandes promessas. Ainda assim, guardava dentro de si uma espécie de teimosia que não lhe permitia desistir completamente.
Não fora à comemoração por acreditar que um presidente pudesse resolver a vida de todo mundo. Fora porque precisava estar em algum lugar onde as pessoas ainda tivessem coragem de desejar alguma coisa.
Roberto estava ali pelo motivo oposto, embora talvez fosse o mesmo.
Tinha chegado cedo, carregando uma bandeira enrolada debaixo do braço e uma pequena garrafa de água no bolso de trás da calça. Durante anos, acompanhara eleições, manifestações, greves e derrotas. Já vira amigos abandonarem a militância, casamentos acabarem por divergências políticas e homens que discursavam sobre o povo serem incapazes de tratar bem o garçom que lhes servia o almoço.
Acreditava na política, mas desconfiava dos políticos. Era uma contradição que aprendera a carregar sem fazer muito barulho.
Conheceu Clara por causa de uma cerveja.
Na verdade, foi por causa do empurrão de um rapaz que passava apressado, tropeçou no pé dela e quase derrubou a bebida que Roberto segurava. Clara conseguiu se desviar, mas o líquido terminou espalhado na camisa dele.
— Pronto — disse ela, olhando a mancha. — A revolução começou e já deixou um ferido.
Roberto olhou para a própria camisa, depois para ela.
— Pelo menos não foi uma revolução armada.
Clara riu. Riu com vontade, sem aquela educação automática que as pessoas usam para demonstrar que ouviram uma piada. E Roberto, que já não se lembrava da última vez que uma desconhecida lhe arrancara uma risada assim, sentiu uma alegria desproporcional ao tamanho do acontecimento.
Ofereceu-lhe a cerveja que restava.
Ela recusou.
— Depois dessa, acho melhor você beber a sua longe de mim.
— Justo. Mas posso oferecer outra. Sem riscos para a democracia.
Foi assim que começaram a conversar.
Primeiro falaram da festa, das bandeiras, do calor absurdo que fazia no Centro do Rio mesmo depois que o sol desaparecia. Depois discutiram o resultado da eleição, cada um apresentando suas ressalvas, suas expectativas e seus receios. Concordaram em algumas coisas, discordaram de outras. Clara achava que Roberto tinha uma confiança excessiva na capacidade das pessoas de mudar o mundo. Roberto achava que Clara usava o desencanto como quem veste um casaco em pleno verão: não porque estivesse com frio, mas porque tinha medo de sentir alguma coisa.
Ela não gostou da observação.
— Você sempre analisa as pessoas assim?
— Só quando estou tentando impressionar alguém.
Clara ergueu as sobrancelhas.
— Então está fazendo um trabalho péssimo.
Ele riu, e ela também.
A multidão começou a cantar. De algum lugar, uma voz puxou uma música antiga, dessas que sobrevivem a governos, modas e derrotas. Outras vozes acompanharam. Uma senhora dançava com um rapaz que poderia ser seu neto. Dois homens discutiam perto de uma banca de jornal, enquanto um vendedor gritava o preço da água mineral. Um casal se beijava sem prestar atenção ao palanque.
O Rio continuava sendo o Rio, indiferente à solenidade dos acontecimentos.
Roberto perguntou a Clara se ela acreditava que as coisas melhorariam.
Ela demorou a responder.
Olhou para as pessoas reunidas na praça, para os rostos suados, para os cartazes escritos à mão, para aquela gente que voltaria na manhã seguinte aos ônibus lotados, aos salários insuficientes, aos patrões impacientes e às contas que não se comoviam com resultados eleitorais.
— Acho que as coisas precisam melhorar — respondeu. — Não sei se é a mesma coisa.
Roberto ficou em silêncio por alguns segundos.
— Talvez seja por isso que a gente continua vindo.
Clara olhou para ele. Havia algo de bonito naquela resposta, não pela originalidade, mas pela maneira como ele a pronunciara. Sem levantar a voz, sem tentar vencer uma discussão, sem transformar uma conversa entre duas pessoas numa oportunidade de provar que estava certo.
Naquela cidade, onde todo mundo parecia ter uma opinião pronta sobre tudo, encontrar alguém disposto a permanecer em silêncio depois de uma frase era quase um acontecimento romântico.
A noite avançou. A comemoração foi perdendo o fervor inicial, e as pessoas começaram a se dispersar pelas ruas. Alguns seguiam para o metrô, outros procuravam os amigos, e havia quem permanecesse ali apenas porque não queria voltar para casa tão cedo.
Clara disse que precisava ir embora.
Roberto perguntou se ela morava longe.
— Longe o suficiente para não voltar aqui só por causa de uma cerveja.
— E perto o suficiente para voltar por causa de outra?
Ela sorriu, mas não respondeu imediatamente. Pegou o celular, desbloqueou a tela e estendeu-o para ele.
— Coloca seu número. Se eu gostar da conversa, talvez eu escreva.
— E se não gostar?
— Você terá perdido cinco minutos da sua vida. A democracia sobrevive.
Roberto digitou o número e devolveu o aparelho.
Não houve beijo naquela noite. Nenhuma declaração, nenhuma promessa feita sob as luzes dos postes, nenhum daqueles gestos grandiosos que o cinema inventa para convencer as pessoas de que o amor chega acompanhado de uma trilha sonora.
Houve apenas um abraço rápido, um sorriso demorado e a sensação estranha de que a cidade, por alguns instantes, parecera menos imensa.
Clara desceu em direção ao metrô. Roberto ficou parado, observando-a desaparecer entre as pessoas. Depois caminhou até a Avenida Rio Branco, com a bandeira debaixo do braço e uma mancha de cerveja secando na camisa.
Naquela madrugada, Clara escreveu primeiro.
Perguntou se ele havia chegado bem.
Roberto respondeu que sim e perguntou se ela também chegara.
Ela disse que sim. Depois conversaram sobre coisas pequenas: o trabalho dela, o livro que ele estava lendo, a dificuldade de encontrar um café decente no Centro e o fato de ambos considerarem o preço do aluguel uma forma particularmente cruel de ficção científica.
Conversaram no dia seguinte. E no outro.
Duas semanas depois, encontraram-se para tomar café na Lapa. Um mês mais tarde, caminharam pela orla de Botafogo, discutindo sobre cinema. Na primeira vez que deram as mãos, nenhum dos dois disse nada. Talvez porque certas coisas, quando finalmente acontecem, dispensam explicações.
Apaixonaram-se sem perceber o instante exato em que isso aconteceu.
E talvez essa seja a parte mais curiosa da história: enquanto milhões de pessoas discutiam o significado daquela eleição, duas pessoas descobriam o significado de esperar uma mensagem, de guardar uma história engraçada para contar a alguém, de reconhecer um passo na calçada e sentir que o dia, afinal, não tinha sido tão ruim.
Não deixaram de se preocupar com a política. Continuaram discutindo o país, cobrando promessas, criticando decisões e desconfiando de discursos fáceis. Descobriram, inclusive, que o amor não torna ninguém menos teimoso. Às vezes, apenas oferece uma pessoa diante de quem vale a pena admitir que se pode estar errado.
Meses depois, quando já namoravam, Clara perguntou a Roberto se ele se lembrava do que sentira ao saber do resultado daquela eleição.
Ele pensou um pouco.
— Lembro que achei que alguma coisa poderia mudar.
— E mudou?
Roberto olhou para ela. Estavam sentados num bar pequeno, numa rua movimentada do Rio. Ao lado da mesa, um garçom tentava equilibrar três pratos; na calçada, um homem discutia com o motorista de um táxi. A cidade seguia seu curso, barulhenta, imperfeita e absurdamente viva.
— Mudou — respondeu. — Mas não exatamente do jeito que eu imaginava.
Clara sorriu e encostou a mão na dele.
A vitória de um presidente durava uma noite nas ruas e anos nos livros de história. Seus efeitos seriam discutidos durante muito tempo, entre esperanças realizadas, promessas adiadas e desilusões inevitáveis. Nenhuma eleição, por mais celebrada que fosse, poderia garantir a felicidade de um país inteiro.
Mas naquela noite, entre bandeiras, cerveja derramada e desconhecidos cantando na Cinelândia, alguma coisa havia acontecido que não apareceria em nenhuma pesquisa, em nenhum discurso e em nenhuma fotografia publicada nos jornais.
Dois estranhos tinham se encontrado.
E, por mais que parecesse pouco diante dos problemas do mundo, talvez fosse assim que certas mudanças começassem: não com a certeza de que tudo daria certo, mas com a descoberta de que, apesar de tudo, ainda valia a pena caminhar ao lado de alguém.
Porque o país continuaria dividido, os políticos continuariam sendo políticos, as contas chegariam no fim do mês e o ônibus continuaria demorando mais do que deveria.
Mas Clara agora tinha alguém para quem contar as histórias do dia.
E Roberto, que passara tantos anos procurando motivos para acreditar no futuro, descobrira que às vezes o futuro não se apresentava em palanques, não usava gravata e não precisava de milhões de votos.
Às vezes, o futuro era apenas uma mulher rindo de uma camisa manchada de cerveja, numa noite quente do Rio de Janeiro.
E isso, por si só, já era uma boa razão para voltar à rua.
