Clara conheceu Roberto numa terça-feira... Matheus Horacio
Clara conheceu Roberto numa terça-feira qualquer, dessas que o Rio inventa para lembrar que a cidade pode ser bonita mesmo quando a vida não está.
Foi num bar pequeno em Botafogo. A televisão estava ligada num jogo qualquer, o ventilador fazia mais barulho que o necessário e alguém discutia sobre política na mesa ao lado. Do lado de fora, os carros passavam pela rua molhada, carregando gente que provavelmente também estava tentando chegar a algum lugar.
Roberto bebia cerveja sozinho.
Clara entrou porque começou a chover.
Ela tinha os cabelos molhados e aquele jeito de quem parecia estar sempre pensando em alguma coisa que não contaria a ninguém.
— Posso sentar aqui?
Roberto olhou para a cadeira.
— Se você não se importar com a minha cara de poucos amigos.
Ela sorriu.
— Eu também não estou com uma cara muito boa.
E foi assim.
Sem música bonita. Sem coincidência extraordinária. Sem o universo conspirando.
Só duas pessoas cansadas dividindo uma mesa porque começou a chover.
Depois vieram outras noites.
Copacabana depois das dez. Lapa numa sexta-feira. Caminhadas sem destino pela orla. Café barato. Cigarros que Roberto prometia parar de fumar. Conversas sobre dinheiro, medo, infância, fracassos e todas aquelas coisas que as pessoas escondem quando ainda estão tentando parecer interessantes.
Clara gostava do mar.
Roberto dizia que não gostava de praia.
Mas sempre acabava sentado ao lado dela olhando para o mesmo mar.
Talvez fosse amor.
Talvez fosse apenas solidão encontrando outra solidão e decidindo ficar por algum tempo.
O problema é que o amor, quando chega, não avisa quanto tempo pretende permanecer.
Um dia Clara disse:
— Você nunca fala sobre o futuro.
Roberto acendeu um cigarro.
— Porque o futuro nunca falou comigo.
Ela ficou em silêncio.
Depois olhou para o calçadão, para as pessoas correndo, para os prédios iluminados e para o Pão de Açúcar aparecendo ao longe entre as luzes da cidade.
— Eu queria uma vida mais simples.
Roberto riu.
— Todo mundo quer uma vida mais simples. Até descobrir que precisa trabalhar para pagar por ela.
Clara não achou graça.
Naquela noite, eles discutiram.
Não foi uma grande discussão. Ninguém quebrou nada. Ninguém saiu gritando.
Foi pior.
Foram aquelas discussões silenciosas em que duas pessoas percebem que estão querendo coisas diferentes e nenhuma delas sabe como dizer isso sem machucar a outra.
Clara queria construir alguma coisa.
Roberto ainda estava tentando descobrir como reconstruir a si mesmo.
E talvez isso fosse incompatível.
Ela foi embora numa manhã de domingo.
Roberto ficou sozinho no apartamento, ouvindo os ônibus passarem lá embaixo.
Encontrou uma presilha de cabelo dela no banheiro.
Ficou olhando para aquilo durante alguns minutos.
Depois colocou sobre a mesa.
Não jogou fora.
Também não guardou.
Algumas coisas ficam exatamente onde foram deixadas, porque a gente não sabe se está pronto para perder ou se ainda espera que voltem.
Meses depois, Roberto viu Clara na rua.
Foi na Glória.
Ela estava acompanhada.
Parecia feliz.
Ou pelo menos parecia ter aprendido a parecer feliz.
Eles se olharam por alguns segundos.
Ela sorriu.
Ele também.
Não conversaram.
Talvez porque certas histórias terminem antes que as pessoas tenham coragem de admitir que terminaram.
Roberto continuou andando.
O Rio estava quente.
Um vendedor gritava alguma coisa na calçada. Um ônibus passava cheio. O céu tinha aquela cor suja de fim de tarde.
Ele pensou em Clara.
Pensou no bar em Botafogo.
Pensou nas noites em Copacabana.
Pensou que talvez tivesse amado aquela mulher da única maneira que sabia: mal, tarde demais e com medo.
Depois acendeu um cigarro.
E continuou andando.
Porque a cidade não para para ninguém.
Nem para os apaixonados.
Nem para os arrependidos.
Nem para aqueles que ainda esperam alguém voltar.
No Rio, até a saudade precisa atravessar a rua com o sinal aberto.
