A mulher das tatuagens ela entrou no bar... Matheus Horacio

A mulher das tatuagens


ela entrou no bar
como quem já conhecia
todos os tipos de despedida.


pele clara,
tatuagens espalhadas pelo corpo
como pequenas revoltas
que ela decidiu não explicar.


bebia devagar
e olhava para o nada
com a tranquilidade de quem
já tinha aprendido
que algumas pessoas
só ficam enquanto é conveniente.


havia flores no braço,
um pássaro perto do ombro,
algumas palavras que eu não consegui ler.


talvez fossem nomes.
talvez fossem erros.


ela sorriu uma vez
e foi o suficiente
para fazer o bar parecer menos miserável.


eu pensei em dizer alguma coisa bonita,
mas coisas bonitas
quase sempre soam ridículas
quando você está diante
de alguém que já sofreu o bastante.


então fiquei quieto.


ela acendeu um cigarro,
olhou pela janela
e disse:


— algumas marcas a gente escolhe.


não perguntei pelas outras.


naquela noite
ela foi embora sozinha,
levando consigo
aquela coleção de desenhos,
silêncios e pequenas cicatrizes
que faziam dela
mais humana que qualquer santo.


e eu fiquei ali,


bebendo o resto do meu copo,


pensando que talvez
a beleza nunca tenha sido
sobre aquilo que uma mulher
carrega na pele,


mas sobre tudo aquilo
que ela conseguiu sobreviver
sem precisar contar.