Marinho Guzman
Compromissos inadiáveis e canos irreparáveis.
Todas as vezes que eu combino algo com alguém, tomo a precaução de escrever o dia, hora, assunto e se for um encontro, o endereço completo e o telefone.
Nada de “em frente ao”, perto da porta de entrada ou “onde tem uma banca de jornais”.
Tomo ainda a precaução de deixar claro que se qualquer uma das partes não puder ir,deve avisar até a hora tal do dia tal.
Tudo isso para dizer que se você marcou alguma coisa comigo pode ter certeza que eu irei ou avisarei antes, caso haja algum imprevisto.
Em contrapartida, caso você me dê o cano, pode ter certeza de que foi o primeiro e o último.
Ouço uma música vibrante, vejo uma foto marcante, lembro de um tempo tão presente de coisas que não voltam mais.
Se você não consegue ver e aceitar os defeitos de alguém você não está preparado para conviver com esse alguém.
Sou dos que recriminam as excessivas comemorações em datas marcadas, como o dia dos namorados, Natal, dia das crianças e outros, sabedor que quase sempre são campanhas de marketing.
Dia das mães não conta, porque afinal, todo dia e sempre é dia delas.
Ontem foi aniversário da minha querida Amanda.
Desejei os parabéns assim que ela acordou e lembramos a data algumas vezes no dia.
Esse ano não teve bolo com velas, parabéns a você, champagne nem jantarzinho num restaurante gostoso.
Ela recebeu mais de 200 lembranças no Facebook, parentes e amigas mais chegadas ligaram e juntos compramos o presente dela, um perfume que ela gosta muito o Dior Hypnotic Poison pois no frasco dela só tinha o cheiro rsss….
Sei que ela procurou e não achou um pequeno texto como os que escrevo todo ano, mas não reclamou a sua falta, assim como não reclama das minhas faltas, seja porque não são tão graves, seja porque ela as releva na sua magnânima bondade, e sabe, que gestos valem mais do que palavras, que o dia a dia, vale mais do que as comemorações de um dia.
Mas se não teve texto, não foi falta de inspiração.
Falta de inspiração é falta do que falar e eu nunca deixei de ter o que falar da Amanda.
Se a maioria dos dias parecem iguais, ela todo dia é diferente, simplesmente porque a cada dia seu espírito se aperfeiçoa e ela se torna melhor.
Ontem a Amanda completou seu milésimo “Okiyome”, uma dádiva de Deus concedida a uns poucos que têm fé e disciplina. Eu não saberia explicar exatamente o que é nem o que significa mas sei que por mil vezes nesses últimos tempos ela recebeu diretamente a Luz Divina que a torna tão iluminada.
Todos que a conhecem talvez não saibam o que é Okiyiome mas sabem que Deus está presente na vida de todo mundo e tem um olhar especial para a Amanda, pessoa boníssima e que nunca me deixará sem inspiração mas que às vezes podem até faltar palavras que exprimam exatamente as suas virtudes.
Hoje e sempre,
Parabéns
Amanda Palma
Otimismo.
Começo a entender as muitas mensagens dos amigos do Facebook mencionando otimismo a toda prova, com toda sorte de catástrofes que assolam a humanidade.
Estão confusos e confundindo ser otimista com a remota possibilidade de estar otimista com o futuro próximo do Brasil.
Ser otimista é uma coisa, estar otimista é bem diferente.
Nos tempos em que quadrilha era só uma dança.
Quando eu tinha uns quinze anos, no mês de junho não se falava em outra coisa a não ser nas festas caipira.
Santo Antônio, São Pedro e São João.
Quermesses, barracas de comidas, dança de quadrilha, faziam com que a gente se aconchegasse numa fogueira, comesse pipoca, pinhão, milho cozido, caldo verde e um sem número de outros quitutes, quase sempre à beira de uma fogueira e olhando os balões que coloriam o céu.Alguns mais ousados tentavam escalar o pau-de-sebo e todo mundo usava fantasia, ou pelo menos algo que estilizasse o tema, como remendos coloridos nas calças de barras viradas e nas saias rendadas. Camisas xadrez, lenços no pescoço, chapéu de palha e botas eram imprescindíveis.
As meninas mais bonitas se fantasiavam de noiva, usavam grandes tranças e espalhafatosa maquiagem vermelha, tudo cobrindo totalmente o corpo, mal se vendo as mãos. O ápice da festa era o casamento caipira.
Não havia celulares, whatsapp, twitter nem Facebook e o negócio era mesmo o correio elegante, com recados inocentes e promessa de beijos que na maioria das vezes não passavam da imaginação.
A dança era a das quadrilhas, sempre bem ensaiadas e nada parecidas com as de agora, que têm uma corrupção que sempre existiu, mas se comparada à do bandidão da época, o Adhemar de Barros e a atual do Lula, poderíamos dizer que ele foi um trombadinha aprendiz do grande ladrão.
As festas terminavam sempre com uma grande queima de fogos de artifício que ou eram mais seguros, ou o pessoal mais cuidadoso, porque pouco me lembro de acidentes com rojões, queimaduras de bombas ou incêndios provocados por balões.
Quem não tem saudades dos seus quinze anos?
Infelizmente a sorte já está lançada e reputo a maior vergonha para o Judiciário de todos os tempos.
Vale a pena reclamar muito agora nas redes sociais e deixar claro que eles não vão enganar ninguém e que passarão para a história tão ou mais corruptos do que os em julgamento, já julgados e condenados.
A gente faz força para esquecer, finge que esquece, mas sofre com algumas lembranças, e isso é não perdoar.
Dizem que errar é humano, perdoar é divino mas esquecer é que são os diabos...
Admitir os próprios erros.
Impossível para muitos, admitir os próprios erros não é coisa fácil.
Confissão de pecados e pecadilhos, erros crassos e outros nem tão graves, o acúmulo desses pesares pode ser entristecedor.
Quando você se entristece com possíveis injustiças de que foi vítima, grande parte desse pesar pode ser debitado a alguém, mas quando você tem convicção de que é vítima dos próprios erros o remédio pode ser bem amargo.
É por isso que tanta gente vive pondo a culpa de tudo nos outros.
Pura fuga momentânea que impede o aprendizado e a opção por errar menos.
Para algumas mulheres uma máquina fotográfica nas mãos de um fotógrafo é uma arma letal.
Uma questão de vida ou morte.
Meu presente no dia dos namorados.
Dia desses peguei carona numa postagem do Facebook, onde uma senhora reclamava veementemente que seu marido havia lhe dado de presente no dia das mãe uma Air Fryer.
Chego a duvidar que alguém não saiba o que é uma Air Fryer pois temos uma aqui em casa e depois dela, minha querida Amanda tornou-se uma “quase-chefe”, digna de ser convidada para o programa da Ana Maria Braga.
Quando começamos a namorar a Amanda não sabia nem fazer café, hoje, depois da Air Fryer ela elabora uns pratos realmente gostosos, a partir de produtos básicos semi-preparados, comprados no Pão de Açúcar.
Fica tudo muito bom e eu recomendo para qualquer um que não seja um gourmet, como eu não sou.
Lembro-me ainda, que quando eu tinha uns dez anos, meu pai perguntou para minha mãe o que ela queria de presente no dia das mães e ela pediu uma processadora, seja lá o que fosse essa coisa, que para mim parecia um liquidificador. Minha mãe usou por muito tempo a engenhoca até que eles se desquitaram e ela definitivamente desistiu do meu pai, da processadora, do forno e do fogão.
Mas até onde eu sei, presente é aquilo que nos é útil e o presente que mais uso, de todos o que a Amanda me deu é uma cafeteira Dolce Gusto da Arno.
Não sei se você imagina meu prazer em fazer meu próprio café expresso a qualquer hora, sem ter que seguir receitas, sujar a cozinha toda e descobrir finalmente que o café ficou fraco ou frio. Praticamente todas as vezes que eu faço o café lembro que a cafeteira foi presente da Amanda e quando ela está por perto faço com que ela saiba o prazer que ela me proporciona.
Encerrei meu aprendizado na cozinha depois de fazer barbaridades com uma pipoca e queimar os braços ao tentar fazer um chá de saquinho, ambos no micro-ondas.
Hoje nem olho para ele e tenho que esperar uns dez minutos que o sorvete descongele em cima da pia para poder tirar da embalagem. Micro-ondas assassino nunca mais, só opero a Dolce Gusto.
Mas voltando ao presente que a Amanda me deu nesse dia dos namorados, tenho que confessar que depois de dezessete anos juntos tenho certa prática em saber o que ela pretende a partir da primeira frase. Ainda assim esse ano ela me surpreendeu.
Dias antes da data festiva, ela veio com aquela conversinha a respeito das minhas lembranças da infância e da juventude e eu contei a ela mais algumas passagens da minha tumultuada estada de dois anos de internato no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora de Campinas.
Contei como eu fugi várias vezes e embarcava sozinho e clandestinamente nos ônibus da Cometa (eu tinha quatorze anos), contei que para voltar ao colégio eu chantageava meu pai e assim consegui meu primeiro gravador de fitas de rolo Geloso e minha segunda moto uma Leonette de 50cc.
Contei que a comida no internato não era das melhores e que minha mãe levava todas as semanas bolachas, chocolates, queijos e enlatados para complementar as refeições.
Tive que explicar o que era uma fiambrada pois ela nunca havia visto ou ouvido falar e acreditamos que isso não era mais produzido.
Fiambrada para quem não sabe, é uma mistura de várias carnes únicas ou misturadas, que vêm numa lata diferente, com um dos lados maior que o outro para facilitar a retirada sem que saia em pedaços etc.
Não foram poucas as aventuras que eu tive naquele colégio interno e tenho muitas lembranças, a maioria péssimas, principalmente porque além das férias a gente só tinha duas saídas, uma na Semana Santa e outra na Semana da Pátria e eu por mau comportamento perdi todas durante todo o tempo.
Bem, mas voltando às boas lembranças e aos excelentes presentes que a Amanda me dá sempre, nesse dia dos namorados ela me deu um embrulhinho bem-feito com um cartão.
No cartão, como de costume, lindas palavras e abrindo o pacote tive a grata surpresa de descobrir uma legitima fiambrada de R$4,80.
Amanda não quis nem experimentar, mas eu estou amando!
Mesmo correndo o grande risco de ser taxado de homofóbico tenho que concordar com os que dizem que praia de paulista é shopping e carnaval de paulista é a Parada Gay.
O Brasil tem mantido a tradição de estar nos primeiros lugares em quase tudo.
Corrupção, analfabetismo e libertinagem lideram folgado.
Estamos entre os últimos no índice de desenvolvimento humano e no crescimento do PIB.
Serviços mal prestados não podem ser bem remunerados.
A alegação dos políticos de que não há dinheiro suficiente para a saúde e a educação esbarra no nível salarial incompatível para com a falta de satisfação das necessidades públicas.
Precisamos baixar o salário dos políticos ao nível dos serviços que são prestados ao publico.
Quando eu partir.
Partirei triste se deixar saudades.
Quisera deixar poucas lembranças, só as alegres e que nenhuma lágrima fosse derramada, porque gostaria de não fazer muita falta já que eu odiaria que viesse a faltar alguma coisa aos que amo.
Que ninguém pense que a minha vida foi vazia, triste ou que tivesse me negado algo, muito pelo contrário.
Mas fadado ao inexorável fim da existência terrena e da convivência tão boa meus queridos, seria egoismo partir e levar comigo a alegria que lhes pertence e que precisam para sobreviver.
Algumas pessoas não percebem de imediato o mal que causam para os outros e ignoram que nunca poderão receber o bem praticando o mal.
Dizer ou não dizer a verdade...eis a questão.
De educado a politicamente correto engordo engolindo sapos, com um sorriso amarelo e vermelho de raiva.
As coisas que a gente joga fora.
Não é novidade e de uns tempos para cá ficou bem conhecida a doença das pessoas que guardam, juntam, colecionam coisas sem valor, imprestáveis, inservíveis, lixo para uns, tesouros para eles. São os chamados acumuladores.
Outros como eu, apesar de ter vários armários, gavetas e caixas com parafusos, porcas, pregos, chaves de fenda, alicates, tesouras, fotos antigas e outras lembranças, sempre acabo jogando tanta coisa fora que uma vez ou outranão encontro algo que preciso e sei que tenho.
Está provado que o cérebro humano descarta grande parte dos seus registros, sejam eles lembranças recentes ou antigas, seja porque são pouco interessantes, insignificativas ou porque contrariam as nossas atuais e íntimas vontades ou convicções.
Fotos e escritos que encontro de vez em quando nos meus guardados provam que joguei fora muitas recordações do passado que não me fazem falta e que abriram espaço para novos registros, novas fotos e novas sensações.
O melhor lugar para o passado é no passado, que não deve interferir no futuro.
Pouco tempo para viver.
Há quem confunda qualidade de vida com a disponibilidade dos bens e da tecnologia, que despertam em nós o espírito consumista que pode nos transformar em acumuladores e escravos dos nossos desejos.
A mola propulsora da economia é sem dúvida a produção e o consumo.
Ocorre que se você sucumbir ou for atropelado pelo desejo, tão logo ele seja realizado você perde o interesse ou ele se transforma em obrigação.
A transformação da simplicidade da vida num objetivo difícil de ser atingido e com satisfação pouco duradora que não justifica tanto esforço, pode tomar da gente tanto tempo com o trabalho para gerar recursos, que sobra menos tempo do que seria desejável para atividades mais prazerosas.
As classes menos favorecidas não têm sequer a opção de escolha. Há quem use três horas diárias para ir e vir do trabalho, oito horas para trabalhar e oito horas para o descanso, essa pessoa terá cinco horas ou menos por dia para outras atividades e isso é um sexto do dia, o que a grosso modo significará onze anos num lapso de setenta.
Pouco tempo para viver.
Saudosistas têm lembranças seletivas.
Isso por si só não é ruim, o que não se deve é dar um colorido muito forte para o passado, para não imaginar um presente pálido e um futuro esmaecido.
A verdade que nunca passa é que tudo passará.
Para alguns saber que tudo passa pode ser alento de que dias melhores virão.
Isso se chama esperança.
Para muitos, saber que tudo passa pode significar que um dia desses passaremos.
Isso se chama certeza.
