Maria Almeida
Como a dos alcoólicos anónimos, haveria de existir uma estrutura para os de amizade não correspondida. Quando os seus olhos nunca nos viram. Quando partem depois de terem chegado. Quando os seus gestos começam a esquecer-nos. Quando querem o que não dão. Por aí.
Cada vez mais me convenço que estou aqui por empréstimo e que me esperam, pacientemente, noutro lugar.
Em pequena, os anjos chamaram a minha amiga. E eu pensei que também ia. Mas, por algum motivo, continuei aqui. Um palpite razoável para entender e que não sou capaz de encontrar.
Foi Deus quem escreveu. Não eu. Não tu. Um som. Um timbre. Tão baixinho como o canto dos anjos. Passe-se o tempo que se passar, venham as alegrias que vierem, sucedam os temporais que se sucederem. Eu sou una, verdadeira e imperfeita, mas se não me vês com o mesmo olhar com que te sinto, afasto-me, não para desistir, mas para não continuar a sofrer. Eu posso não fazer parte de ti, mas tu sempre estiveste dentro de mim. A minha eternidade é a Deus e Ele é bondoso na saudade que tem de nós e no Seu amor mágico pelos valores de cada um e de ambos.
O tempo estica-se e passa por mim sem o sentir, inexistente no seu rasto insignificante e vazio nos minutos que não tem de mim.
Deixe a música da vida contagiá-la todos os dias e adormecê-la todas as noites, e dance-a com a alma e não com as partes certas do corpo para gingar.
A alegria atingiu-me. Fiquei paralisada. E nada mais conseguia pensar e nada mais conseguia fazer. Sentia apenas a imensidão da onda que dentro de mim se abatia, fazendo-me rir, fazendo-me chorar.
Ela encostou o seu rosto tão perto do meu, que consegui sentir os batimentos da sua alma. Apertei-a nos meus braços e fechei os olhos, recordando a caminhada mais longa da minha vida num percurso curto de passos decididos, aquela em que caminhei resoluta e de cabeça erguida, ainda que completamente desfeita por dentro. Tanto tinha mudado, tanto mudou, mesmo tendo eu pago um preço bem alto por isso, que tudo agora era doce, pacífico, interessante, e muito mais suave e edificador.
O que cada um sabe quando se fecha para o mundo?
O que cada um busca quando se reabre para a vida noutro lugar?
Não se pode ser outra coisa? Algo mais do que outra coisa?
Não se podem pendurar as metáforas mastigadas? Edificar algo de novo? Ser o novo?
É tudo tão igual e tão pouco parecido ao que é igual… um tudo no nada ou um pouco do nada em tudo.
A amizade sincera lê-se nos olhos de quem tem a coragem de olhar nos nossos e de silenciosamente dizer que errou.
