Maria Almeida
Roubou-lhe um beijo e os seus olhos transformaram-se, profundos. Estendeu os dedos longos e enterrou-os no cabelo, puxando-o para si. Acariciou-lhe a face e ele aconchegou a cabeça no seu pescoço. Tinha o cheiro da fruta da primavera misturado com o da chuva de verão. Abraçou-o. Abraçou-o durante muito tempo. Tão repleta de si. Perdida para o mundo. Silenciosamente chorando o vazio onde o corpo dele estivera. Até ali.
Mas ele não foi só, ela seguiu-o com os olhos da alma. Mesmo não sabendo que ele ia, ela amou-o livre e único. Depois que ele foi, ela guardou-o no coração e virou-se ainda mais para Deus.
Cada vez mais vejo os meus passos caminharem em direção ao inferno, mas vou indo, indo lentamente, devagar, devagarinho, para nele entrar de mansinho, sem armas, sem escudos, só eu, a minha fé, o meu amor, orando a Deus para ser o que tiver que ser, o que Ele quiser.
Nasci original e originalmente irei morrer.
Não sou rascunho de mim e nem o pretendo ser de ninguém.
Ciúme:
Ciúme é o receio de perder alguém e o desejo de conservar o relacionamento. Sentir ciúmes é parte da natureza humana. É visto por uns como uma prova de amor e por outros como um patamar de insegurança. O ciúme normal é uma manifestação natural e incômoda, transitória e baseada em fatos. O ciúme obsessivo impele ao controle total do outro, quer relativamente aos seus sentimentos, quer quanto aos seus comportamentos.
Todos nós, independentemente do mais e do menos, temos o direito e a liberdade de nos relacionarmos com o mundo e com o que há no mundo.
Por um momento, a pancada insensata da bola misturou-se ao som de vidro a partir. Alguém olhou a manhã ainda quente do sol do dia. O primeiro elo num dia inesquecível. Mudar alguma coisa. Fazer a diferença. À volta, só um pouquinho. O segredo da totalidade da vida. Não mudar totalmente o mundo. Impossível. Uma pequena parte. Amar a família. Estimar os amigos. Ser fiel aos princípios. Viver bem e conscientemente. Estimular vidas por meio do afeto, da compreensão, da tolerância e do perdão. Coisas simples assim.
Confio em Ti. Sei que não vais largar a minha mão, Senhor, quando todos me julgarem ao pensarem que larguei a Tua.
Suspirou profundamente. Havia um cheiro estranho no ar, a zumbir nos estertores da madrugada. Os quilómetros que correra tinham-lhe causado dores no peito. Talvez tivesse exagerado. Pensou em adquirir umas sapatilhas novas. Desatou o cabelo e fechou os olhos húmidos, reprimindo as lágrimas. Engoliu-as uma a uma, até ficar com os olhos secos. As suas emoções haviam-se descontrolado por completo. Horas atrás. Dias atrás. Fechou a mente e apoiou as palmas das mãos nos joelhos, tentando respirar pausadamente, ao ritmo certo dos pulmões. Fazer com que as pessoas a odiassem era fácil. Conseguir que o homem, a quem amava profundamente, a desprezasse ainda mais, era fácil. Difícil era lidar com as ondas que a percorriam dentro de si. Buscava forças dentro dos pleonasmos mais densos do coração, porque já havia tentado todas as estratégias que sabia, para esquecer. Era vital rapar o fundo do poço, dececionar, fazer e dizer coisas que não eram de si, até não restar mais nada e chegar à dor aguda, àquela que a rasgaria por completo, para depois a curar. Deixar doer até não suportar a própria dor, até algo se romper dentro dela. Sabia disso por experiência própria. Sabia exatamente qual era a sua posição. Olhou para cima, centrando o azul dos seus olhos no azul do céu, e o seu rosto suavizou-se. “Quando chegar a chuva”, pensou. Talvez, algures, o silêncio do lugar em que se encontrava, sempre delicado, lhe trouxesse a resposta da sua infância, nas asas leves e perfumadas das flores silvestres que a seus pés cresciam em abundância.
Ame com tudo o que há em si. Ame com a alma e com o coração. Com o riso, com os olhos, com as mãos. Ame e sinta o amor dentro de si, porque a vida – ah, a vida! – só tem sentido assim.
Saiu à rua. Sorriso nos lábios. Os olhos brilhavam. A alma resplandecia. As pessoas olhavam-na e ela correspondia. O bom dia brotava. A gratidão servia-se. Sentia-se bem. Sentia-se viva. Com o pouco que tinha. Com o muito que era. E Deus em si. Entrou na livraria. Escolheu um manuscrito. A dona elogiou-a. Ela sorriu-lhe. Saiu a cantarolar. Uma canção que sabia. O coração nas mãos. O bem que fazia.
