Maria Almeida
Alguém se deixou matar pelo ontem. Pensou que estava na vida, dentro do seu novo eu e, no entanto, descobriu um então.
Quando me devolves a metade do meu coração?...
Quando o fizeres, não te esqueças de com ele vir também.
O azul índigo que antecedia o céu da noite entrou em mim em alguma parte, algures no limite da memória, e senti-me como se tivesse saído de uma tempestade e a caminho de outra. Tudo o que tenho é o dia de hoje, este momento real que amanhã já terá deixado as minhas mãos. Nada me pertence. Nada de mim faz parte. Escolhas foram feitas e metade de uma vida já passou, talvez um denso tempo sobre a totalidade do passado, em que fervi uma silenciosa intensidade de mim e em que teci uma verdadeira gargalhada que ri comigo.
Não desejo mal a ninguém. Não desprezo ninguém. Apenas não posso deixar ficar perto de mim as pessoas que me desprezam, as folhas mortas que pesam à vida. Não quero isso no meu mundo, invadindo o meu interior, destruindo a minha paz. A vida tem alturas em que devemos ser sensatas. Esta é uma delas. Sou uma pessoa de verdade. E humana. Não uma personagem qualquer. Impeço-me de perder a ética, a dignidade e a moral, mas não me preocupo absolutamente nada com o que possam pensar. A vida é minha. E na minha vida quero algo mais, sobretudo paz e a verdade.
Desejo-te, do fundo do coração, o amor eterno da tua família, a permanência sincera dos teus amigos, muito sucesso, que continues sempre sendo amado, mas, essencialmente, que Deus fique junto a ti e que contigo caminhe, ajudando-te, protegendo-te e cuidando-te.
Não importa que não tenhas conseguido ver-me. Ou que o tenhas feito usando os olhos dos outros.
Não importa que me tenhas ignorado sempre que fui até ti. Ou que o tenhas feito para te protegeres de mim.
Importa que não tenhas ficado. Ou que o tenhas feito para não sentires a minha profundidade em ti.
Importa que tenhas ido embora. Ou que o tenhas feito para não te inebriares de mim.
Não importam as lágrimas que chorei e as saudades que senti, mas, sim, as alegrias que vivi nos breves momentos ao teu lado, e aqui.
Não sei se foste tu que foste ou se sou eu que estou indo. Vives dentro de mim, no meu peito, livre no meu sentido de amizade imenso e na minha intensidade de mulher, com alguns resquícios de criança.
Serás sempre o meu amigo, serás sempre o meu amor.
Existem certos dias em que cada segundo marca a alma. Alma da vida e do mundo.
Existem certas horas em que o cansaço predomina. Cansaço de tudo e de todos.
Às vezes – muitas vezes – encho a cabeça de música ensurdecedora só para não escutar os teus passos caminhando no meu coração.
Não se pode perder aquilo de que nunca se fez parte e não se pode ganhar aquilo que nunca se teve como um todo.
O importante é ser feliz e sentirmos dentro de nós, com gratidão e alegria, a felicidade que geramos em todos os outros.
Obrigado. De nada.
Mais uma… e todas as outras.
Vitória ao rei.
Eu prefiro-me rainha. E sozinha. Do reino de mim.
Agora percebo. O que não entendia. O que via. E não queria ver.
Perdoa-me, Deus. Por acreditar. Que eu – simplesmente eu – chegaria.
Perdoa-me, Deus. Por ter vivido na fé. De que o que tenho – anoitecendo e amanhecendo dentro de mim - bastaria.
Perdoa-me, Deus. Porque, na verdade, senti mais alguém e não só a Ti. Entrego-me nas Tuas mãos. E de mim faz o que quiseres.
