Azazel Melo Autista

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"Assoreamento"
Marcio Melo


Sou rio corrente,
arrasto o que me dói.
Mas no peito se assenta
a lama que corrói.


Assenta devagar,
soterra o que eu sou.
Cobre o leito antigo,
apaga o que jorrou.


Sou só correnteza
sem fundo pra voltar.
Peso no meu peito
que não deixa amar

Lugar de Mato
Marcio Melo


Eu queria ir pra um lugar
onde o vento sopra paz,
onde revoada canta alto
e o mato tem cheiro de mais.


Cheio de pássaro e terra
nos pés sem pressa de andar.
Sentado na porta da casinha de sapê,
só vendo o tempo passar.


Longe da cidade imunda,
poluída de gente vazia,
que se consome e se acaba
morrendo sem alegria.


Quero uma vida que não seja
só passagem sem sabor.
Quero erguer lembranças minhas
como quem ergue um castelo.


Um lugar onde se sonha
e o sonho vira real.
E morrer abraçado ao mato,
com a paz no coração.

Meu Amor
Marcio Melo


Em algum momento desta vida
eu terei meu amor.
E aí a gente vira sentido,
complemento, um só coração.


Até que os beijos, os abraços,
as carícias virem eternas.
Cada instante virando inspiração
pra quem se entrega sem preço.


Pra amar sem medo,
arriscar tudo por um beijo,
se aventurar no verdadeiro
e não soltar mais depois.


Só quero dormir e acordar
do lado de quem faz tudo ter sentido.
E amar cada dia
como se fosse pra sempre amar.

Febril
Marcio Melo


Enquanto a febre queima
e a dor inflama,
a solidão espreme a alma
até ela pedir licença pra ir.


Fechado no meio da multidão,
numa cidade que não para.
Nada é fixo, tudo gira
no furor de quem trabalha até morrer.


Onde está o fio da vida?
Escapa entre as dores,
entre o vazio cansado
de quem não tem tempo pra existir.


Aqui na cama, debaixo do cobertor,
derreto fritando na febre.
O quarto cheio de objetos inúteis,
empoeirados, mortos como eu.


O corpo na cama doente
sepulta o último desejo de viver.

Fragmentos de Mim
Marcio Melo


Somos fragmentos de vida,
folhas soltas no outono.
Caindo pouco a pouco,
levadas pelo vento que o tempo soprou.


Secas ao tocar o chão,
amareladas, sem cor.
Cada uma se desfaz em silêncio,
sem deixar rastro do que foi.


O tempo amarelou cada dia,
cada ano que assentou na terra.
E hoje não sobra vestígio
da vida que um dia fui.

Dias Fechados
Marcio Melo


Tem dias que é melhor não levantar.
Tem dias que nem banho tira o peso.
A água corre, limpa a pele,
mas não alcança o que dói por dentro.


Tem dias que viver
é morrer um pouco a cada hora.
Preso na cama, casa trancada,
enquanto o mundo lá fora não para.


O cabelo entope o ralo,
o café esfria no bar da esquina.
A tosse prende na garganta,
o frio castiga quem não tem pra onde ir.


Tem dias que é melhor nem sair.
Adoecer no quarto fechado,
deixar que o tempo furte o que sobrou.
Deixa-me aqui sozinho,
deitado com a dor,
na companhia do meu sofrimento.


Tem dias.
Tem dias que é melhor nem sair de casa
Tem dias ruins.

Versador
De Marcio Melo
09/2023


Um versador versava versos
pra cantar sobre o amor.
Às vezes vinham em rima,
outras vinham em prosa,
e ele lançava ao vento
sem saber pra onde vão.


Com o tempo, sem perceber,
foi ficando romântico.
De tanto falar de amor,
de tanto escrever o nome,
acabou se apaixonando
pelo que ele mesmo criou.

Sobre Amar
Marcio Melo


Se alguém me disser que não vale a pena amar,
eu diria que é o mesmo que
cortar as asas de um pássaro e impedir ele de voar.


Ou como um rio sem água,
que nunca vai encontrar o mar.


Será que vale a pena um pássaro não voar?
Será que existe rio sem água chegando ao mar?


Então eu pergunto:
qual o sentido da vida,
se não vale a pena amar?

As Rosas e Seus Espinhos
Marcio Melo, 14 anos


As rosas são lindas, coloridas, perfumadas.
Suas pétalas lisas, macias como seda.


Você desliza a mão no caule...
e os espinhos afiados te lembram:
tudo que defende, também fere.

(Sobrevivência)
Por Marcio Melo


Às vezes não dá pra estar onde todo mundo está
e abraçar a todos.


Às vezes é preciso ser seletivo.
Até se afastar de algumas pessoas
por autopreservação e sobrevivência.


Alguns grupos se formam pra buscar melhorias
e nos ajudam a alcançar objetivos em comum.


Mas outros se aproximam só pra sugar
e nos infectar com o veneno deles.


Às vezes, mesmo amando, é necessário
se distanciar
pra não ser destruído por quem já desistiu de tudo.

"Rotina de um Autista na Periferia"
Por Marcio Melo


Sou prisioneiro do desespero alheio.
Onde gritos, ruídos e barulhos se misturam ao caos inflamado de uma capital inquieta, sem paz.


Me sinto fechado numa sepultura.
A miséria e a pobreza sem espírito se manifestam na bagunça, no barulho que quase sempre vira violência.


Eu, trancado no meu quarto, não saio.
Estou isolado, cercado por violências externas de pessoas transtornadas que se consomem em álcool e outras substâncias.
Sons altíssimos, sem respeito nenhum.
Eu, encolhido, me sinto exposto.


Minha mente colapsa diante do terror que vira a noite.
Só acaba quando o dia nasce.


Desgastado, exausto, me recomponho pra rotina.
Uma rotina dividida entre o pânico da tormenta da noite, que vara a madrugada,
e a responsabilidade de sobreviver ao dia.

Manifesto do Nadar


Bati de frente com a ilusão e me decepcionei.
Schopenhauer me mostrou o mundo sem filtro. Dói, mas é real.


Nietzsche me deu a chave: se não tem sentido pronto, cria o teu.
Libertar-se é parar de pedir permissão pro rebanho.


Sartre pesou essa liberdade.
Você é livre, sim. Mas cada escolha tua carrega consequência.
Ninguém vive por você, e você não vive por ninguém.


Bauman me ensinou a nadar entre os maremotos.
O mundo é líquido, caótico, sem chão.
Não parei a onda. Aprendi a não me afogar nela.


E quando achei que precisava explicar tudo, veio Clarice:
_Nem tudo pede explicação. É mistério._


Então eu sigo.
Sem ilusão, com liberdade, carregando a responsabilidade,
nadando no caos, e respeitando o que não cabe em palavra.


Filosofando com os filósofos
De Marcio Melo

"A Maior Prisão"

A maior prisão do mundo
não tem grades.
Tem nome:
medo de não existir.

É a dor de acordar
num mundo onde foste inserido
e sentir que não fazes parte dele.
Viver se perguntando:
por que estou aqui?

É ser a prova viva
de que nunca viveste —
por medo de ser livre.

Porque liberdade fere.
Te deixa vulnerável, exposto,
sem parede pra te esconder.
Mas é ela que abre a porta.

As mesmas coisas que hoje te rasgam
serão amanhã teu aprendizado,
tua matéria-prima,
tua conquista.

E um dia
tu vais sentar de frente pro horizonte,
olhar o passado como quem assiste um filme,
e pensar:
tudo isso... foi meu.

Minha maior conquista
foi ter vivido.

Marcio Melo

"A nossa perspectiva de mundo, influenciará e moldar toda nossa vida e história."


Cosmovisão
Por marcio melo

Por amor à beleza
se prende um passarinho e cortam as pontas de suas asas.
Se arrancam as flores que crescem livremente
para decorar o ambiente —
e assim que murcham, são dispensáveis.

Por amor à beleza
aprisionam a alma livre
que agora sofre por não ter mais a liberdade.

Por amor à beleza
encobrem o natural com camadas artificiais.
Destroem em dias
o que a natureza levou décadas para gerar.

Por amor à beleza
a gente se destrói,
dando origem ao que não existe.
Ao que não é real.
Por arrogância.
Por necessidade de nos enganar.

E assim aplaudimos
a ilusão que construímos
a partir da beleza que destruímos.

Deformação
Marcio Melo

As Antigas Ruas de Pedras Lavadas


As antigas ruas de pedras,
as casas com cercas de ripas,
cobertas de rosas da roseira
que se alastrava
e se emendava com a da vizinha.


Colorindo.
Perfumando.
Um tempo que deixou saudade.


Na lembrança de um menino
que pensava como quem amava.
Inspirando versos.
Cresceu.
Tornou-se poeta.


Hoje ele vê
nas ruas antigas enfeitadas de roseiras
ruas de pedras lavadas
que ainda inspiram poemas.


Tempo de um tempo
onde ser criança
era viver a beleza encantadora da vida.


O menino cresceu
sem perder a essência.
Hoje é romancista. é poeta.


Marcio Melo

Fruta Caída


Aquela fruta que cresce na árvore
mas o vento forte a derruba
antes de amadurecer.


Enquanto as outras, firmes no galho,
amadurecem no seu tempo.


Ela se rompe.
Interrompida.
Começa a apodrecer.


Dispensada pelos pássaros
que se deliciam nas que ficaram,
só os fungos a comem


Mas fruta caída vira adubo.
O que apodrece no chão
alimenta a raiz da árvore.


Talvez o interrompido
não seja lixo.
Talvez seja o que faz
a próxima safra crescer mais forte.


A vida não desperdiça o que caiu.
Ela recolhe, transforma,
e faz do que apodreceu
motivo de vida nova.


Marcio Melo

"Descansa o peito,a água baixa e a aliança fica"




A chave
Marcio Melo

Saudade
por Marcio Melo


Saudade são pessoas.
É um tempo onde momentos vividos marcaram profundamente a vida,
com gente importante que significava tudo.


Saudade de abraços, de sorrisos.
De casa, família e amigos.
De mesa farta, de festas repletas de felicidade.


Ah, que saudade...
Só de lembrar do tempo que abriu um espaço que nunca se fechou.
Eram momentos.
E a vida é feita de momentos que valem a pena lembrar.


Ruas de terra.
O cheiro de mato molhado.
O pé de manga que eu subia, lá de cima parecia que eu estava voando.
Os tios e tias.
As brincadeiras com amigos, primos, primas, irmãos correndo.


Era uma alegria que contagiava.
Cada brincadeira era uma conquista
que ficou registrada na memória
pra um dia lembrar suspirando e chamar de saudade.


Que saudade.

Os Sonhos
por Márcio Melo


Acho que eu já disse
que sou um sonhador.


Eu acredito.
Acredito na vida, na felicidade como uma busca interior.
Acredito no amor como sentido da vida,
que o amor cura qualquer ferida.


Eu sei que já disse isso muitas vezes:
sou um sonhador.
Os sonhos são possibilidades que projetamos na alma,
e acreditar é parte da realização.


Sou sim sonhador.
E sei que sonhar não é ilusão.


Sonhos que não motivam,
que não se tornam realidade,
são projeções desistidas
de alguém que se permitiu desacreditar
e perdeu o sentido da vida.


Mas pode sim voltar a sonhar,
recuperar o sonho perdido
e se realizar.


Por isso acredito:
vale a pena sonhar.

Quanto Tempo?
por Marcio Melo


Quanto tempo você tem?
Segundos, horas, dias, meses, anos, décadas, milênios...
Ou quem sabe a eternidade?


Só pare e reflita por alguns instantes:
Quanto tempo?


Eu não sei quanto tempo ainda me resta
até que meu fôlego acabe.
Acredito que a maioria também não sabe.


Mas do que estamos falando, então?
De tempo?
Ou de vida?


Dos dois. Sim.
Ambos andam de mãos dadas,
e só um continua a partir de um ponto na vida.
O tempo sempre segue sozinho.


A vida é um tempo finito, com prazo de validade.
Como diziam os antigos que passaram por este mundo:
_"Somos só passageiros."_


As adaptações, as transições, as mudanças
que vivemos como aprendizado de sobrevivência...
já que ninguém nasce com manual.


Viver está de fato ligado ao tempo.
São nossas perspectivas que nos definem
e nos colocam em algum momento no tempo.


Mesmo considerando passado, presente e futuro,
sabemos: este lugar no tempo é o que temos.
E só temos o agora.


É onde a pergunta inicial faz todo o sentido:
Quanto tempo você tem?


Bom, só temos o agora.
Ficam lembranças e projeções,
mas o que permanece é o agora.

Não Permita Morrer Sem Realizar
por Marcio Melo


Às vezes abandonamos alguns projetos
do que gostaríamos de realizar,
porque permitimos que os problemas e as dificuldades da vida
nos engulam e sufocam parte do que realmente faria sentido.


Começamos a planejar ainda jovens, no início da vida.
Mas acabamos nos envolvendo com obrigações, responsabilidades e compromissos
que dizem mais respeito aos outros e seus projetos do que aos nossos.


E a vida vai passando,
e sem se dar conta, enterramos o que elaboramos com tanto carinho e acreditamos.


Mas o tempo passa.
A juventude enérgica e motivada que planeja e sonha,
capaz de desbravar o mundo,
é afogada em um mar de ilusões, distrações e falsas realizações.
Essas que nunca são as nossas.


Mas se a vida, mesmo no fim, te der só uma única oportunidade...
abrace. Pegue.
Tire do papel para a realidade seus sonhos, seu projeto.


Não permita morrer
sem que pelo menos um seja realizado.

"Quem é você?"
É a pergunta que a identidade-armadura não aguenta, porque ela exige resposta sem etiqueta, sem hashtag, sem palco.


E a resposta que você deu depois é o contragolpe:
A árvore não precisa declarar “sou árvore” o tempo todo. Ela só é.
O gato não passa o dia explicando por que não é cachorro. Ele caça, dorme, mia. Pronto.


O problema começou quando a gente esqueceu que ser humano também tem um “só ser”.
A gente trocou o ser pelo provar, pelo performar, pelo justificar.


Então a pergunta pra Gen Z e pras que vêm depois não é “qual identidade você escolhe hoje?”.
É: o que sobra de você quando tira todas as identidades?


Se a árvore tirasse a casca, ainda seria árvore.
Se o gato tirasse o pelo, ainda seria gato.
Se você tirar as máscaras, ainda sobra algo que não precisa de aprovação pra existir.


É aí que mora o “quem é você” de verdade. E é isso que nenhuma pauta, geração ou algoritmo consegue te dar ou tirar.


Por Marcio Melo

Manifesto:
Pelo Humano por Trás da Máscara


Nós não somos a soma das nossas etiquetas.
Não somos um conjunto de pautas, identidades e algoritmos.
Somos pessoas contraditórias, com medo, desejo e uma história que não cabe em 15 segundos.


Durante décadas escondemos o medo atrás de máscaras.
Hoje expomos tudo e chamamos de liberdade.
Mas expor sem escolher virou uma nova prisão: livre pra ser tudo, preso pra não ser nada por tempo suficiente pra virar real.


A tradição assusta porque lembra o que nos sufocou.
O novo assusta porque ameaça o chão que conhecemos.
E no meio desse choque, a gente esqueceu do mais básico: ver o outro como gente, não como categoria.


Identidade não pode virar armadura.
Quando vira, protegemos a imagem e matamos o encontro.
Quando vira, discutimos, performamos, cancelamos — mas não nos tocamos.


Não vamos trocar uma desumanização pela outra.
Não vamos trocar o silêncio forçado pela gritaria vazia.


Queremos um espaço onde seja possível nomear sem congelar.
Mudar sem ser apagado.
Errar sem ser cancelado.
Ficar em silêncio sem ser acusado.


O futuro não vai ser construído por quem grita mais alto,
mas por quem tem coragem de parar, olhar nos olhos, e perguntar:
“Por trás dessa máscara, quem é você?”


Porque no fim, nunca foram os lobos na árvore.
Sempre foi o medo que a gente se recusou a encarar.
E é hora de encarar.


Se você também está cansado de performar e quer voltar a existir, compartilha isso.


Análise
Psicossocial
Por marcio melo

Inserida por marcio_henrique_melo

"O conhecimento ergue a mente como quem ergue uma casa: abre janelas, amplia os cômodos.
Só que ao clarear os cômodos, ele mostra quem não consegue mais morar ali com você."


Marcio Melo