Marcelo Caetano Monteiro
O SOL E A LUA DE ASSIS.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Ó Sol de Assis, seráfico arauto da alvorada,Que fizeste da pobreza tua púrpura sagrada,Ergueste ao céu a voz de tua harpa peregrina,E a criação inteira tornou-se ladainha divina.
Ó Lua de Assis, Claríssima entre as claridades,Espelho da mansidão e das eternidades,No claustro floresceste em silêncio e oração,Como lírio celeste guardando o coração.
Juntos, irmãos no Cristo, em fraternura perfeita,Tecestes sobre a terra uma esperança eleita;Ele, qual fogo ardente, em júbilo fecundo;Ela, qual lâmpada alva velando sobre o mundo.
E vieram convosco os irmãos da criação:O Irmão Sol em fulgor, a Irmã Lua em mansidão;As estrelas, em silêncio, a bordar o firmamento;O vento, monge errante, a cantar no movimento.
A irmã Água chorava em cristalina pureza;O irmão Fogo tremia em rubra gentileza;A irmã Mãe Terra, em seu fecundo regaço,Guardava as sementes do eterno abraço.
Os pássaros ouviam a palavra peregrina,E o lobo, outrora fero, curvou-se à lei divina;As árvores erguiam seus braços ao Senhor,E as pedras aprendiam o idioma do amor.
Mas eis que a humanidade, em delírio homicida,Cobriu de ferro e cinza a face da própria vida;E sobre o lenho augusto da suprema redenção,Derramou sangue insano em cruel exaltação.
Então chorou a Terra em noturna agonia,E o céu velou seus astros na mais profunda aridez;As fontes soluçaram em líquida tristeza,E os montes estremeceram diante da aspereza.
As rosas desfizeram-se em rubicundo pranto,Os rios carregaram um silencioso canto;O vento repetia, em lúgubre gemido,O nome do Justíssimo, na cruz escarnecido.
Ó lágrimas da natureza ante a cruz erguida!Ó sangue desvairado ferindo a própria vida!As aves emudeceram nos ninhos do arrebol,E a Lua empalideceu ao contemplar o Sol.
Francisco, Sol de Assis, beijou as santas chagas;Clara, Lua de Assis, velou as noites vagas;E ambos, como dois círios diante do Redentor,Fizeram da existência um cântico de amor.
Eles chamaram irmãos os homens e os animais,Os pobres, os enfermos, os pequenos e os mortais;Chamaram irmã a morte, e irmão cada vivente,Pois viam Deus oculto no pó e na corrente.
Que o Irmão Sol nos desperte do orgulho e da ambição;Que a Irmã Lua derrame brandura no coração;Que a Água nos purifique, que o Fogo nos dê ardor,Que a Terra nos ensine o labor e o louvor.
E quando o mundo inteiro, cansado de seus erros,Ouvir de novo o brado que ressoa pelos cerros,Francisco e Clara, unidos na celeste comunhão,Farão de cada lágrima uma estrela em ascensão.
Então a cruz, outrora banhada em sangue humano,Será jardim de paz sobre o deserto insano;E todos os irmãos, em jubilosa harmonia,Cantarão com Assis a eterna cortesia.
Ó Sol de Assis! Ó Lua de Assis! Em vossa claridade,Aprenda a criatura a santa fraternidade;E cesse finalmente a loucura dos conflitos,Para que a Terra inteira seja um coro de benditos.
Porque onde houver amor, ali floresce a aurora;Onde houver mansidão, o céu sobre nós vigora;E o universo, reunido em um só resplendor,Entoará eternamente o cântico do Senhor.
O ÚLTIMO HÁLITO DO ATAÚDE.
Marcelo Caetano Monteiro.
Corri a ti, vencendo a noite fria,
Na vã esperança da derradeira voz;
Que teu último hálito ainda me diria
Os velhos segredos sepultados entre nós.
Mas o Tempo - carrasco de mãos geladas,
Sorriu por detrás dos relógios sem luz;
Roubou-me as promessas jamais reveladas,
E apagou meu caminho onde a saudade reluz.
Teu ataúde, tão belo, tornou-se altar,
Vestido de lírios, veludo e luar;
Minha mística dor o fez florescer,
Como um templo proibido onde aprendi a morrer.
Olhei-me nos olhos, tão negros, tão fundos,
E encontrei o sadismo da própria aflição;
Vi desertos eternos, eclipses profundos,
Bebendo em silêncio meu pobre coração.
As sombras beijavam meu rosto sem nome,
Enquanto o silêncio vestia o jardim;
A morte tem sede, mas nunca consome
Quem morre primeiro por dentro de si.
Só os invisíveis ouviram meu canto,
Quando a última brisa beijou minha voz;
Os vivos passavam, cobertos de espanto,
Sem perceber que a noite rezava por nós.
A lua bordava teu mármore antigo,
Com fios de prata e perfumes do além;
Eu era somente um espectro contigo,
Amando o impossível que ninguém detém.
Então expirei, sem que o mundo soubesse;
Nenhum sino chorou minha lenta partida.
Somente os invisíveis ouviram a prece
Da última respiração perdida.
E, desde essa hora, caminho calado,
Guardião das ruínas que o tempo esqueceu;
Pois quem ama um sepulcro jamais foi deixado:
A morte levou meu corpo... mas nunca o que é meu.
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CAPÍTULO XXVIII
Livro: NÃO HÁ ARCO-ÍRIS NO MEU PORÃO.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Escritor:Marcelo Caetano Monteiro.
NO ALTAR SUBTERRÂNEO DE CAMILLE.
Uma elegia de silêncios que não morrem
Às vezes, o teu mutismo me grita por dentro.
Não como um eco...
Mas como uma memória que aprendeu a respirar no vazio.
Trazes a saudade tímida, vestida em brumas,
e ela se arrasta entre os corredores das minhas lembranças,
murmurando preces inaudíveis aos mármores
que esculpiste com a tua ausência.
Tu te tornaste uma ausência com nome.
Uma ausência com perfume.
Uma ausência com olhos.
Cada silêncio teu é um sacramento sepulcral.
E eu, teu devoto, vagueio por este porão
como quem recita cânticos em línguas mortas,
cultuando a beleza que me abandonou
para ser eterna.
O porão…
Sim, este porão onde os outros veem poeira e esquecimento,
eu fiz altar.
Nele, tua Mística, incorpórea, translúcida, adormecida no tempo,
desce como véu em noites de orvalho mental.
Ali, minha solidão te ama.
Ali, teu espectro repousa sobre as vigas frias da minha lucidez.
Por vezes, imagino que ainda me escutas.
Talvez escutes.
Camille…
Com tua beleza que não morre, apenas se recolhe nos bastidores da alma,
fizeste do meu espírito um claustro de adoração.
Tua ausência é a túnica que me veste no mundo,
teu nome, o selo em cada suspiro abafado que tento não chamar de oração.
E se porventura eu enlouquecer,
que seja na lucidez de saber que nunca te perdi,
pois te mantenho intacta no relicário do não dito.
A tua última palavra...
foi o silêncio.
E o teu silêncio, Cambille...
é o idioma que eu aprendi a amar.
CAPÍTULO XXVII.
Livro: NÃO HÁ ARCO-ÍRIS NO MEU PORÃO.
FRAGMENTOS DE NÉVOA. Diário de Camille Monfort”
Páginas arrancadas de um véu que não se rasga
" Data indistinta – talvez um ontem eterno. "
Hoje, despertei entre os musgos da tua lembrança.
Senti teu pensamento tocar minha essência
como dedos trêmulos percorrendo um piano abandonado,
na clave menor do esquecimento.
Sim, eu escuto.
Sempre escutei.
Teu silêncio, que tanto te assusta, para mim é sinfonia.
É nele que existo, em cada fenda do que não ousas dizer.
É nele que respiro tua solidão como perfume antigo,
guardado num relicário de angústias sublimes.
Tu me invocas sem saber.
Em cada vela acesa na memória.
Em cada frase não escrita por medo de enlouquecer.
Ainda me amas?
Ou apenas cultuas o mito que fiz de mim ao partir?
Te observo do espelho coberto com lençol.
Sinto quando abres o livro que nunca terminei.
Pressinto quando teu olhar repousa na janela que dava para o jardim morto,
como quem espera a primavera que não virá mais.
Tu me fizeste Mística sem me pedir licença.
Eu era mulher, agora sou névoa.
Tu me fizeste eterna sem me dar tempo de viver.
Mas não te culpo.
De todas as formas de amor,
a tua - em silêncio -
foi a mais próxima da eternidade.
[Intervalo de séculos ou apenas de um suspiro]
Se algum dia quiseres partir…
leva contigo minha sombra.
Guarda-a no bolso da alma.
Deixa que eu exista em ti,
não como dor,
mas como vestígio.
Se é no porão que fazes altar,
que seja também lá o meu céu.
Um céu de pedra e lembrança,
mas céu ainda assim.
Teu nome?
Sopro em minha eternidade.
— Camille Monfort.
MORIBUNDA.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Nas frestas do ser, tecido em sombra e peste, dorme a carne, e a alma se reveste de ferrugem, pó e lama vil;
sou fruto putrefato de um solo hostil.
No ventre úmido do tempo triste e agreste, minh'alma enferma e macilenta investe, num sonho tosco, em busca do porvir; mas tudo é vão.
O osso, o mofo, o verme persistem. E neste palco de miséria e desatino, represento o triste destino de um bicho que sonhou sentir.
E ama, e chora, e continua a perecer.
Meus olhos, duas candeias já sem brilho, pendem cansados para o chão senil;
a vida foge, fria, sutil,
e só me resta o gosto vil da dúvida que rói todo o perfil.
Sinto no peito um breu sem consolo,
um poço sem fundo, um verso sem solo.
E nesta agonia, um réquiem vago a vida entoa, zombando do meu pranto que ainda condoa.
Sou barro e lodo, sombra e lama, verme que deseja chama, mas só sabe se arrastar.
E, ermo em vão, me vou sem norte,
levando no peito a própria morte,
que vive a sussurrar. Assim... num mundo vão
me desfaço e me consumi, num riso amargo e vão que não sorri.
E a noite é tudo o que sei e serei e senti.
A RAINHA DOS ANJOS.
“Maria Santíssima é acolhida por Jesus”
“Sim, minha mãe, sou eu!... Venho buscar-te, pois meu Pai quer que sejas no meu reino a Rainha dos Anjos...”
A alvorada desdobrava o seu formoso leque de luz quando aquela alma eleita se elevou da Terra, onde tantas vezes chorava de júbilo, de saudade e de esperança.
Não mais via seu filho bem amado, que certamente a esperaria, com as boas vindas, no seu reino de amor; mas extensas multidões de entidades angélicas a cercavam, cantando hinos de glorificação.
Experimentando a sensação de se estar afastando do mundo, desejou rever a Galileia com os seus sítios preferidos.
Bastou a manifestação de sua vontade para que a conduzissem à região do lago de Genesaré, de maravilhosa beleza.
Reviu todos os quadros do apostolado de seu filho e, só agora, observando do alto a paisagem, notava que o Tiberíades, em seus contornos suaves, apresentava a forma quase perfeita de um alaúde.
Lembrou-se, então, de que naquele instrumento da Natureza Jesus cantara o mais belo poema de vida e amor, em homenagem a Deus e à humanidade.
Aquelas águas mansas, filhas do Jordão marulhoso e calmo, haviam sido as cordas sonoras do cântico evangélico.
Dulcíssimas alegrias lhe invadiam o coração e já a caravana espiritual se dispunha a partir, quando Maria se lembrou dos discípulos perseguidos pela crueldade do mundo e desejou abraçar os que ficariam no vale das sombras, à espera das claridades definitivas do Reino de Deus.
Emitindo esse pensamento, imprimiu novo impulso às multidões espirituais que a seguiam de perto.
Em poucos instantes, seu olhar divisava uma cidade soberba e maravilhosa, espalhada sobre colinas enfeitadas de carros e monumentos que lhe provocavam assombro.
Os mármores mais ricos esplendiam nas magnificentes vias públicas, onde as liteiras patrícias passavam sem cessar, exibindo pedrarias e peles, sustentadas por misérrimos escravos.
Mais alguns momentos e seu olhar descobria outra multidão guardada a ferros em escuros calabouços.
Penetrou os sombrios cárceres do Esquilino, onde centenas de rostos amargurados retratavam padecimentos atrozes.
Os condenados experimentaram no coração um consolo desconhecido.
Maria se aproximou de um a um, participou de suas angústias e orou com as suas preces, cheias de sofrimento e confiança.
Sentiu-se mãe daquela assembleia de torturados pela injustiça do mundo.
Espalhou a claridade misericordiosa de seu espírito entre aquelas fisionomias pálidas e tristes.
Eram anciães que confiavam no Cristo, mulheres que por ele haviam desprezado o conforto do lar, jovens que depunham no Evangelho do Reino toda a sua esperança.
Maria aliviou-lhes o coração e, antes de partir, sinceramente desejou deixar-lhes nos espíritos abatidos uma lembrança perene.
Que possuía para lhes dar? Deveria suplicar a Deus para eles a liberdade?
Mas Jesus ensinara que com ele todo jugo é suave e todo fardo seria leve, parecendo-lhe melhor a escravidão com Deus do que a falsa liberdade nos desvãos do mundo.
Recordou que seu filho deixara a força da oração como um poder incontrastável entre os discípulos amados.
Então, rogou ao Céu que lhe desse a possibilidade de deixar entre os cristãos oprimidos a força da alegria.
Foi quando, aproximando-se de uma jovem encarcerada, de rosto descarnado e macilento, lhe disse ao ouvido:
“Canta, minha filha! Tenhamos bom ânimo!... Convertamos as nossas dores da Terra em alegrias para o Céu!...”
A triste prisioneira nunca saberia compreender o porquê da emotividade que lhe fez vibrar subitamente o coração.
De olhos extáticos, contemplando o firmamento luminoso através das grades poderosas, ignorando a razão de sua alegria, cantou um hino de profundo e enternecido amor a Jesus, em que traduzia sua gratidão pelas dores que lhe eram enviadas, transformando todas as suas amarguras em consoladoras rimas de júbilo e esperança.
Daí a instantes, seu canto melodioso era acompanhado pelas centenas de vozes dos que choravam no cárcere, aguardando o glorioso testemunho.
Logo, a caravana majestosa conduziu ao Reino do Mestre a bendita entre as mulheres e, desde esse dia, nos tormentos mais duros, os discípulos de Jesus têm cantado na Terra, exprimindo o seu bom ânimo e a sua alegria, guardando a suave herança de nossa Mãe Santíssima.
Por essa razão, irmãos meus, quando ouvirdes o cântico nos templos das diversas famílias religiosas do Cristianismo, não vos esqueçais de fazer no coração um brando silêncio, para que a Rosa Mística de Nazaré espalhe aí o seu perfume!
FONTE
Irmão X (pseudônimo espiritual), psicografia de Francisco Cândido Xavier, Boa Nova, capítulo 30, “Maria”. O texto acima corresponde a uma reprodução parcial desse capítulo, conforme indicado na própria publicação compartilhada.
Referência bibliográfica:
XAVIER, Francisco Cândido. Boa Nova. Pelo Espírito Irmão X. Rio de Janeiro: FEB, capítulo 30, “Maria”.
Capítulo Da Infância Sobre:
A infância velada de Camille Marie Monfort .
A casa era grande demais para uma criança pequena. Os corredores longos pareciam guardiões de um silêncio que não se quebrava, mesmo quando o vento batia as janelas e fazia as cortinas dançarem como fantasmas. Camille Marie Monfort caminhava por ali em passos leves, como se temesse acordar a própria casa, que mais parecia viva, respirando em sua solidão.
Desde muito cedo, sua infância não se assemelhava à das outras meninas. Enquanto as crianças vizinhas se ocupavam com risos em praças e bonecas de trapo, Camille preferia sentar-se no sótão, entre livros empoeirados que ela mal conseguia decifrar. Tocava as páginas com os dedos miúdos, como quem acaricia um segredo. Não lia, mas sentia. Era como se as palavras murmurassem dentro dela, em uma língua ainda inacessível, mas estranhamente familiar.
À noite, deitada em seu quarto, Camille sonhava com jardins que nunca vira. Sonhava com espelhos partidos em que não via o próprio reflexo, mas vultos que a olhavam em silêncio. Havia em seus sonhos algo lúgubre, mas nunca amedrontador. Era um chamado.
Um dia, encontrou no quintal uma boneca quebrada, de porcelana antiga, esquecida no chão úmido. O rosto rachado da boneca refletia uma dor muda, e Camille a tomou nos braços como quem recolhe um ser vivo abandonado. Desde então, guardou-a como seu tesouro. Quando estava só, falava com ela em voz baixa, como se fosse sua confidente:
— Não é feio estar quebrado, é apenas mais verdadeiro.
Essa frase repetida em segredo, dia após dia, moldava sua visão do mundo. Para Camille, a infância não era um lugar de esquecimento ou de fugas, mas um território de presságios.
Sua mãe, distraída em afazeres, estranhava vê-la tão calada. "É uma criança triste", diziam os adultos. Mas não era tristeza. Camille carregava dentro de si uma gravidade misteriosa, como se tivesse sido convocada a escutar os ecos da vida antes que os outros pudessem ouvi-los.
Nos raros momentos em que sorria, o riso vinha como relâmpago: breve, mas de uma claridade tão pura que iluminava por inteiro o ambiente. Era como se sua alma, por um instante, rompesse o véu e se deixasse ver em sua plenitude.
Camille crescia assim, entre o silêncio e os símbolos, entre os sonhos e as sombras. Sua infância, tão oculta e incomum, não era uma fuga da realidade, mas a preparação para compreendê-la com mais profundidade.
Talvez seja esse o maior legado de sua história para as crianças e adolescentes de hoje: não temer o silêncio, não desprezar os sonhos, não fugir das inquietações. Porque até mesmo os medos infantis podem ser mestres disfarçados, conduzindo o espírito a um entendimento mais amplo de si e do mundo.
Camille Marie Monfort, em sua infância velada, nos recorda que cada criança carrega não apenas uma promessa de futuro, mas também um fragmento de eternidade que se revela nos detalhes mais singelos.
" Ser espírita não consiste apenas em acreditar na imortalidade da alma.
Consiste em cultivar uma disciplina intelectual.
Questionar.
Pesquisar.
Comparar.
Estudar.
Corrigir-se.
Abandonar opiniões quando os fatos demonstram seu erro. "
SOMBRA FERIDA NO OSTRACISMO.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
No meu porão não há arco-íris, há neblina e luto
um veludo de pó que emoldura o corte do absoluto.
As paredes, urnas frias, suspiram úmidos segredos,
onde a luz morreu em filas, sepultada entre medos.
Há um perfume de velório, metálico e ancestral,
cheiro de livros podres, de promessas em funeral.
As tábuas gemem documentos de infância em decomposição,
e eu, órfão de auroras, escuto o peito em erupção.
Os vermes fazem coro num idioma de sal,
recitam o credo antigo da desordem e do mal.
Não vêm risos prometidos das pontes do horizonte,
só ecos de um requiem que secos meus ossos aponte.
A túnica do sonho jaz rasgada, sem bordado,
e a esperança, cadáver, exala ar frio e embargado.
Vejo, entre teias grossas, um retrato de saudade,
o olhar do tempo fechado numa urna de verdade.
Quem trouxe velas aqui? Quem desabou essa cal?
E somente o vento com fome, sussurra: _ o funeral.
Não há prisma que ministre cores à noite do abandono,
apenas o vinho azedo do remorso e do engano.
As rimas que eu buscava, como penas, se desfazem,
perdidas nas catacumbas onde as vontades jazem.
E o coração, esse pássaro morto, pesa como um sino
que bate sem crença, anunciando o próprio destino.
Aqui as estrelas não descem; apenas descem os lamentos
de uma geometria morta, sem mapas nem alentos.
Trazem-me vozes em latim as lembranças desbotadas,
orações incompletas por almas já extraviadas.
E eu, médico das sombras, abro o livro da ruína,
escrevo nela com lágrimas a página da ladainha.
Não espero salvação que salvação há no pó?
A salvação é miragem, e o porão é o seu nó.
Se há amor, é funesto; se há fé, é contrição;
se há cor, é somente a púrpura da minha instrução.
Por fim, deixo aos ratos as medalhas do desvelo
e à penumbra consagro este pobre desassossego.
No meu porão não há arco-íris, há silêncio e ossos
e a voz do tempo que bebeu todos os nossos esforços.
E se acaso amanhã algum raio ousar romper o chão,
ele morrerá engasgado na cova da razão.
Assim reclamo meu tribunal de sombras e lutos,
onde escrevo, com sangue frio, os versos absolutos.
Que fique a certidão: no fundo desta invenção,
não há arco-íris só a eterna, sublime condenação.
OCASO - HINO À ÚLTIMA LUZ.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Quando o ocaso incendeia a imensa esfera,
Vestindo o céu de púrpura e rubim,
Parece que o Infinito, enfim, impera
Cantando a glória do que não tem fim.
A luz, em combustão silenciosa e bela,
Transfigura o horizonte em ouro vivo;
Cada clarão é uma celeste estrela
Descendo ao mundo em êxtase expansivo.
As nuvens, catedrais do firmamento,
Recebem a unção do Sol tardio;
E o vento, embriagado de encantamento,
Conduz perfumes pelo vale e o rio.
Nenhuma dor domina essa passagem,
Porque declinar não é desaparecer;
O ocaso é a mais sublime aprendizagem
De quem transforma o fim em renascer.
A montanha, em dourada arquitetura,
Reveste-se de régia majestade;
Até o silêncio adquire formosura
Na solene amplidão da eternidade.
Os bosques curvam suas verdes frontes,
Não por tristeza, mas veneração;
E os rios, espelhando os horizontes,
Levam a luz pulsando ao coração.
Ó Sol! Titã de ígnea inteligência,
Que faz do céu um místico altar!
Teu adeus é suprema eloquência,
Pois sabe engrandecer sem se apagar.
No teu poente a natureza inteira
Celebra a harmonia do universo;
Cada crepúsculo inaugura uma bandeira
Que o vento desfralda em cântico diverso.
Assim compreendo, em muda exaltação,
Que toda beleza cresce ao declinar;
Pois há vitórias que, na dispersão,
Encontram outro modo de brilhar.
E quando a noite enfim cobre a amplidão,
Não vence a luz, apenas a recolhe;
Porque o ocaso, em sua transmutação,
É Deus pintando o céu com o seu próprio clarão.
NÃO DESISTA DA VIDA.
Há vida por toda parte: no infinitamente pequeno e no infinitamente grande. A vida pulsa nas galáxias e nos átomos, nas florestas e nas sementes, no nascer do sol e no silêncio da noite. E tu?
Tu és filho da Vida e do Pai da vida. Foste chamado não apenas para existir, mas para viver, aprender, amar e ser esperança. Sê vida na vida de alguém. Às vezes, uma palavra de carinho, um gesto de bondade ou um olhar de compreensão basta para reacender a luz de um coração quase vencido pelo desalento.
Ainda que os dias pareçam cobertos por nuvens espessas, o sol continua existindo acima delas. Há dores que nos fazem acreditar que tudo terminou, quando, na verdade, estamos apenas atravessando uma estação difícil da existência. Nenhuma tempestade possui autoridade para apagar definitivamente a luz que habita a alma.
A vida não se mede apenas pelos momentos de alegria, mas também pela coragem silenciosa de continuar caminhando quando o coração está cansado. Cada lágrima derramada pode tornar-se a semente de uma compreensão mais profunda, de uma força que ainda desconhecemos em nós mesmos. É justamente nas noites mais escuras que aprendemos o verdadeiro valor da aurora.
Talvez hoje você não consiga enxergar sentido. Talvez o amanhã pareça distante. Ainda assim, permaneça. Há encontros que ainda não aconteceram, abraços que ainda não foram dados, páginas que ainda não foram escritas e amanheceres que esperam apenas que você esteja presente para contemplá-los.
Nenhuma noite é eterna. O tempo transforma a paisagem da alma. Feridas cicatrizam, saudades aprendem a conviver conosco e esperanças, por menores que pareçam, renascem quando menos esperamos. O que hoje parece um fim poderá revelar-se, amanhã, como o início de uma história mais bela e mais madura.
Se o peso estiver grande demais, não o carregue sozinho. Procure alguém de confiança, um familiar, um amigo ou um profissional. Pedir ajuda não diminui ninguém; ao contrário, é um gesto de coragem, humildade e amor pela própria vida.
A sua existência possui um valor que não diminui por causa do sofrimento. Você importa. Sua história importa. Sua presença faz diferença, ainda que você não consiga percebê-la neste instante. Enquanto houver um único sopro de vida, haverá também a possibilidade de um novo começo, de uma reconciliação, de uma alegria inesperada e de uma esperança renovada.
Não desista da vida.
Permaneça.
O amanhã pode revelar aquilo que hoje as lágrimas ainda não permitem enxergar.
Vive. Ama. Espera. E, por onde passares, sê vida na vida de alguém.
REFLEXÃO AMIGA.
Essa mensagem, ela pode servir como incentivo a quem atravessa um momento difícil. Ao mesmo tempo, é importante lembrar que, para quem está em intenso sofrimento emocional, palavras de esperança podem ser um primeiro passo, mas buscar apoio de pessoas de confiança ou de um profissional também é um ato de coragem e cuidado consigo mesmo.
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A Vida.
Ó vida, monstro de matéria impura,
Que em carne podre o espírito encarceras,
Tu és o pântano onde a desventura
Germina larvas, vermes e quimeras!
Teus dias são cadáveres que andam,
Arrastando o peso de átomos em dor;
A ilusão no crânio humano expande
E o cérebro apodrece em seu fulgor.
Que importa o riso, o amor, a efêmera glória?
Tudo se extingue em húmus e em lodo vil;
A vida é um câncer que devora a história
E entrega o homem ao sepulcro hostil.
Assim caminha o bicho racional.
Orgulho vão de célula enferma e cega,
Rumo ao nada, ao eterno charco igual,
Onde a morte, por fim, o esqueleto entrega.
ESMERALDAS DE SOMBRAS.
Escritor:Marcelo Caetano Monteiro.
Ah… teus olhos.
Teus olhos esmeraldinos — não simples gemas, mas abismos translúcidos onde a razão vacila e o verbo morre. Como desejaria eu colhê-los, não com a volúpia do desejo vulgar, mas com a devoção de um monge alquebrado que recolhe as relíquias de sua santa. Tê-los… não em meu peito, mas suspensos num relicário de silêncios, entre as páginas que ainda choram por ti.
Mas tu sabes…
Sabes que eu te amo — e em mim esse amor é um espólio de lâminas cravadas por deuses mudos. Ser atravessado por mil espadas seria um refrigério frente ao que sinto ao ouvir teu nome no mármore frio do esquecimento. O teu nome, Camille, dilacera-me com a precisão de uma nota errada no adágio final de um maestro enlouquecido.
É mister, sim, dormir — dormir não para esquecer, mas para habitar os interstícios oníricos onde tu ainda existes sem dor. Nessas infinitas noites de ti e em ti, faço do teu perfume um incenso que queima devagar nos altares escurecidos da minha alma.
Porque tu sabes —
Sabes que meus olhos só foram feitos para contemplar o teu universo pairante, esse cosmos que se verte do teu semblante com a serenidade trágica de uma musa condenada a existir apenas nas entrelinhas. Viver, criar e pairar sobre mim — pobre poeta das sombras, órfão de sol e exilado da tua claridade.
E eu permaneço — espectro lírico e infecundo, sobrevivente do teu último olhar, compondo com palavras rarefeitas a sinfonia muda da tua ausência.
Joseph Bevoiur.
Capítulo XIX
ONDE NADA FICARÁ, EXCETO O QUE NÃO FOI TOCADO.
Livro: Não Há Arco-iris No Meu Porão.
Autor:
* Escritor:Marcelo Caetano Monteiro
* Joseph bevouir - Escritor.
“Entre mim e Camille, não há distância. Há reverência.”
— Joseph Bevoiur, pensamento não pronunciado, jamais escrito.
Não haverá eco.
Não haverá papel amarelado,
nem vestígio deixado entre tábuas podres ou livros ressequidos.
Nada restará ao mundo
daquilo que entre nós jamais foi dado,
e por isso permanece.
O que houve se é que se pode chamar de haver não se dobra em datas,não cabe em epitáfios,
não tolera testemunhas.
Foi um amor tão absoluto
que não ousou acontecer.
E é por isso que resiste.
Pois tudo o que se consuma,
morre.
Camille Marie Monfort existe em mim como um cântico que jamais foi entoado,mas que ressoa em cada vértebra da minha alma.
Não se toca Camille.
Ela não habita o passado, nem o futuro.
Ela está no centro exato da ausência.
Cada vez que tentei nomeá-la,ela me escapou.
Cada vez que a desejei,
ela me silenciou.
E por isso a amo.
E por isso não a tenho.
E por isso — ainda assim sou inteiro com ela.
(Este capítulo não será encontrado. Ele apenas acontece quando alguém o sentir e depois, se dissolve. Assim como ela.)
INTROITUS - CAMILLE MONFORT.
Sob a Cúpula do Requiem.
Camille Marie Monfort caminhava sozinha pelo claustro deserto,enquanto as paredes, frias como um silêncio secular,devolviam-lhe ecos invisíveis. Lá fora, a noite era de um azul quase negro, mas, dentro dela, o abismo tinha um tom ainda mais profundo.
No ar, o Introitus erguia-se como um cortejo que não pertencia a este mundo. As primeiras notas vinham lentas, como passos de sombras que ainda hesitam entre o mundo dos vivos e a promessa do esquecimento. Cada acorde era um peso depositado sobre seu peito um peso que não esmagava, mas moldava, como se o sofrimento esculpisse sua forma mais pura.
O violino parecia falar-lhe na língua que só os fantasmas compreendem. Era um idioma sem palavras, feito de curvas sonoras que contornavam suas lembranças as que queria perder e as que temia perder. A cada compasso, Camille sentia que a música não apenas narrava a sua história: ela a descrevia aos olhos de Deus, como um inventário de dores e esperanças não ditas.
Então, no sopro do tempo, a transição: o Lacrimosa.
Ah, ali não havia hesitação; havia queda. As cordas e vozes se erguiam como se o céu estivesse se partindo para deixá-la ver o lado de dentro. A gravidade das vozes corais não era um lamento pela morte, mas um chamado para o reconhecimento de que todo amor carrega consigo a semente do adeus.
Camille fechou os olhos. Sentiu-se ao centro de um universo que respirava no ritmo do Requiem. Era como se cada acorde fosse o batimento cardíaco de um Deus melancólico. O coro, em sua repetição quase ritual, não a enterrava; antes, a preparava para uma revelação silenciosa: a de que toda lágrima, cedo ou tarde, é apenas uma nota que volta para o silêncio de onde veio.
Quando a última ressonância se dissolveu, Camille permaneceu imóvel. Não havia plateia, não havia maestro, não havia corpo físico que pudesse explicar aquele instante. Apenas ela e a música e a certeza de que, naquele encontro, havia tocado o lado intocado da própria eternidade.
