INTROITUS - CAMILLE MONFORT. Sob a... Marcelo Caetano Monteiro

INTROITUS - CAMILLE MONFORT.

Sob a Cúpula do Requiem.

Camille Marie Monfort caminhava sozinha pelo claustro deserto,enquanto as paredes, frias como um silêncio secular,devolviam-lhe ecos invisíveis. Lá fora, a noite era de um azul quase negro, mas, dentro dela, o abismo tinha um tom ainda mais profundo.

No ar, o Introitus erguia-se como um cortejo que não pertencia a este mundo. As primeiras notas vinham lentas, como passos de sombras que ainda hesitam entre o mundo dos vivos e a promessa do esquecimento. Cada acorde era um peso depositado sobre seu peito um peso que não esmagava, mas moldava, como se o sofrimento esculpisse sua forma mais pura.

O violino parecia falar-lhe na língua que só os fantasmas compreendem. Era um idioma sem palavras, feito de curvas sonoras que contornavam suas lembranças as que queria perder e as que temia perder. A cada compasso, Camille sentia que a música não apenas narrava a sua história: ela a descrevia aos olhos de Deus, como um inventário de dores e esperanças não ditas.

Então, no sopro do tempo, a transição: o Lacrimosa.
Ah, ali não havia hesitação; havia queda. As cordas e vozes se erguiam como se o céu estivesse se partindo para deixá-la ver o lado de dentro. A gravidade das vozes corais não era um lamento pela morte, mas um chamado para o reconhecimento de que todo amor carrega consigo a semente do adeus.

Camille fechou os olhos. Sentiu-se ao centro de um universo que respirava no ritmo do Requiem. Era como se cada acorde fosse o batimento cardíaco de um Deus melancólico. O coro, em sua repetição quase ritual, não a enterrava; antes, a preparava para uma revelação silenciosa: a de que toda lágrima, cedo ou tarde, é apenas uma nota que volta para o silêncio de onde veio.

Quando a última ressonância se dissolveu, Camille permaneceu imóvel. Não havia plateia, não havia maestro, não havia corpo físico que pudesse explicar aquele instante. Apenas ela e a música e a certeza de que, naquele encontro, havia tocado o lado intocado da própria eternidade.