MORIBUNDA. Autor: Marcelo Caetano... Marcelo Caetano Monteiro
MORIBUNDA.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Nas frestas do ser, tecido em sombra e peste, dorme a carne, e a alma se reveste de ferrugem, pó e lama vil;
sou fruto putrefato de um solo hostil.
No ventre úmido do tempo triste e agreste, minh'alma enferma e macilenta investe, num sonho tosco, em busca do porvir; mas tudo é vão.
O osso, o mofo, o verme persistem. E neste palco de miséria e desatino, represento o triste destino de um bicho que sonhou sentir.
E ama, e chora, e continua a perecer.
Meus olhos, duas candeias já sem brilho, pendem cansados para o chão senil;
a vida foge, fria, sutil,
e só me resta o gosto vil da dúvida que rói todo o perfil.
Sinto no peito um breu sem consolo,
um poço sem fundo, um verso sem solo.
E nesta agonia, um réquiem vago a vida entoa, zombando do meu pranto que ainda condoa.
Sou barro e lodo, sombra e lama, verme que deseja chama, mas só sabe se arrastar.
E, ermo em vão, me vou sem norte,
levando no peito a própria morte,
que vive a sussurrar. Assim... num mundo vão
me desfaço e me consumi, num riso amargo e vão que não sorri.
E a noite é tudo o que sei e serei e senti.
