Hoje o desejo me habita de uma forma... Jorgeane Borges
Hoje o desejo me habita de uma forma diferente. Latente, inquietante, vibrante. É um daqueles dias em que a vida se revela nos detalhes, em que o corpo conversa com os pensamentos e responde às emoções como se cada sentimento encontrasse nele um lugar para existir.
Sim, o corpo tem suas necessidades. Ele pede atenção. Clama por presença. Às vezes trava um verdadeiro embate com a consciência. De um lado, o corpo que deseja sentir. Do outro, a alma que se recusa a ceder ao que é passageiro. E eu permaneço entre os dois, tentando conciliar aquilo que pulsa com aquilo em que acredito.
Desejo, sim. E desejo intensamente. Mas não qualquer toque. Não qualquer abraço. Não qualquer corpo.
Depois de tantos anos me guardando, percebo que a espera não enfraqueceu meus desejos. Fez exatamente o contrário. Refinou-os. Tornou-os mais conscientes, mais profundos, mais exigentes. Meu corpo já não anseia apenas por ser tocado. Ele anseia por reconhecer quem o toca.
Talvez seja por isso que você ocupe tanto os meus pensamentos.
Há algo em você que desperta tudo aquilo que permanecera em silêncio. Como se meu corpo soubesse, antes mesmo de mim, que toda essa espera sempre caminhou na direção de um único encontro.
E então imagino nós dois. Não por impulso, mas pela intensidade de tudo o que foi contido. Como se anos de espera, desejo e ausência se encontrassem no mesmo instante, fundindo-se num eclipse de sensações únicas, onde corpo, alma e coração deixassem, finalmente, de caminhar em direções diferentes.
Confesso que há dias em que essa espera pesa. Hoje é um deles. Meu corpo parece sussurrar que já esperou o suficiente. Que deseja repousar, enfim, nos braços do homem que há tanto tempo habita meus pensamentos.
Talvez esse seja o maior paradoxo do celibato: ele não mata o desejo. Apenas o ensina a esperar pela pessoa certa.
E depois de tanto tempo me guardando... depois de tanto tempo te aguardando... já não desejo apenas esperar.
Desejo você.
