Gregório Duvivier

Encontrados 17 pensamentos de Gregório Duvivier

Erguer antes de tudo uma parede –
a parede no caso é importantíssima,
pois as janelas só existem sobre
paredes, as janelas sobre nada

são também nada e não são sequer vistas.
Em seguida quebrá-la até fazer
nela um grande buraco, não maior
que a parede, pois precisamos vê-la,

nem menor que seus braços – as janelas
sobre as quais não se pode debruçar
não são janelas, são buracos. Pronto.

Ou quase: agora basta construir
um mundo do outro lado da parede,
para que possas vê-lo, emoldurado

Inserida por jessycamirandac

Receita para um dálmata
(ou Soneto branco com bolinhas pretas)
Pegue um papel, ou uma parede, ou algo
que seja quase branco e bem vazio.
Amasse-o até que tome forma
de um animal: focinho, corpo, patas.

Em cada pata ponha muitas unhas
e em sua boca muitos dentes. (Caso
queira, pinte o focinho de qualquer
cor que pareça rosa). Atrás, na bunda,

ponha um fiapo nervoso: será seu
rabo. Pronto. Ou quase: deixe-o lá
fora e espere chover nanquim. Agora

dê grama ao bicho. Se ele rejeitar,
é dálmata. Se comer (e mugir),
é uma vaca que tens. Tente outra vez.

(A Partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, 7Letras, 2008

Os invasores

durante o mês de outubro sobre
tudo nos bairros sem praia é preciso
que ás seis da tarde precisamente
tranquem-se as portas fechem-se
as janelas apaguem-se as luzes
durante quinze minutos de silêncio
e escuridão para que os invasores
achem que não há mais ninguém ali
pois se por acaso houver alguma
luz esquecida em algum canto qual
quer meus amigos é bom saber pre
parem-se pois eles vão achá-la e a
través de alguma brecha eles hão
de se esgueirar em bando à procura
de alguma lâmpada incandescente
que lhes sirva de deus sob o qual
voarão histéricos para celebrar a luz.

Inserida por jessycamirandac

Soneto prático

quando não há mais qualquer coisa após
o que vivemos juntos, a não ser
o fim, com a tragédia de sabê-lo
fim, e a certeza da dor, atroz,

quando você e eu formamos nós
e nossos nós não podem desatar-se,
antes que os nós acabem por cegar-se
e de berrar percamos nossa voz,

por mais que doa e que nos caia o céu
sobre os olhos abertos, e os meus
rasguem-se de dor e feito papel

chovam corpos picados sobre os seus,
por amor mesmo, e para ser fiel,
é preciso saber dizer adeus.

É menina

Aproveita enquanto ela ainda não engatinha, isso daí quando começa a andar é um inferno

É menina, que coisa mais fofa, parece com o pai, parece com a mãe, parece um joelho, upa, upa, não chora, isso é choro de fome, isso é choro de sono, isso é choro de chata, choro de menina, igualzinha à mãe, achou, sumiu, achou, não faz pirraça, coitada, tem que deixar chorar, vocês fazem tudo o que ela quer, isso vai crescer mimada, eu queria essa vida pra mim, dormir e mamar, aproveita enquanto ela ainda não engatinha, isso daí quando começa a andar é um inferno, daqui a pouco começa a falar, daí não para mais, ela precisa é de um irmão, foi só falar, olha só quem vai ganhar um irmãozinho, tomara que seja menino pra formar um casal, ela tá até mais quieta depois que ele nasceu, parece que ela cuida dele, esses dois vão ser inseparáveis, ela deve morrer de ciúmes, ele já nasceu falante, menino é outra coisa, desde que ele nasceu parece que ela cresceu, já tá uma menina, quando é que vai pra creche, ela não larga dessa boneca por nada, já podia ser mãe, já sabe escrever o nomezinho, quantos dedos têm aqui, qual é a sua princesa da Disney preferida, quem você prefere, o papai ou a mamãe, quem é o seu namoradinho, quem é o seu príncipe da Disney preferido, já se maquia dessa idade, é apaixonada pelo pai, cadê o Ken, daqui a pouco vira mocinha, eu te peguei no colo, só falta ficar mais alta que eu, finalmente largou a boneca, já tava na hora, agora deve tá pensando besteira, soube que virou mocinha, ganhou corpo, tenho uma dieta boa pra você, a dieta do ovo, a dieta do tipo sanguíneo, a dieta da água gelada, essa barriga só resolve com cinta, que corpão, essa menina é um perigo, vai ter que voltar antes de meia-noite, o seu irmão é diferente, menino é outra coisa, vai pela sombra, não sorri pro porteiro, não sorri pro pedreiro, quem é esse menino, se o seu pai descobrir, ele te mata, esse menino é filho de quem, cuidado que homem não presta, não pode dar confiança, não vai pra casa dele, homem gosta é de mulher difícil, tem que se dar valor, homem é tudo igual, segura esse homem, não fuxica, não mexe nas coisas dele, tem coisa que é melhor a gente não saber, não pergunta demais que ele te abandona, o que os olhos não veem o coração não sente, quando é que vão casar, ele tá te enrolando, morar junto é casar, quando é que vão ter filho, ele tá te enrolando, barriga pontuda deve ser menina, é menina.

Duas pessoas falando coisas opostas podem estar igualmente certas - e frequentemente estão.

Um presidente ouvido pela polícia no Brasil não dura uma semana.

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De todas as favelas do Rio, nenhuma tem uma porcentagem tão grande de criminosos quanto o Congresso.

Inserida por PensamentosRS

⁠Não trocaria meus fracassos pelo sucesso de ninguém.

⁠Tudo o que presta num ser humano não cabe no Instagram.

Inserida por PensamentosRS

⁠Por mais que os linguistas digam o contrário, os poetas sabem muito bem: as palavras e as coisas têm uma relação simbiótica. Mais do que isso: siamesa. Os apaixonados estão cansados de saber que amar alguém é amar um nome.

Gregório Duvivier
Aos pés da letra. São Paulo: Companhia das Letras, 2026.
Inserida por pensador

⁠Só uma língua que inventou a saudade poderia ter inventado a despedida.

Gregório Duvivier
Aos pés da letra. São Paulo: Companhia das Letras, 2026.
Inserida por pensador

⁠O brasileiro já chega dizendo que está indo embora, mas é sempre o último a sair. Somos inimigos do fim.

Gregório Duvivier
Aos pés da letra. São Paulo: Companhia das Letras, 2026.
Inserida por pensador

⁠Fui feliz muitas vezes nessa vida,
todas elas fui pego de surpresa.
A alegria é sempre distraída.

Gregório Duvivier
Sonetos de amor e sacanagem. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

Nota: Trecho do poema Soneto distraído.

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⁠Soneto da filha pequena

Acordei transformado num sultão.
A princesa, miçangas em sua testa,
dava aos gatos, seus tigres, uma festa.
Um cetro de vassoura em sua mão.

Seu vestido arrastava pelo chão.
Com os liros ergueu uma floresta.
Escondida enxergava pela fresta
a poltrona vertida em alçapão.

Da casa sem crianças tenho dó.
Nenhum dos móveis sequer sonhará
em ter seus afazeres subvertidos.

A pá só servirá pra pôr o pó.
A vassoura somente varrerá.
As cortinas jamais serão vestidos.

Gregório Duvivier
Sonetos de amor e sacanagem. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
Inserida por pensador

⁠Não existe pensar fora da língua. Ah, mas uma imagem vale mais do que mil palavras, dizemos – usando palavras. Estou sem palavras, dizemos – usando palavras. A palavra é prata, o silêncio é ouro, dizemos, em vez de fazer o que o ditado recomenda e ficar calados.

Gregório Duvivier
Aos pés da letra. São Paulo: Companhia das Letras, 2026.
Inserida por pensador

⁠Não inventaram nada, ainda, à altura da língua. Mesmo assim, a palavra nunca chega aos pés da realidade, até porque ela nasce quase sempre antes da coisa que descreve. Como falar de algo novo se todas as palavras que tenho à disposição têm a idade do mundo?

Gregório Duvivier
Aos pés da letra. São Paulo: Companhia das Letras, 2026.
Inserida por pensador