Poemas de Gregório Duvivier
Receita para um dálmata
(ou Soneto branco com bolinhas pretas)
Pegue um papel, ou uma parede, ou algo
que seja quase branco e bem vazio.
Amasse-o até que tome forma
de um animal: focinho, corpo, patas.
Em cada pata ponha muitas unhas
e em sua boca muitos dentes. (Caso
queira, pinte o focinho de qualquer
cor que pareça rosa). Atrás, na bunda,
ponha um fiapo nervoso: será seu
rabo. Pronto. Ou quase: deixe-o lá
fora e espere chover nanquim. Agora
dê grama ao bicho. Se ele rejeitar,
é dálmata. Se comer (e mugir),
é uma vaca que tens. Tente outra vez.
(A Partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, 7Letras, 2008
Erguer antes de tudo uma parede –
a parede no caso é importantíssima,
pois as janelas só existem sobre
paredes, as janelas sobre nada
são também nada e não são sequer vistas.
Em seguida quebrá-la até fazer
nela um grande buraco, não maior
que a parede, pois precisamos vê-la,
nem menor que seus braços – as janelas
sobre as quais não se pode debruçar
não são janelas, são buracos. Pronto.
Ou quase: agora basta construir
um mundo do outro lado da parede,
para que possas vê-lo, emoldurado
✨ Às vezes, tudo que precisamos é de uma frase certa, no momento certo.
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Entrar no canal do WhatsappFui feliz muitas vezes nessa vida,
todas elas fui pego de surpresa.
A alegria é sempre distraída.
Nota: Trecho do poema Soneto distraído.
...MaisSoneto da filha pequena
Acordei transformado num sultão.
A princesa, miçangas em sua testa,
dava aos gatos, seus tigres, uma festa.
Um cetro de vassoura em sua mão.
Seu vestido arrastava pelo chão.
Com os liros ergueu uma floresta.
Escondida enxergava pela fresta
a poltrona vertida em alçapão.
Da casa sem crianças tenho dó.
Nenhum dos móveis sequer sonhará
em ter seus afazeres subvertidos.
A pá só servirá pra pôr o pó.
A vassoura somente varrerá.
As cortinas jamais serão vestidos.
Soneto prático
quando não há mais qualquer coisa após
o que vivemos juntos, a não ser
o fim, com a tragédia de sabê-lo
fim, e a certeza da dor, atroz,
quando você e eu formamos nós
e nossos nós não podem desatar-se,
antes que os nós acabem por cegar-se
e de berrar percamos nossa voz,
por mais que doa e que nos caia o céu
sobre os olhos abertos, e os meus
rasguem-se de dor e feito papel
chovam corpos picados sobre os seus,
por amor mesmo, e para ser fiel,
é preciso saber dizer adeus.
Os invasores
durante o mês de outubro sobre
tudo nos bairros sem praia é preciso
que ás seis da tarde precisamente
tranquem-se as portas fechem-se
as janelas apaguem-se as luzes
durante quinze minutos de silêncio
e escuridão para que os invasores
achem que não há mais ninguém ali
pois se por acaso houver alguma
luz esquecida em algum canto qual
quer meus amigos é bom saber pre
parem-se pois eles vão achá-la e a
través de alguma brecha eles hão
de se esgueirar em bando à procura
de alguma lâmpada incandescente
que lhes sirva de deus sob o qual
voarão histéricos para celebrar a luz.
De todas as favelas do Rio, nenhuma tem uma porcentagem tão grande de criminosos quanto o Congresso.
Por mais que os linguistas digam o contrário, os poetas sabem muito bem: as palavras e as coisas têm uma relação simbiótica. Mais do que isso: siamesa. Os apaixonados estão cansados de saber que amar alguém é amar um nome.
O brasileiro já chega dizendo que está indo embora, mas é sempre o último a sair. Somos inimigos do fim.
Não inventaram nada, ainda, à altura da língua. Mesmo assim, a palavra nunca chega aos pés da realidade, até porque ela nasce quase sempre antes da coisa que descreve. Como falar de algo novo se todas as palavras que tenho à disposição têm a idade do mundo?
Não existe pensar fora da língua. Ah, mas uma imagem vale mais do que mil palavras, dizemos – usando palavras. Estou sem palavras, dizemos – usando palavras. A palavra é prata, o silêncio é ouro, dizemos, em vez de fazer o que o ditado recomenda e ficar calados.
