Fabrício Hundou - um autor desconhecido.

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O Tempo, meus amigos, o Tempo está roubando coisas de mim. Tamanha veemência e desatino, me lembram muito bem que, anos atrás, não era assim. O Tempo tem me ultrapassado, descompassado, fingido não se passar por mim. Decidi ter uma conversa com o Tempo para atarmos uma relação agradável e pedir mais uma vez que ele não me deixe apenas no passado.

Eu perguntei:

- Ríspido, o que tens contra mim?

O Tempo me respondeu:

- Estou farto de ser descuidado e ser usado como desculpa, fingindo que não me tem. Estou cansado de ser perdido em horas em vão. Estou cansado de ser perdido! Se você não tem tempo, tenha tempo para mim.

O Tempo, meus amigos, o tempo está roubando coisa de mim. Nesse nosso relacionamento, já dei adeus ao fôlego, às lágrimas, aos agouros; tamanha veemência e desatino, lembro-me muito bem, ainda não teve fim.

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É mais fácil segurar um tigre com fios de sedas que segurar um pensamento

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Eu e o abacaxi, não estamos vestindo nada bem. Nele, os espinhos incomodam por fora. Em mim, eles incomodam por dentro.

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Ingressa à faculdade da vida em ciclos incensáveis o tal namoro. Namoro: uma péssima escolha de curso. Por que cursar a vida a esse rumo? Metáfora frívola. Não, namoro não é graduação. Portanto, fica dispensável monografias após a sua conclusão. Ao término do namoro, não carece dissertar aquilo o que aprendeu, o que fez, o que somou ou o que subtraiu. Oh, namoro, mais que uma formação. Recata-se dessa etapa afinal, toda má escolha precisa de míseros tons de admiração. Namoro, não, não é graduação.

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Hoje, enquanto eu estava comendo à mesa, senti fome de lhe ter por perto. Você alimenta o meu desejo estúpido de poder criar planos em fôrmas redondas, mundos circulares. Por vez, o seu abraço é o melhor fermento para crescer as minhas sensações contidas. Em breves dias que transcorrem, sorrisos crus não têm me enchido, momentos de regozijo ora estão sem temperos, ora estão salgados. O seu temperamento me dá sede de ira, só saliva de ósculos pode me satisfazer. A sua ausência tornou-se presente no meu futuro atrasado. É de se esperar: passo do ponto sempre quando acrescento muito de você em meus pensamentos desprezos. Ainda assim, eu tenho cortado em fatias todo o brio que bloqueia lembranças. Sem escape, fritam-se neurônios ao tentarem trazer à memória recortes de cenas em que fomos felizes. Já degustei de todos os pedaços do mundo, mas ainda há um vazio, ainda há pratos de saudade servidos frio. Não tenho ideia onde foram parar as receitas que me faziam esquecer esse desejo de lhe ter por perto. Hoje, enquanto eu estava comendo à mesma, eu tive a certeza de o único que me saciará é você.

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Não há veneno que me mate
Não há remédio que me cure
Existem amores que sempre passam
Há, corriqueiramente, aquele que me segure

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"Meu bem, por fraqueza do hábito, não te esforces a alimentar a esperança que nem fome tem..."

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PEDRAS NA VESÍCULA

"Eram tantos os suplícios para que cessassem o arremessar das pedras, eram tantos...Muitos! Tantos tontos ouvirão ecos sem economias. Pedros, pardos e perdidos. Perdidos entre pedras. Tantas pedras prediletas, com valoração, seixos com matizes. Eram tontos os que buscavam a pedra sem peso. Pedras não são como penas. Pena de vida, não há morte pior. Tantas pedras amorfas formam desfiladeiros íngremes, subidas delgadas, caminhos de campos calvos e calminhos cavam. A pena dos pássaros está na liberdade. Tantas pedras mofadas, sem uso, formam desafios íngremes, subidas às degoladas, pedras na vesícula, pedras atiradas."

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INVENTO

Poucos conseguem ver, mas o vento não é estéril. Ninguém consegue ver, pois o vento é um mistério. O sopro que sai da boca, transpassa os lábios e vira vento. A força que move caravelas é a mesma força que move pensamentos. Pensamentos sopram o tempo. Há gracejo pesado na alma que não se nutre de vento. Ar, gracejo, há leveza por dentro. Os ventos que penteiam o teu cabelo são os ventos que desembaraçam os sentimentos, são os ventos que criam redemoinhos, são os mesmos que giram os cata-ventos. Escapa à vista do que é feito o eólico. O vento é dos tempestuosos, dos fleumáticos e dos bucólicos. O vento é inventado. Tudo é vento.

Fabrício Hundou - um autor desconhecido.

PÃO DE ILUSÃO

"Dona Maria vai à mesma padaria há 43 anos e alguns dias. Essa data traz a agonia inventada pela espontaneidade da vetustez. Alguns móveis da padaria, ao longo da modernidade, foram trocados por mármore gelado e mogno lustroso. Os donos do estabelecimento ainda não foram trocados. O padeiro continua com um semblante frio - tanto quanto o mármore - e a balconista, com a sua pele lustrada pela temperatura dos pães, estende dedos grossos para devolver o troco. Em todos esses anos, os formais comprimentos nunca foram trocados por nenhuma amizade com túnica mais interna. Dona Maria é apenas mais uma velha assídua que sempre compra o mesmo bolo de trigo. Os que estão na padaria, também são apenas os mesmos, apenas são, sem muitas túnicas internas, são superficialmente apenas duas almas sem recheio que Dona Maria vê ao longo de seus 43 anos. Por casualidade, há muitos calendários, Dona Maria vê os mesmos rostos, os mesmos objetos, come as mesmas comidas, veste os mesmos vestidos que cheiram a naftalina. Diga-nos, Dona Maria, diga como era o sol naquela década. Diga-nos, diga com dignidade como as pessoas se trajavam, nos diga sobre os programas televisivos, diga-nos se os corpos eram em preto e branco, diga se havia medo de ter esperança. Conte-nos, conte sobre hoje, conte sobre excesso de cores. Conte-nos como contas as moedas do cofre que guardas em cima da geladeira, qual valor tem a mudança. Para Dona Maria, a dinâmica do tempo não lhe foi muito generosa. Dona Maria aguarda, no cume de sua demência, que nada possa mudar, pois envelhecer é um fenômeno agudo, que esculpe pés de galinha e rugas sem muita cortesia estética. E ela inventa todos os dias mais um dia de monotonia, para que não alcance o desespero de um dia ter de que se reinventar. Dona Maria sabe que a eternidade não se vende em nenhuma padaria, mas que a alegria da ilusão lhe traz a sensação de poder ter desenhar a vida que se quer levar."

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CARECA DE SAUDADE

Há pouco esmero nesse texto. Há pouco ele cresceu. Crespos, lisos, ondulados: tantos são os caminhos para a saudade. Trançados em raiz, espetados, penteados em et ceteras. E, mesmo em caminhos calvos, é algo que cresce, aumenta, cai. Tal vez, saudade. Cabelo, talvez. Arrepia e embaraça. Saudade é capaz conceber sentimentos de arrepiar e embaraçar qualquer sensatez. Há quem peleje ao pentear os fios desse tempo com o credo latente de que a saudade irá passar. Esforços em vão. Cabelo se corta, saudade também. Saudade logo cresce. O cabelo? Também!

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EU VOU

A Evolução de si pode, de toda maneira, ser visível no tamanho dos pés, nos velhos fios brancos de novas fases, nas esquinas das rugas, nas ondas turbulentas do dorso das mãos. No verso deste esperado rumo, a Evolução permite-se, também, se manter em hiato. Depois de muitos gritos, a Evolução desata em paz os nós das cordas vocais. Passada as páginas dos calendários, as malas da Evolução reduzirão-se cabendo alguns poucos presentes de sua longa viagem, mas sobrando espaço para passados apertados. Evoluir-se é um ato boçal, de exigência e ordem: um passo para frente é uma queda em ar livre - sem nenhuma liberdade de voo. Evoluir-se é uma escolha de livre e espontânea pressão. Há quem nos dirá em voz e eco que ainda temos tempo, nunca tememos o tempo. Em tons afinados de mantra, repetirá o refrão do lapso: ainda somos o que fomos, sempre seremos iguais. Mas não podemos rechaçar comentários estúpidos. Afinal, os enganos são jubilosos encadeamentos de causas e efeitos. Enquanto isso, transformo-me em um monte de minutos acumulados, presos e engasgados com atrasos pontuais. Quem olha as folhas ressecadas, acumuladas aos meios-fios, não imagina que entrei em outono de mim mesmo, na estação em que me desfaço de cascas enfeitadas e me disfarço em risos retorcidos, secos e ajustados a baixas temperaturas. Ainda - sem culpa do uso do advérbio - prossigo a minha Evolução. Donde vim - há tantas léguas de distância de mim mesmo -, pontes peripétalas me põem em travessia, a todo tempo, aos solos da fuga.

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COLCHÃO

"Os fios de cabelo caem em direção ao chão. É em direção ao chão que descem as rugas, as lágrimas, os ossos fracos, o velho. E do chão sairá o barro cor de pele, do chão nascerão os primeiros passos, os primeiros atos, o primeiro voo. O chão é o limite da vida! É para o chão que vai o sol, que vem a lua. O chão é do ufano, do desesperado, de todos - até do cão. Do chão é que transcende a existência. Do chão há a dor cesariana que dá luz à vida. Há vida! E do chão volta o escuro, aquilo que a luz não mais penetra o limbo. Para o chão irá a carne sem alma, a água escoada das ruas, do suor de homens e mulheres. Mas, do chão, brotarão as cores do universo, as temperaturas dos dias, o pão de cada dia. Do chão ei de flutuar os nossos pés, correndo livres e sorrindo - tão sempre estaremos - vivendo sem pressa em vão".

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AMARELO

"Em mim haverá paixão até que a última flor de ipê caia e enfeite o chão..."

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SACO DE FARDOS

"Em meu saco de fardos, carrego o sobrepeso do meu ego e escondo mil pedaços de fraquezas. Não me ponho em postura de cansaço, tolero a sede dos lábios, pois a água da moringa só o que restou foi o sal dos olhos. Ora soo lânguido, sou suor suado, líquido, derramado, límpido e pleonasmo. Em meu saco de fardos, sobrepujo sob frias preces, transformando Dolores em flores. Em meus lapsos há refúgios sólidos, surrados, desarmados. São nestas ruas que desfilo suportando a carga do capricho que esbanjo em tanto brio".

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CARA TER

Caráter é o que nos caracteriza, o que nos descreve aos propínquios, o que prescreve nossas reações, que delimita nossos impulsos frente a quaisquer que sejam as ações. Caráter é uma coleção de aprendizados teimosos, erros bem certos. O caráter é caricato....caro. Caráter é ter cara para dar aos caretas.

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TRUCO

Troquei de roupa
Troquei os passos
Troquei figuras
Troquei os fatos
Troquei de olhos
Troquei de alma
Troquei de cores
Troquei de espelhos
Troquei de braços
Troquei palavras
Troquei de amores
Troquei de pecado
Troquei as bolas
Troquei
Truquei
Retruquei
Aos trocos e devoluções
Não me troco por nada

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PASTILHAS DE VIDRO


"Tenho ciúmes de mim por doar-me, por inteiro, ao teu desespero de me ter inteiramente a ti. Partilho os meus gerúndios, os meus jejuns de delírios, os meus mundos, os meus lírios. Partilho as minhas prateleiras empodeiradas para que tu ocupe - visivelmente - com desejos pitorescos. Contigo, partilho o meu ciúme e brio, enfeitando meus calendários com pastilhas amorosas de vidro. Dou-lhe, sem remorsos, o meu amor".

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CHOVA POR MIM

"Eu me entregaria à chuva. Permitiria, com toda a rapidez do impulso da rudeza, que toda a tempestade - que viesse a ser - carregasse, sem cerimônias de dias cinzas, a natureza que me condiciona. Eu me entregaria à chuva. Deixaria, sem remorso, sem soluços e sem pigarros que os olhos se inundassem. Parte de mim, modesta e imensa parte de mim, não lhe deixa partir. Eu jamais lhe entregaria à chuva. Dia, meu belo e breve dia...dance por mim? Dance por mim. Chova por mim. Choro por ti, dia. Dia, sem noites, chova ao partir. Parte de mim é só dia nublado - sem ti. Senti".

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RELIGIO

A religião, quase sempre, não permite rescisão de contratos. Os representantes divinos - que, a estas, financiam a fé - só podem torcer para que o cliente esteja satisfeito com o "pacote de credo" que adquiriu.

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S O B R A

"Sombras de sobrancelhas...por detrás da rede dos meus cílios há mistério em teus ninhos. Donde estou - alto, léguas há palmos -, donde estou, ainda não o vejo. Percebo! Aí percebo. Auto, eu (eu mesmo), línguas e parabólicas: quanto mais lapido a profundeza de minhas olheiras, mais vejo quão oco são os meus olhos em cólicas. Ai se ilusão fosse adjetivo de gente boa, meu amor. Ai se fosse bom, a gente, ser ilusão...amor. Cego - e fosse lá eu cego mesmo - eu queria é lhe sentir. E, em curtos passos de tempo, assim mesmo, esporádico, agora eu já era cego. E sabia! Era todo tempo cego, por ti, de verdade. Nunca o vi, mas senti. Basta! Bastardos são os pontos e as feridas. O excesso de verdade é sempre a pior das mentiras".

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"O excesso de sinceridade é a pior das mentiras".

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TU:
PRIMEIRA PESSOA
DO MEU SINGULAR

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MIGALHAS DE TI

"Dobre para que caiba. A gaveta, embora pequena, ainda cabe saudade - não se importe quanto ao tamanho. Em um carrossel de cenas, seguro-me firme à mentira de que continuas a mesma pessoa, mas que há alguns quilos em teu corpo, tal qual o peso dos anos que nos dá hiato. É da minha íntima teimosia deduzir o que há em teus bolsos, qual sapato você calça para ir a lugar algum...para se perder de mim. De longe, espio-lhe com cautela - do eu próprio -, perto sempre do contorno das sombras. E com olhos ilustrados, brilha a minha íris com a luz dos teus mais despercebidos atos. Deixe sempre migalhas de ti para que eu fareje os teus mínimos passos".

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AMAR - ATO I

"Desde que se tornou verdade, todo medo era apenas mentira, sem parcimônia de sentir a ausência do cais que me era, da imensidão de sorrisos igualmente divididos. Com aqueles braços - que atravessavam-me sutilmente os poros - tod'alma fluía, vestida de lençóis translúcidos, delicados, mas hígidos o suficiente a passar por qualquer espinho sem nem causar ferida, partos e partidas. Partilhas comigo a razão das mais belas canções e da cólera incurável, da falta do ar. Desde que se tornou verdade, tudo se torna...transforma no ato de amar".

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