Antonio Montes

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EXORTAÇÃO DO AMOR

Eu estava no ápice da via, em dispara,
voando as margens das flores...
Lutando pelo primeiro lugar da corrida!
Almejando o primeiro lugar ao pódio.
Ai veio você...
Com sua bandeira maldita!
bandeirou o meu amor
assinalou o meu fim...
Me exortou-me p'ra escanteio.
Parei no meio...
Emperrei na partida,
fiquei seco como lagoa do norte...
Chorei na despedida.
No labirinto, sem prumo, em choque...
Zanzei sem rumo...
Sem tato para felicidade, adoeci.
Sem ti, padeci. Sem ti...
Almejei o sopro da morte.
Antonio Montes

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O MUDO

Aquele mudo, falava muito...
O problema é, que quando desandava a falar,
ninguém entendia nada! Mas via, via a sua agonia,
querendo explicar... Via a sua, articulação e seus
gestos, os quais até parecia um ator de mímica
enfeitando-se em seu emaranhado falar.
Os ouvintes em sua volta, pouco entendiam...
quase ninguém entendia, mas viam a sua
fala, falando. Aquele mudo, era um verdadeiro
tagarela, adorava falar... Falar com sua fala, falar
com sua, voz muda. Quando ele desandava a
falar, desembestava com tudo, até parecia o...
Usain Bolt as carreiras... Ninguém agüentava
mas, gargalhava e aplaudiam. Ele falava com o
tempo, com a rua, com seus sentimentos, falava
do farfalhar do vento do chilrear das aves,
falava da olhada a olho cru, falava d'aquele que
falava, d'aquele que não falava, falava d'aquele
que ouvia e d'aquele que não ouvia, falava da
menina que corria pelas poças d'água, falava do
menino que andava nu... Falava do dia, da noite...
Falava com os pássaros voando, e dos urubus
pretos, pelos céus vagando. Aquele mudo, falava
que falava e falando... Falava da seca, da chuva,
do norte e do sul, da cidade do sertão... Falava e
falava muito! Até ganhou um apelido de mudinho
falador. Aquele mudo, falava com todos e com tudo...
Entendendo ou não, aquele mudo... Falava com Deus!
E todo mundo, do mundo.

Antonio Montes

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SEM BOTO

Não tinha águas nem mar...
Os tempos, eram outros
por isso, não tinha lenda
muito menos boto, não tinha
boto para o efeito, se consumar.

Tinha o amar... O amor...
O encanto do espírito santo
para uma historia se desdobrar.

E desabrochou... Desabrochou
desdobrando sobre a ingenuidade,
da virgem e quebrou o quebranto...
Quebrou o quebranto, com o
desabrochar do amor, o voou...
Voou em voar como se fosse
pétalas de flor.

Antonio Montes

Inserida por Amontesfnunes

SESSENTA

Já fiz sessenta
Agora sou adulto
com formação de velhice e tudo.
É... Cheguei aqui, estou vivo sim!
E tudo que aprendi...
Aprendi com o mundo.
Apanhei de palmatória...
Meu pai, mina mãe, não passavam
a mão sobre a minha cabeça,
e hoje eu agradeço-os, pois com isso...
Aprendi a ser da hora
e não dá cesta.
Penei com meu indulto de vida, mas
aqui, poderei ampliar a maluquice
... Ser velho, é querer ser jovem criança...
Até brinco de esconde-esconde
pena que hoje, a minha
parceira, é a tão esperada saúde.
Aprendi a temer a esperança,
voar na paranóia...
D'aquilo que hoje tornou-se grude.
Recebi um bilhete do presente...
Usando óculos de graus,
e mãos tremulas...
Eu li as cláusulas dos meus apegos...
Minhas manias
meu tempero curto
o silencio p'ro meu pensar...
E o chorar pelo viajar
dos novos defuntos.
O bilhete me chamou de museu
e ainda disse que as coisas...
As minhas coisas!
São misturas, mais que eu.
Ora bolas... Mas que bilhete audacioso!
Eu já fui criança, jovem feliz,
Ao comer, já mordi, pedaço de carne
segurando-o com, as minhas mãos...
Já brinquei de bola de gude,
já tive pião, estilingue, bola peteca
já pulei corda muro amarelinho
já rascunhei o mundo
apenas com um pedaço de giz.
É... Já fui feliz, sim, sim!
Muito feliz.
Antonio Montes

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O SALTO

Gato no muro
n'um pulo...
Saltou do outro lado
mundo gato
gato mundo
pula tudo
pula mudo
da à volta
salta a porta
anda, desanda inventa...
Por quinhentas ventas
por milésimas bandas.
Antonio Montes

Inserida por Amontesfnunes

COISINHA

Sabe coisinha...
Se não fosse, tantas coisas!
Eu iria comprar uma coisa.
_ Que coisa! Coisa p'ra que?
_ A coisa, p'ra coisá por aí.
_ Por aí... Por onde?
_ Pela estrada pela rua
pela linha de bonde.
Pelo dia e fantasia
pela noite que se zua
na gola na prata da lua
no açoite da gula sua.
Antonio Montes

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ALVORECER

No horizonte distante
morre o sol atrás dos montes,
a terra sucumbe nossos pés...
e o silencio sobressai aos sentimentos.
Vem a noite o rompante
... Surge a lua, triunfante...
O amor, encrua no quarto.
A ganância expande nas ruas...
Dias noites, momentos efêmero
Sol brisa, bolhas...
Sobre a linha do mar atenua,
as velas de um navio, uma canoa
cascatas de ondas, ventos, garoas...
redes, e esteiras de taboas.
Quirela de milho, charque uma boa broa...
Os astros circulam suas linhas
estrelas seguem o rei.
A tarde vem para atender as decepções
dos sonhos, e se deita sob a noite, para
sanar o cansaço mental e físico.
Tudo gira nada para de correr
cada mundo em seu mundo, cada ser...
Todos e tudo cada um, cada você,
Se você tomba, seu mundo para ti,
deixa de alvorecer.
Antonio Montes

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CLÁUSULAS DO PODER

Quem fez, quem não fez...
Quem fez... Quem não fez!
E a demanda segue pelos bastidores
de suas leis, e nesse emaranhado todo,
mesmo quando vão presos, saem em
poucos meses. Nem com foto, nem com
filme, gravação aprova... A prova da prova
dos mandões desviadores do poder, onde
eles próprios, estão mais preocupados
em editar nas leis, cláusulas que lhes safem
dos seus fardos do que arrumar algo bom,
para a população.
A democracia esta ai, toda rendada, as
condenações d'ela é rede p'ra peixe pequeno
e só pega, aqueles que não tem nada, nada
do país. E a grande população dança com
chamego todo vesgo, tanto imposto, tanta
terceirização, os poderosos da democracia
terceirizam até mesmo, a sua profissão
seu cargo, seus embargos e os bam, bam,
bans... Ganham com isso, uma duas três e
muito mais vezes do que deveria de ganhar.
Seus atos ilícitos, seus caminhos farpados...
Seus jogos fictícios, seus falsos mandados...
Tudo para desviar e perseguir os salários dos
assalariados. Quem fez, quem não fez...
Quem fez essas leis, tão áspera aos pobres!
quem fez essas proteções aos desviadores
ricos... Os grandes nobres que pegam de cá
o que não é deles... Para depositar do lado
de lá.
Antonio Montes

Inserida por Amontesfnunes

PATO NO CARDÁPIO

O pato esta no cardápio...
No cardápio sem lago sem nado,
sem suas penas sem voar...
E sem o seu espaço no ar.
Esta no cardápio... Cardápio lindo!
Cardápio colorido, com letrinhas
com laço, onde ali, ensina o que há.
O pato esta no cardápio...
Assado grelhado,
temperado com salsa, cebolinha...
Com olho, cebola e açafrão.
O pato esta no cardápio...
Cozido ao molho,
preparado sob folhas de manjericão.
Esta no cardápio... Sob sal, vinagre,
vinho tinto, daquele que nos faz miragem.
O pato, esta no cardápio, ora veja...
Na bandeja, em cima da mesa...
Acompanhado com taças de cervejas.
Antonio Montes

Inserida por Amontesfnunes

VALA DE OSSOS

Descobriram n'aquela vala antiga
uma pia de ossos de gente...
E algumas casas de formigas.
Os ossos, todos iguais,
com exceção, da diferença de tamanho
mas na cor, todos brancos e com certeza
... As lagrimas de todos, eram d'água.
Ossos, todos esqueléticos,
sem pele, sem sangue, sem carne
Não dá para saber as cores dos
olhos e da vida dos donos...
De quem vivia em castelo
ou de quem vivia em abandono,
quem era pobre ou rico...
Católico, crente ou descrente
quem nasceu primeiro, ou depois
a única diferença que se dá para notar
é d'aqueles que urinavam no penico.
Aquela vala cheia de ossos de gente
é mesmo aquilo que pode se falar...
Que aqui, somos todos inocente!
Que somos iguais perante a terra
e que todos um dia, irão se acabar.
Antonio Montes

Inserida por Amontesfnunes

TRUPE DE VENTO

Um trupe de vento passou por aqui
vindo, não sei de onde,
Indo... Sei lá e não sei se esconde
... Sem asas sem bonde,
Sem respeitar saia de moça
nem charuto de conde.
Esse vento, ouriçou placa...
Bandeira, roupa no varal!
Provocou... Carreira em potro,
tombo de bêbado
e voar de pombos.
Levantou pipas da molecada
poeira das estradas e atiçou...
Atiço areia sobre as águas.
Aquele trupe de vento que passou por aqui
.... Vindo não sei de onde...
Fazendo corrupio no cisco,
alegrando, cardumes de piabas dos rios...
Pássaros no estio,
farfalhou as folhas
disparou as hélices eólicas
espatifou o bocado da farinha antes da boca
ouriçou os cabelos da velha louca
e badalou os sinos das igrejas.
Aquele trupe de ventos que passou por aqui...
Passou trazendo águas e nuvens
levando as chuvas
alegrou, melou os olhos
Destampou as rolhas,
farfalhou as folhas...
Aquele vento que passou por aqui,
abrindo porta e fechando janelas...
Serpenteou por todas vielas!
Urrando que nem lobo...
Rangendo que nem dentes
esturrou, como se fosse um leão.
Aquele vento que passou por aqui
chiou venenoso, que nem serpente
desfez, procissões e saravas
jogou cisco na cuia do almoço
no momento de cear...
Despedaçou exame de abelhas
desmanchou rasto de ratos,
destrambelhou, voar de pato
provocou e oscilou as ondas do mar.
O bando de pássaro se foi com ele
voltou por causa dele
as borboletas ficaram alem dele
aquele vento, levou as velas da canoa
e o canoeiro, perdeu o dia de chegar.

Antonio Montes

Inserida por Amontesfnunes

QUANDO MORTO

Claro que os animais,
com alma ou sem alma
quando morto, suas almas,
não nos assombram...
Nem nunca irão nos assombrar!
Pois vivos, são ininterruptamente,
assombrado por nós.
Nós os assombramo-los
o tempo todo, todo tempo...
Com nossas ações, nosso dividir
e nossas ganâncias para com eles.
Os animais vivos...
Vivem o mártir o flagelo
a prisão sem condenação
noites longas de escuridão
e dias muitos amarelos.
Muitos das vezes
eles vêem a óbito amarrados,
fechados, engaiolados
e tudo isso é claro...
Sem nunca terem sidos, condenados.
Antonio montes

Inserida por Amontesfnunes

DEPORTAÇÃO

Eu vou me candidatar! É... E se eu ganhar...
Não vou aceitar imigrantes clandestinos,
zanzando por aqui, no meu lugar.
Se eu ganhar...
Mandarei expulsar, as areias e as pedras
as chuvas, que cruzam as fronteiras, todos
os dias... As enxurrada as encosta dos morros
o temporal com trovoadas os relâmpagos, os
degelos, e também as labaredas dos fogos.
É... Eu vou me candidatar, e se eu ganhar...
As águas dos oceanos, que fiquem por lá
não quero leito de rios, cruzando p'ro
lado de cá. Não quero, voar de águia imigrando
ou voou de falcão, peneirando no meu ar.
Não quero, tempestades de chuvas de lá...
Nem assopro de tufão ou ciclone, cruzando
a cerca da minha nação. Se eu ganhar!
Não quero lua de lá, com seu lençol de prata,
prateando o lado de cá! Nem esse sol de lá...
Atrevido! Olhando meu torrão tão belo, com
esses seus raios amarelos, todos descabidos...
Cruzando a minha fronteira sem nunca
bisbilhotar. Se eu ganhar...
Mandarei expulsar, as chuvas e os temporais,
o anoitecer e o amanhecer que não tiverem
passaporte, assim também, como os rumos
do sul, e do norte. Se eu ganhar...
Deportarei as estrelas de lá, esse tempo
dividido, que por aqui apareceu, e essa
velha estação do ano, filha de outra nação,
essas religiões e os afoito de Deus.
Deportarei as doenças de lá, as curas e os
remédios com, essa dama da foice que nos
visita pelos momentos baixos dos dias...
E pelas altas horas das noites.
Deportarei as modas as poesias as musicas...
Deportarei as artes cênicas o humor o riso
a alegria, vindos de outras terras, pousando
em nossos dias. Se eu ganhar... Deportarei
os pássaros e o arco-íres esse céu que
também cruzou o mar, com o seu azul incrível.
Antonio Montes

Inserida por Amontesfnunes

INVISIVEIS
Pelas ruas, em seus trapos...
Lá vão eles, lá vão eles com sacos nas
costas, rostos no embaço e passos fracos
... Mãos ao se estender, almeja um pão.
Sob o espaço da praça, lá estão!
No peito uma paixão... Alguns...
Apresentam, uma mímica,
uma musica uma poesia, uma expressão,
nunca apresentam uma ludibriação!
A fala, é uma fala com o coração.
Em seus rostos sobre o vento...
Duas lagrimas forma rios, expelindo
pelos fios das suas mãos.
Uma flauta no tempo... Assopra algumas
cordas velhas de um violão.
Uma canção no peito,
sorriso ao vento, choro na escuridão.
Passadas fracas, lá se vão, pelas noites
pelas ruas do frio... Ou um sonho
sob a velha caixa, de papelão.
Ali, sob relento, encontram-se com o abrigo.
Os olhos te olham, mas não te vêem...
Sua fome, ninguém sente!
Quando te olham, fingem não te perceberem.
Ali na rua escura, sob frio sob chuva
estas alheio em meio as suas agruras...
Estas alheios nos enleios das amarguras.
Alheio, a toda essa gente! Não chore,
não chore, siga em frente...
Um dia você irá morrer, eles irão morrer!
Todos irão morrerem, e os seus ossos...
Irão ser, como os ossos de todos eles!
Não chore... Não chore, a noite...
A lua deles, é sua também, de dia, o sol deles...
É seu também, não chore... Esse caminho
de quinquilharias... Roupas furadas
sapatos rasgados, pés descalços...
Ninguém vê! Ninguém vê seu medo tremulo
suas pernas mancando, cambaleando...
Ninguém vê o caos da sua miséria...
Nem a degradação do seu ser.
Sim, sim! São humanos também...
Mas não te ouvem, não te vêem,
não escutam o seu pedido de socorro!
Assim como não escutam o seu soluço
desesperançosos, ou sua fé descendo
o morro. Não chore, não chore... Você não
tem partida, não tem bom dia, não tem
boa tarde, boa noite... Eles também não
tem bandeiras, nem percebem que a vida
por aqui, é passageira. Sabe... Eles estão
esquecendo suas vidas, junto a sua alma
Não sabem que sua alma grita por amor
por coerência, não sabem, que suas noites
são desprovidas de sorrisos, de asas e de
sonhos... Não sabem que sua alma grita pela,
incompetência humana, nem que você vaga
por ai como se fosse fantasma em plena luz
do dia! Não sabem que seus dias soluçam
de medo de desespero, Não sabem que
sobre seus braços o futuro vem a óbito, a
todo momento dos seus dias... Não chore,
não chore eles te olham, mas não te vêem
te ver, é apenas mais uma faceta da agonia,
mundana.
Antonio Montes

Inserida por Amontesfnunes

TOQUE DE BELÉM

Aquela palhoça,
toda oca, tem poça...
Poça de chuva
parreiral de uva
ouriçado ao vento,
tem viola, na sacola...
E o nego toca.

Aquela palhoça, choça...
Tem minhoca e tapioca
_ Tem xerem? Tem...
_ Tem o toque de Belém...
Blem, blem!
E também galinha choca.
Antonio Montes

Inserida por Amontesfnunes

O ANO
São, trezentos e sessenta e cindo ou...
trezentos e sessenta e seis janelas do edifício
nas quais, você pode se agarrar com seu
Deus, ou emaranhar-se na fé, edificada pelo
seu plano passageiro... Esse passageiro trem
a deslizar sobre as estações e sob os trilhos
cego do amanhã, misturando-se n'essa,
quádrupla neblina gananciosa.
Sobre a edificação íngreme, dos doze andares
sentimentais... Balançamos nossas esperanças,
sucumbindo sob o escuro silencio
das noites, derrapando sob os sonhos das novas auroras,
ou até mesmo, degredando os segredos das
hastes sentimentais sob o vento e o tic-tac
do instantâneo repentino.
Antonio Montes

Inserida por Amontesfnunes

PASSADO E SONHO

Maria um dia, foi diva...
E com alegria tagarela,
desfilou na passarela,
olhares n'aquela tarde...
Vagavam além das canelas
n'aquele momento d'ela.

Os risos mesmo oriundos
lá da frente, lá do fundo
ela provocava o tempo...
E todo sorriso do mundo.

Todo amor e todo amar
Maria passou em passos
as passadas e as braçadas
até a vida te abraçou.

Maria hoje tem rugas
das rugas ontem teve
agora tornaram pulgas
os santos que não conteve.

Hoje ela tem p'ra hora
a saudade como terror,
esperança que te apavora
nos sonhos d'aquele amor.
Antonio Montes

Inserida por Amontesfnunes

LIVRO
Os livros enchiam...
Enchiam a mesa e a certeza
o infinito de um poema sem fim...
Enchiam o horizonte do mundo
as águas dos oceanos
as vidas nascidas dos rios
e a ponte que levam a mim.

Os livros falavam mudos...
Das rotas e das navegações,
dos pólos dos trópicos e do meridiano
das estrelas das luas e planos
e também dos hemisférios,
fauna flora... Totens do firmamentos,
das orações de São Bento
e das tumbas dos cemitérios.

O livros enchiam a mesa...
A vida, contos e castelos
enchiam a incerteza
e os instrumentos de afinações,
e tudo que há de mal e de belo
as fé d'aqueles pagãos
e os sentimentos das nações.

Enchiam as vozes do som
as pétalas de todas as flores
as lacunas dos corações
e os polens para os beija-flores
e a cantiga das canções.

Os livros estavam lá
e tinham tudo sem comprar
ensinavam viajar
nascer, crescer e falar.
Antonio Montes

Inserida por Amontesfnunes

BODEJAR

Se eu pudesse...
Eu não carregava pedra!
Mas não posso...
Não posso, mas carrego.
Nasci pobre e por isso...
Eu sigo carregando a minha pedra.
Pedra dura...
Pedra pesada,
pedra dura, pesada e lascada!
Vê se pode... Pedra cega!
Quando ela escorrega...
Bate no meu pé e me faz bodejar
como se fosse bode... Bééé!
Mesmo assim...
Eu vou lapidando minha pedra
aproveitando para apedrejar
muros e mundo...
Quem sabe se a minha pedra
um dia, se transforma em flor...
Nesse dia, apedrejarei a ignorância,
borrifarei perfumes sobre o blue
e perfumarei, o arco-íres do amor.
Antonio Montes

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GARRA SEM FARRA

A caneca estava cheia...
Cheia trasbordando até a boca
aquela boca branca sem batom
fazendo bigode, na cor de nuvens alva
satisfazendo o semblante da saúde
realçado a cara... N'aquela manhã,
orvalhada, sem peia, sem candeia
já se fazendo alvorada.

Mas o leite estava quente...
Saído do fogo fervendo!
Com sua garra, sem farra...
Causando medo em seu enredo,
expelindo fumaça, eloqüente
Sem segredo nem arruaça,
Tudo sedo, muito sedo!
Sedo de gente,
e de esperança quente
... Temente.
Antonio Montes

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CANTE MARIA

Procure a calma na água
De manhã, ao deixar o divã
pelo alvorecer de um novo sonho,
lave os olhos para ver melhor...
Deixe a noite na bacia,
e leia os poema da vida
que lhes acompanha, todos os dias.

Cante Maria, cante...
Cante a canção de ninar
cante um blues sob o quintal azul
veja as asas a voar como nave,
acompanhe os pássaros chilrear.

Antonio Montes

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CHEIRO TORTO

O padeiro cheira pão,
cheira ovo, cheira farinha,
sal a gosto, pimenta povo...
Cheira o cheiro d'aquele odor,
açafrão... Frango, alho e galinha,
e as coisas da padaria.
Cheira o frescor da manhã,
junto ao alvorecer de cada dia,
a fumaça que exala
quarto cozinha e sala
e a cor da fantasia.
O padeiro cheira o pão
que o diabo amassou...
O fogo brando do fogão
o apagão do coração
e o cheiro torto do amor.
Antonio Montes

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VENTOS BLEUS
Depois de danificarmos o presente destruindo
onde estávamos e azedando o mel do glorioso
futuro, todavia trilhando os sonhos do nosso ego...
Estamos indo por um caminho de rumos
chafurdados ao nada onde as nossas passadas
são apenas centelhas de invisíveis coragens.
Somos andarilho dos nossos sonhos viajando
o tempo todo para moldar os passos do futuro
almejamos realçar as pegadas da nossa
entidade e mesmo assim, não deixamos
marcas para voltar ao passado, e nem poderia
voltar pois lá, não existe nada que possa
amparar-nos no futuro. Lá no passado,
não deixamos nada para nos suprir o presente.
Acobertado pelo frio da indecisão e medo... E
agarrados aos laços da esperança, infectamos
o passado e por isso, não temos como voltar.
Não temos nada aqui, não tínhamos nada, lá...
Nada existe lá, e quando chegarmos aonde
pensamos que estamos indo, iremos perceber
que estamos no mesmo lugar e no mesmo nível
do passado. Passado do qual, não trocemos nada,
da mesma forma que não levaremos nada do
presente, pois não estamos indo para lugar nem
um, exceto pelo fato de irmos para o mesmo
ponto de onde viemos... Ponto zero, onde
nada éramos. Não levaremos nada,não adquirimos
nada mais do que consciência e sentimentos...
Todavia navegamos por caminhos de sonho
e flutuamos agarrados aos cabelos blues, da
nossa fé.
Antonio Montes

Inserida por Amontesfnunes

ÁGUAS JORRADAS

As águas que correm aqui
já correram em outro lugar
um dia formaram oceano
fazendo as ondas jorrar.

Jorraram dos olhos meus
despencadas por amor
lagrimas de triste do adeus
molhando o peito de dor.

Jorraram por ai, pela vida
às favas da conseqüência
um dia tão combalidas!
salpicaram a consciência.

Jorraram o palco do engano
como abano de promessas
prometendo pra serem dono
da peça da grande festa.
Antonio Montes

Inserida por Amontesfnunes

TODO À-TOA

Entoa gente boa, entoa...
Entoa essa noite de gala
essa fala, essa empala que embala
essa marcha que resvala
pela rua, pela vida!
Essa cara deslavada pela praça...
Pelas calçadas bombardeadas
por essa cachaça pervertida
ou... Essas flores tão queridas!

Entoa gente boa, entoa...
Entoa com o vento na proa,
por esses cais por esses ais,
por esses menos que passam,
a serem mais...
E atracam a sua canoa e enjoa.

Entoa gente boa, entoa...
Entoa como se fossem broa,
na bruaca, na casaca...
Por esse neblina essa garoa
por esse grito bendito!
Por esses aerográficos oficio
por essa palavra que encantoa
ou por essa voz que desentoa.

Entoa gente boa, entoa
a toada do palco e da taboa,
entoa... Esse entoa todo à-toa.
Antonio Montes

Inserida por Amontesfnunes