Às Vezes

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A vida, às vezes, me ensina em pequenos parágrafos. Não há capítulos longos, só lições curtas e certeiras. Presto atenção e anoto em cadernos de bolso. Algumas tornam-se frases para dias de chuva. Outras eu queimo para libertar o peso antigo.

O remorso que carrego é fósforo que às vezes acende. Ilumina o que precisa ser reparado. Não há vergonha em ver a própria falha à luz. A vergonha vem quando escondemos e furtamos o conserto. Por sorte, sempre há tempo de apagar e recomeçar.

Às vezes penso que sou ilha e ponte ao mesmo tempo. Isolado, construo travessias para quem está perto. Há dias em que não quero ponte alguma. Outros, sou inteiro de tal modo que abraço o mar. E nessas variações, descubro meu próprio ritmo.

Há coisas que só a madrugada me permite dizer. Às vezes confesso medos que o dia ocultou. A escuridão é confidente que não julga. Depois, engulo as palavras e levo o resto comigo. Mas sempre alguma verdade ficou mais leve.

Às vezes, sento-me diante de Deus e não digo nada. O silêncio é a única oração que minha exaustão consegue formular.

Às vezes sinto que minha alma é um piano de cauda abandonado sob a chuva, onde cada gota que cai sobre as teclas evoca um acorde de saudade que ninguém mais sabe tocar. A música que resta em mim não é para os ouvidos do mundo, mas para o silêncio dos que já se perderam de si mesmos.

O corpo é uma casa que, às vezes, entra em reforma sem nos consultar, trocando a fiação do ânimo por circuitos de agonia que não têm interruptor. Resta-nos habitar o cômodo que sobrou, acender uma vela de oração e esperar que a estrutura resista a mais uma noite de ventania.

Às vezes, o que as pessoas chamam de "cura" é apenas o hábito de carregar a dor sem mancar tanto, um jeito de esconder a deficiência da alma para não incomodar a estética alheia. Eu prefiro mancar abertamente, exibindo minha humanidade defeituosa como uma bandeira de resistência.

Sou o resultado de todas as vezes que eu disse "está tudo bem" enquanto meu mundo interno estava sendo devastado por um tsunami de incertezas. A resiliência é uma forma de exaustão que aprendeu a usar maquiagem, uma força que nasce da total falta de opção.

Às vezes, o maior ato de bravura é simplesmente levantar da cama e enfrentar o espelho, sabendo que o reflexo será o de alguém que perdeu mais uma batalha para a própria mente. Vencer o dia por pontos é tão digno quanto vencê-lo por nocaute.

Minha alma tem a textura de um papel de carta que foi dobrado e desdobrado tantas vezes que as marcas da dobra agora fazem parte da mensagem. Sou um texto cheio de rasuras, correções de última hora e uma caligrafia que revela o tremor da mão que o escreveu.

Frases por vezes complexas, paradoxalmente intrigantes, frutos de uma mente em flagelo que já não distingue o real da fantasia melancólica. É o eco de uma alma cansada que, por vezes jogada ao pedregal, entrega-se aos abutres e corvos necrófagos, onde cada bicar das aves retira um pedaço do que outrora foi esperança. Ali, entre o pó e a pena, a mente finalmente cessa a luta contra o delírio, aceitando que a beleza, ainda que fúnebre e dolorosa, reside na coragem de desintegrar-se diante do próprio destino.


- Tiago Scheimann

Às vezes sinto que estou gritando debaixo d'água, vendo as bolhas do meu desespero subirem à superfície sem que ninguém entenda a mensagem que elas carregam. Escrever é aprender a desenhar na areia do fundo do mar, esperando que a maré alta leve o recado para alguém que saiba nadar.

Às vezes, meus passos ecoam no vazio da minha alma, como se cada movimento fosse um sussurro de quem insiste em existir mesmo quando tudo grita o oposto.

Aprendi que Deus, às vezes, responde no silêncio, porque há verdades que só um coração quebrado consegue compreender.

Nem sempre o milagre é a cura, às vezes é a força absurda de continuar mesmo sem ela.

Eu me reconstruí tantas vezes que já não sei mais onde termina a dor e começa a coragem.

​Às vezes, o olfato me trai e me devolve aquele cheiro ferroso, acre, de um tempo que eu gostaria de ter deixado para trás. Vejo-me novamente confinado naquelas caixas de concreto frio, em quartos de hospital onde o sol nunca ousava entrar com força. A memória é um curto-circuito, flashes de um ambiente sem relevo, uma monotonia de cinzas onde o único relevo era o barulho incessante das máquinas monitorando o que nos restava. É uma lembrança que não flui, ela fere em fragmentos frios e mecanizados.


- Tiago Scheimann

Às vezes, o café esfria no balcão enquanto a gente assiste ao tempo passar pela janela, percebendo que a pressa do mundo é apenas uma tentativa desesperada de não encarar o fato de que a beleza real mora no que é lento, no que dói devagar e no que se cura sem alarde.

Às vezes, eu tenho medo de esquecer você.
De simplesmente acordar um dia e encontrar uma cama vazia… levantar, preparar e tomar meu café da manhã sozinho, sem “bom dia”, sem abraços, sem beijos, sem risadas. Sem você.


Eu me pergunto quanto tempo levaria até que os anos me alcançassem e começassem a apagar coisas sobre você:
a forma diferente que você sorri, o som da sua risada, da sua voz, o seu cheiro, o gosto do seu beijo…
ou até mesmo detalhes simples, como sua cor favorita, os livros que você gostava de ler, e as músicas que ouvíamos juntos.


Tenho medo de que, um dia, você exista apenas como uma lembrança distante.
Um pequeno vislumbre de felicidade que vivi aos 20 anos, mas que já não está ao meu lado aos 70.


E então eu me pergunto…
será que você terá sido só isso?
Um breve instante de alegria na vida de um homem velho e melancólico?