Amor no Tempo Maduro- Carlos Drumond de Andrade
Na ancienidade o tempo não nos dá mais chances a erros
Quando a cabeça não pensa o corpo padece
A mente esmorece e o leito agradece.
O segredo é ser grego.
Não do grego, ser ou não ser.
Do sábio.
Que sabe nada saber.
De Atenas, do mundo.
Dono do tempo.
De um segundo.
Mistério revelado.
Em segredo profundo.
Tentar acertar é um dever dos sábios
Que correm atentamente contra este lobo
Que te devoras sem deixar-te tempo para recompor-se
Quando chega a longevidade só nos restam o consolo
Deste tempo cruel onde se deleitam os tolos
E deste funesto só nos sobram entulhos de células mortas
Sem nos dar tempo de vencer estes acalentos
Os olhos ainda abertos hão de ver
Os neurônios ainda funcionais hão de pensar
E os ouvidos ainda na escuta hão de ouvir
O tempo é um livro aberto
Os rascunhos se acumulam
O vento vai abolindo o indesejado
E nos mostrando novos horizontes
Já tentei aligeirar-me, sem êxito.
Fiz corridas, dei saltos mortais
Sucesso em quedas livres
Com rezas e credos cordiais
Pelejo em apressar meus passos
Me atraso neste compasso
Cabeça gira a 360 graus
Atropelo-me sem degraus
PÃO DE ILUSÃO
"Dona Maria vai à mesma padaria há 43 anos e alguns dias. Essa data traz a agonia inventada pela espontaneidade da vetustez. Alguns móveis da padaria, ao longo da modernidade, foram trocados por mármore gelado e mogno lustroso. Os donos do estabelecimento ainda não foram trocados. O padeiro continua com um semblante frio - tanto quanto o mármore - e a balconista, com a sua pele lustrada pela temperatura dos pães, estende dedos grossos para devolver o troco. Em todos esses anos, os formais comprimentos nunca foram trocados por nenhuma amizade com túnica mais interna. Dona Maria é apenas mais uma velha assídua que sempre compra o mesmo bolo de trigo. Os que estão na padaria, também são apenas os mesmos, apenas são, sem muitas túnicas internas, são superficialmente apenas duas almas sem recheio que Dona Maria vê ao longo de seus 43 anos. Por casualidade, há muitos calendários, Dona Maria vê os mesmos rostos, os mesmos objetos, come as mesmas comidas, veste os mesmos vestidos que cheiram a naftalina. Diga-nos, Dona Maria, diga como era o sol naquela década. Diga-nos, diga com dignidade como as pessoas se trajavam, nos diga sobre os programas televisivos, diga-nos se os corpos eram em preto e branco, diga se havia medo de ter esperança. Conte-nos, conte sobre hoje, conte sobre excesso de cores. Conte-nos como contas as moedas do cofre que guardas em cima da geladeira, qual valor tem a mudança. Para Dona Maria, a dinâmica do tempo não lhe foi muito generosa. Dona Maria aguarda, no cume de sua demência, que nada possa mudar, pois envelhecer é um fenômeno agudo, que esculpe pés de galinha e rugas sem muita cortesia estética. E ela inventa todos os dias mais um dia de monotonia, para que não alcance o desespero de um dia ter de que se reinventar. Dona Maria sabe que a eternidade não se vende em nenhuma padaria, mas que a alegria da ilusão lhe traz a sensação de poder ter desenhar a vida que se quer levar."
Em determinado momento da vida,todos chegamos ao ponto sem retorno,devido as nossas próprias escolhas.
O tempo tem como função primária, oferecer espaço para evoluirmos, já quem cura as dores e as feridas adquiridas no tempo, é própria evolução.
O tempo pode até escorrer entre os dedos,mas pode se fechar bem as palmas das mãos para segurar um pouco mais dele.
Não há necessidade de contemplarmos o lapso temporal
para compreender que estamos diante de uma pessoa especial.
Ninguém tem mais ou menos 24h por dia. A diferença é o que cada um faz do seu tempo. Precisamos saber aproveitar cada tempo, pois como cita John Lennon "a vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro".
