A Hora da Estrela Macabea
E Macabéa, com medo de que o silêncio já significasse uma ruptura, disse ao recém-namorado:
– Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?
Orgulho de ser nordestina
Não é só por Patativa e Antônio Francisco
Zabé da Loca, Castro Alves e Antônio Conselheiro
Por Luiz do baião, Chico Cesar e Lampião
Que eu tenho orgulho do meu sertão
Tenho orgulho de ser nordestina,
porque sei desde menina
que tiramos da terra seca a poesia
força e coragem pra viver
E sob o sol escaldante
a esperança latente nos faz vencer.
Nossos rios, nossas praias, a caatinga
Serras, cachoeiras e canaviais
não se comparam à alegria de ser assim:
Nordestina, sim!
Sem perder a brabeza da luta
e a cadente ternura,jamais!
Quando chegar a hora de voltar à sua estrela, poderá ser difícil dizer adeus para aquele mundo estranhamente lindo.
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Entrar no canal do WhatsappOuvira na Rádio Relógio que havia sete bilhões de pessoas no mundo. Ela se sentia perdida. Mas com a tendência que tinha para ser feliz logo se consolou: havia sete bilhões de pessoas para ajudá-la.
“O Doce Lugar Onde os Livros Moram”
Eu morava em Macabéa, no Beco dos Milagres, e fique sabendo: Meus Passos Vêm de Longe. Talvez venham de um lugar onde os homens aprendem cedo que a vida é maior do que a estrada que conseguem enxergar e que, para atravessar certas distâncias, basta abrir um livro e aceitar o risco de nunca mais voltar sendo o mesmo.
Foi assim que um dia encontrei Dom Quixote. Vi aquele homem magro levantar sua lança contra os moinhos e compreendi que há uma espécie de dignidade reservada aos que ainda ousam lutar contra aquilo que o mundo inteiro já aceitou. Chamaram-no de louco. Talvez fosse. Mas desde então desconfio que algumas loucuras são apenas sonhos que se recusaram a aprender a linguagem da resignação.
Continuei andando.
Entrei no Grande Sertão: Veredas e descobri que o sertão não termina onde acaba a terra seca. O sertão entra no homem. Tem encruzilhadas, medos, demônios e perguntas que nenhuma estrada responde. Foi ali que encontrei também o Burrinho Pedrês e atravessei Campo Geral, percebendo que Guimarães Rosa sabia uma coisa que poucos sabem: até o silêncio de um bicho pode contar a história inteira de um homem.
Mais adiante encontrei Vidas Secas. E aquelas vidas me ensinaram que a fome também possui linguagem, embora quase nunca tenha voz. Vi homens, mulheres, crianças e uma cachorra atravessando uma terra onde até a esperança parecia precisar economizar água. Depois entrei n’O Cortiço e encontrei outro Brasil: apertado, barulhento, desigual, fervendo de desejos, misérias, preconceitos e sobrevivências. Ali compreendi que algumas casas possuem paredes, enquanto outras possuem destinos.
Mas continuei.
Porque meus passos vêm de longe.
Passei pela Memória do Cárcere e descobri que existem grades capazes de prender o corpo sem conseguir aprisionar o pensamento. E foi talvez por isso que, quando encontrei A Rosa do Povo, compreendi que a poesia também pode nascer no meio do concreto, da guerra, do medo e da injustiça. Há rosas que não foram feitas apenas para perfumar. Algumas nascem para incomodar o mundo.
Carreguei comigo O Livro dos Abraços, porque depois de tantas dores precisava acreditar que a humanidade ainda cabia no gesto de dois braços. Mas Eduardo Galeano não me deixou descansar por muito tempo. Abriu diante de mim As Veias Abertas da América Latina, e eu vi um continente belo sangrando através dos séculos: ouro, prata, terra, suor, povos e sonhos atravessados pela cobiça. Percebi então que há feridas que pertencem a uma pessoa e outras que atravessam gerações inteiras.
Foi nessa caminhada que encontrei O Santo e a Porca e aprendi a rir das contradições humanas, porque Ariano Suassuna sabia que até nossa miséria pode carregar graça, esperteza e uma profunda vontade de continuar vivendo. Depois veio A Cabeça do Santo, lembrando-me de que o extraordinário às vezes escolhe justamente os lugares esquecidos para acontecer.
Mas houve um livro diante do qual precisei diminuir os passos.
O Avesso da Pele.
Porque existem histórias que não pedem apenas leitura. Pedem consciência. Há peles sobre as quais o mundo escreveu violências antes mesmo de perguntar o nome de quem as carregava. E quando viramos essa pele pelo avesso, encontramos memória, identidade, amor, ausência e uma humanidade que tantas vezes tentaram reduzir à aparência.
Então compreendi por que havia caminhado tanto.
Eu não estava procurando o final de nenhuma história.
Estava procurando pedaços de mim.
Um pouco de mim ficou com Dom Quixote diante dos moinhos. Outro atravessou as veredas do grande sertão. Uma parte sentiu sede com as Vidas Secas, outra espiou pela janela d’O Cortiço. Fui prisioneiro por algumas páginas na Memória do Cárcere, segurei A Rosa do Povo entre as mãos, recebi O Livro dos Abraços contra o peito e senti correr diante de mim As Veias Abertas da América Latina.
Ri com O Santo e a Porca. Escutei os mistérios d’A Cabeça do Santo. Toquei, com cuidado, O Avesso da Pele. Atravessei Campo Geral ao lado de um Burrinho Pedrês e, depois de tanta terra, tanta gente, tanta dor e tanta beleza, cheguei aos Contos do Mar sem Fim.
Foi quando finalmente entendi:
eu nunca morei apenas numa casa.
Passei por Macabéa e pelo Beco dos Milagres. Cruzei sertões e veredas, conheci o cortiço e senti de perto as paredes do cárcere. Andei entre santos e porcas, colhi rosas, recebi abraços e encontrei homens, bichos, loucos e retirantes pelo caminho.
No fim, descobri que minha verdadeira morada sempre esteve nas páginas.
E fique sabendo, caso algum dia encontre minhas pegadas entre um livro e outro: meus passos vêm de longe.
Vêm de todos os escritores que me emprestaram seus olhos para que eu pudesse enxergar um pouco além dos meus.
Porque existem livros que a gente lê e coloca de volta na estante.
Mas existem outros que fazem justamente o contrário:
abrem a gente,
entram devagar,
e passam o resto da vida morando em nós.
“existem livros que a gente lê… e outros que passam o resto da vida morando em nós”
macabéa.
do que gritando?
gerúndio.
de quem corres?
de você?
do mundo?
macabéa.
onde foi parar-te?
para onde vai?
ou, quando volta?
o mundo e macabéa.
macabéa e as cantigas.
o mundo e as cantigas.
as cantigas.
o mundo.
carsan
Sou tantas outras quanto quero na Clarice Lispector. Hoje estou Joana, amanhã, talvez, Macabéa. Um dia pensei ser Glória.
Macabéa
A chuva não cai
O vento não venta
O tempo não passa
O sono não chega
Venha antes que eu esqueça
Que sou algo mais do que da vida uma espera
Quando no enterro do que eu fora
Na minha hora, serei eu, enfim, estrela.
REALIDADES
Um dia em algum lugar e a qualquer hora
Uma estrela irá brilhar
Fortalecendo sua vida
És de ter paz e ternura
Para florir teu caminho
O verão traz o calor
Que esquenta a nação
E tendo você como amiga
Me conquistando o coração
Espero que realizes vários sonhos
Em sua vida alegre e rotineira
Para que desperte em sua mente
O verdadeiro sentido da paz e alegria
Mas...
Nunca desista de ser feliz
Pois só assim você conseguirá
Por certeza a maior conquista
Que um ser humano pode ter
ORIGINAL ESCRITO EM 19/05/1988
Chega de amor-desculpa
amor-rotina-decadente
Quero amor-fogo-gasolina
Meu amor, amor, é amor-urgente!
Uma xícara de chá
Quando você me olha
E eu finjo não estar vendo
É que ouço o barulho
Da água fervendo...
Será o sinal que preciso
Pra entender que estou pronta?
De mãos dadas com um desconhecido íntimo
Percebi que a solidão é a saudade de quem caminha ao meu lado.
Teatro
As cortinas abrem (...)
Meus olhos!
Bem vindo ao espaço
do choro e do riso: Teatro!
O palco.
Sinto a força que sai
de dentro de mim:
O encontro com a multidão
de um só!
As luzes, as cores, os sons.
Minha voz!
Aqui eu morro, vivo e revivo.
Eu sou, depois não sou:
O teatro me invade.
Só quando as luzes se apagam,
depois do som do aplauso,
eu desperto: foi um sonho!
Sonhos, quero tê-los, e tê-los,
sempre!
Eu canto porque...
Eu canto porque
minha alma é ritmada.
Pelo compasso de todos os passos
Pela melodia da passarada
Sou capella dos meus apelos
Não sou acústica de nada
Sou, sim, concerto dos meus erros
Em uníssono cortejo
De energia em harmonia
Da cifra decifrada.
Eu canto porque tenho sede
de tudo que transcende
Respiro.
Eu canto porque vivo.
E o meu canto ecoa no universo.
Espelho
A gente desconfia
da sombra
da lombra
das ruelas e esquinas
dos meninos e meninas
E nem imagina
Que a veste maltrapilha
Cobre um bom filho
Um pai de família
Uma mulher descente
A gente tem medo de gente
E nem desconfia do espelho
E a vida da gente é samba-canção
O forró é bem gostoso
O côco é envolvente
Mas o samba quando toca, nêga:
Entra na vida da gente!
Toma de conta do corpo
E a alma faz transbordar
Quem não gosta de samba, coitado!
Tenho dó só de pensar.
O que seria de mim,
sem o que o samba me faz?
Na roda eu sou rainha da alegria
e eu não sei parar mais
Pena de quem não sabe
do quê que o samba é capaz
Faz retrato da vida
Lateja no coração
É hino de amor, de dor e paixão
E é por isso que vive na vida da gente
E a vida da gente é samba-canção.
À menina que passava na rua
Vinha como visão
E para o meu deleite
O tempo ficou parado
Ela então me roubou
Com flores
Flores por toda a parte
No vestido estampado dela
No cabelo perfumado dela
Sem querer, um sorriso
[Sorriso pedido de casamento]
Eu sorri pra ela
Eu sou um sonhador!
É difícil viver de sonhos, primeiro porque é difícil deixá-los viver. Sim. Os sonhos muitas vezes não sobrevivem à dureza do imperativo "ter que fazer".
Quando somos crianças, nos obrigam a acreditar em papai noel para pouco depois descobrirmos que não, ele não existe, e daí acreditarmos que sonhos não têm fundamento. Nos obrigam a acreditar em bicho-papão para nos assustar, e qual não é nossa surpresa de um dia enxergar o mundo a nossa volta e saber da violência, e que pessoas morrem de fome, de frio, de falta de amor? Nos aprisionam em mentiras para nos esconder da realidade da qual realmente pertencemos e que podemos/devemos mudar. Mas o pior, pior mesmo é quando nos fazem acreditar que por sermos crianças não podemos querer, porque não sabemos o que desejar, e que devemos almejar o que querem pra gente: o melhor. É exetamente aí que matam nossa capacidade de sonhar. Porque o melhor sempre é ganhar mais dinheiro, ter mais poder.
Sonhar - não há tempo para isto. O certo é trabalharmos o dia todo, chegarmos cansados, assistirmos tv e dormir. Dormir um sono bem leve e preocupado, sem tempo para devaneios, afinal de contas, o outro dia virá com mais e mais trabalho, e temos de estar preparados. No tempo 'livre' temos de estar ocupados: Ficar deitado sem fazer nada e pensar; ler um livro, ou um blog de poesia e literatura e pensar; olhar o movimento da rua e pensar - NEM PENSAR!!! Temos que fazer cálculos, planejamentos, gráficos... Sermos matemáticos e administrativos. Temos de cuidar da aparência, da beleza e esconder nosso teto de vidro. A vida está sempre atrasada, tem pressa e deve simplesmente seguir. Mas para onde? Para quê? Por quê? É difícil nadar contra a corrente e dizer: - EU SOU UM SONHADOR! E do outro lado alguém me grita: - Há contas a pagar! MAS EU PRECISO, PRECISO SONHAR!
Vivemos em um mundo opressor. Ou escolhemos ser livres e assumimos a condição essencial da vida que é sonhar ou somos reprodutores estéreis de um cárcere capitalista sufocador.
P.S.: Não venha me dizer: -"tá, isso tudo que você falou é lindo, mas não funciona..." Ao que eu responderei: - "Conhece felicidade? Ela não vem de carro ou carruagem. Tá dentro da gente, e é a gente quem faz!"
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