Voltar pra Casa
Voltar para casa e perceber que tudo mudou porque minha mãe não está mais aqui é como entrar em um lugar conhecido e, ao mesmo tempo, completamente estranho. As paredes continuam as mesmas, os objetos ainda estão no lugar, mas falta a presença que dava vida a tudo. Existe um silêncio diferente, um vazio que não é só ausência — é a certeza de que nunca mais será como antes.
Sinto um duplo vazio: o da saudade dela e o da perda daquilo que eu também era quando ela estava aqui. É como se uma parte da casa tivesse partido junto com ela, e outra parte de mim também. Tudo parece mais frio, mais distante, como se o mundo tivesse perdido um pouco do sentido e da cor.
É estranho perceber que o lugar continua existindo, mas o sentimento de lar mudou para sempre.
Constatar que voltar para casa, não é voltar, não é porque a mente mentiu, não foi imaginação ou ilusão. É porque voltar quando a mãe já não está mais lá, faz toda a diferença. A casa não existe mais. A ausência física dela dói, mas essa saudade é o reflexo do tamanho do amor que existia. O amor dela era o que nos unia e mantinha o meu porto seguro. E sem ela sou apenas um barco no oceano levada pelos ventos.
Talvez a pior forma de solidão seja voltar para casa e descobrir que até a própria sombra parece pertencer a outro homem.
*ANTES QUE ALGUÉM ENTRE*
Entrei no bar porque ainda era cedo demais para voltar para casa e tarde demais para fingir que tinha alguma coisa importante para fazer.
O garçom me reconheceu.
Depois de certa idade, ser reconhecido num bar não é exatamente uma conquista. Significa apenas que você esteve ali vezes demais.
Sentei no canto de sempre.
Pedi bourbon.
O primeiro gole resolveu algumas questões que eu não tinha intenção de discutir naquela noite.
Peguei o celular.
Não sei por quê.
Talvez por hábito.
Talvez por tédio.
Talvez porque, depois de certa idade, qualquer tela iluminada pareça uma promessa de companhia.
Havia aplicativos abertos.
Alguns deles eu nem lembrava por que tinha instalado.
Não eram necessariamente aplicativos de namoro.
Pelo menos era isso que eu dizia a mim mesmo.
Curiosidade também é uma palavra bastante útil.
Passei o dedo pela tela.
Rostos.
Mulheres novas, balzaquianas, maduras.
Pessoas sorrindo diante de praias, restaurantes, cachorros, academias e lugares onde provavelmente nunca tinham estado tão felizes quanto pareciam estar na fotografia.
Algumas apresentavam a si mesmas como se estivessem concorrendo a uma vaga.
Outras apresentavam uma lista.
Não fumante.
Não bebe.
Não aceita determinada posição política.
Não quer alguém com filhos.
Não quer alguém sem filhos.
Altura mínima.
Renda mínima.
Distância máxima.
Personalidade compatível.
Signo compatível.
Vida resolvida.
Passado aceitável.
Pouco passado, de preferência.
Comecei a achar aquilo curioso.
Não exatamente engraçado.
Curioso.
As pessoas pareciam estar procurando alguém depois de verificar cuidadosamente se ninguém entraria.
Era uma espécie de alfândega sentimental.
Documentos em ordem.
Bagagem declarada.
Nenhuma mercadoria proibida.
Continuei olhando.
A lista era maior que algumas biografias.
E talvez fosse justamente esse o problema.
Ninguém mais precisava conhecer alguém.
Bastava verificar se a pessoa atendia aos requisitos.
Como se estivesse comprando um carro usado.
Quilometragem emocional.
Opcionais.
Defeitos ocultos.
Manual de instruções.
Garantia.
Pedi outro bourbon.
O garçom deixou o copo diante de mim.
Fiquei olhando o líquido por alguns segundos.
O bourbon tem essa qualidade.
Não resolve nada.
Mas melhora a aparência dos problemas.
Voltei ao celular.
A tecnologia prometeu aproximar as pessoas.
Entregou um catálogo.
Milhões de rostos ao alcance do dedo e uma quantidade cada vez maior de razões para não tocar em nenhum deles.
Passei para outro perfil.
Não gostei da fotografia.
Passei.
Outro.
Não gostei da descrição.
Passei.
Outro.
Alguma coisa me incomodou.
Passei.
Parei.
Voltei.
Não sei por quê.
Continuei.
Foi aí que percebi que eu também estava fazendo aquilo.
Essa foi a parte desagradável.
É fácil observar a estupidez dos outros quando você não precisa olhar para as próprias mãos.
Eu também tinha critérios.
Só não os chamava de critérios.
Chamava de experiência.
Depois de certa idade, a gente aprende a dar nomes respeitáveis às próprias defesas.
Não quero drama.
Pode significar: já fui ferido.
Não quero alguém complicado.
Pode significar: não tenho mais paciência para descobrir outra pessoa.
Quero alguém maduro.
Pode significar: quero alguém que não me obrigue a mudar.
Quero alguém resolvido.
Essa era uma das melhores.
Como se eu mesmo estivesse resolvido.
Como se tivesse passado décadas acumulando erros apenas para chegar a algum ponto em que pudesse preencher um formulário dizendo:
pronto.
Agora estou funcionando corretamente.
Bebi.
Olhei para o bar.
Duas pessoas conversavam numa mesa próxima.
Não pareciam interessantes.
Depois pensei que talvez eu não tivesse dado a elas tempo suficiente para serem.
Esse pensamento me incomodou.
Eu queria conhecer pessoas ou apenas encontrar versões antecipadas delas?
Talvez fosse a segunda opção.
Uma pessoa antecipada é muito mais confortável.
Você sabe o que ela pensa.
Sabe o que ela gosta.
Sabe o que ela não tolera.
Sabe o que procura.
Sabe o que rejeita.
Tudo antes de ela abrir a boca.
Uma pessoa real é outra coisa.
Chega atrasada.
Tem mau humor.
Fala demais.
Fala pouco.
Ri na hora errada.
Tem uma opinião absurda.
Muda de opinião.
Fuma quando você odeia cigarro.
Bebe quando você prometeu que não queria mais bêbados por perto.
Vota no sujeito que você considera um idiota.
Escuta a música que você não suporta.
Tem cicatrizes que não aparecem na fotografia.
E, às vezes, é gentil.
Isso complica tudo.
É fácil rejeitar uma categoria.
Mais difícil rejeitar alguém que está sentado diante de você.
Principalmente quando essa pessoa não corresponde àquilo que você imaginou.
Fiquei olhando para o meu copo.
Talvez fosse por isso que as listas existissem.
Elas davam a sensação de controle.
Se eu estabelecer critérios suficientes, pensei, posso impedir que alguém errado entre.
O problema é que ninguém consegue estabelecer critérios suficientes.
Sempre existe alguma coisa que ficou de fora.
Um hábito.
Uma lembrança.
Uma maneira de falar.
Uma família.
Uma história anterior à sua.
Alguma coisa que não estava na fotografia.
E então você descobre que não estava escolhendo apenas quem poderia entrar.
Estava tentando decidir antecipadamente o que teria permissão para acontecer depois que alguém entrasse.
Essa parte eu não gostei.
Porque já não era mais sobre os aplicativos.
Era sobre mim.
Passei anos aprendendo a viver sozinho.
Isso tem vantagens.
Você sabe onde estão as coisas.
Sabe o que comprar.
Sabe a hora em que prefere ficar quieto.
Não precisa explicar por que chegou tarde.
Não precisa negociar o volume da televisão.
Não precisa perguntar se alguém se importa com a música.
A casa vai adquirindo o formato de quem mora nela.
E, depois de algum tempo, qualquer outra pessoa parece uma mudança de móveis.
Talvez fosse exagero.
Talvez não.
Eu já tinha me acostumado demais com o meu próprio espaço.
A ideia de alguém ocupando uma parte dele parecia boa enquanto permanecia abstrata.
Quando se aproximava da realidade, começava a parecer trabalho.
Voltei ao aplicativo.
Outro rosto.
Outro.
Outro.
O dedo continuava trabalhando.
Era quase um reflexo.
A cabeça justificava.
O dedo decidia.
E eu nem sabia exatamente o que estava procurando.
Talvez nada.
Talvez alguém.
Talvez apenas a sensação de que ainda poderia encontrar alguém.
Existe uma diferença.
A esperança pode ser mantida durante anos quando não precisa enfrentar a realidade.
A pessoa real, não.
A pessoa real exige presença.
E presença é uma coisa inconveniente.
Ela não pode ser filtrada.
Não pode ser editada.
Não pode ser devolvida depois de sete dias.
Uma pessoa real traz uma vida inteira que começou antes de você.
Traz antigos amores.
Família.
Medos.
Hábitos.
Erros.
Desejos.
Contradições.
Algumas coisas que você vai gostar.
Outras que vai detestar.
E algumas que, para seu azar, vão obrigá-lo a reconsiderar aquilo que você jurou nunca aceitar.
Pode ser alguém que vota diferente.
Pode fumar.
Pode beber.
Pode acreditar em alguma coisa que você considera absurda.
Pode ter uma história que não combina com a sua.
Pode rir de coisas que você não acha engraçadas.
Pode ser exatamente o tipo de pessoa que você teria eliminado no segundo movimento do dedo.
E ainda assim pode acontecer alguma coisa.
Esse é o problema.
Pode acontecer alguma coisa.
O algoritmo prefere outra coisa.
Prefere que você continue procurando.
A próxima pode ser melhor.
Mais bonita.
Mais inteligente.
Mais compatível.
Mais interessante.
Mais próxima.
Mais perfeita.
A próxima está sempre disponível.
A esperança fica um perfil adiante.
Mais um movimento.
Mais uma noite.
Mais um bourbon.
Mais uma promessa silenciosa de que amanhã talvez seja diferente.
Amanhã chega.
A lista continua.
Enquanto isso, as pessoas envelhecem.
As rugas chegam sem pedir licença.
Os bares fecham.
Os amigos desaparecem.
Alguns morrem.
Os discos riscam.
As fotografias ficam antigas.
O bourbon acaba.
E nós continuamos escolhendo.
Eu também.
Talvez essa fosse a parte que mais me incomodava.
Eu podia rir das listas dos outros porque elas pareciam absurdas.
Mas tinha uma lista minha.
Talvez não estivesse escrita em lugar nenhum.
Era pior assim.
Estava na cabeça.
Altura.
Hábitos.
Jeito de falar.
Passado.
Problemas.
Opiniões.
Tudo aquilo que eu dizia não querer.
Tudo aquilo que eu achava que já tinha idade suficiente para não precisar suportar.
Como se envelhecer desse ao homem algum direito especial de exigir uma vida sem inconvenientes.
Não dá.
Só dá mais experiência em reconhecer alguns deles.
Terminei o bourbon.
Fiquei olhando o copo vazio.
Pensei que talvez o problema nunca tivesse sido encontrar alguém.
Talvez fosse aceitar que alguém real sempre traria alguma coisa que eu não tinha pedido.
Uma opinião.
Uma lembrança.
Um medo.
Uma diferença.
Um defeito.
Uma necessidade.
Uma história anterior à minha.
Conhecer alguém significava entrar numa história que começou sem você.
Não havia como editar os capítulos anteriores.
Não havia como selecionar apenas as partes convenientes.
Não havia botão para remover aquilo que incomodasse.
Uma pessoa real não vinha com manual.
Nem certificado de compatibilidade.
Nem garantia contra abandono.
Era justamente isso que tornava tudo tão difícil.
Pedi a conta.
O garçom trouxe.
Guardei o celular no bolso.
Não porque tivesse aprendido alguma grande lição.
Não aprendi.
Apenas fiquei cansado de transformar desconhecidos em candidatos.
E depois reclamar que ninguém me conhecia.
O bar estava quase vazio.
Fiquei sentado mais alguns segundos.
Pensei nas pessoas que eu tinha descartado naquela tela.
Depois pensei nas que talvez tivessem me descartado.
A ideia não era agradável.
Talvez algumas tivessem razão.
Talvez outras não.
Nunca saberia.
Essa é uma das coisas que a gente perde quando decide cedo demais.
A possibilidade de descobrir.
Levantei.
Saí do bar.
O celular continuava no bolso.
Não o abri.
Não porque tivesse desistido de encontrar alguém.
Nem porque tivesse finalmente compreendido o amor.
Não tinha compreendido nada disso.
Apenas comecei a desconfiar de uma coisa.
Talvez eu não estivesse procurando alguém que coubesse na minha vida.
Talvez estivesse procurando alguém que não mexesse nela.
E isso era diferente.
Continuei andando.
Passei anos organizando a casa.
Escolhendo os móveis.
Definindo as regras.
Decidindo quem poderia entrar.
No fim, a casa estava impecável.
E vazia.
Parei por um instante.
Pensei que talvez fosse melhor assim.
Depois pensei que essa frase também parecia uma defesa.
Sorri sozinho.
Era um progresso pequeno.
Ou apenas outro truque da minha cabeça.
Não importava.
Continuei andando.
O bar ficou para trás.
O celular permaneceu no bolso.
Eu ainda não sabia se queria encontrar alguém.
Também não sabia se queria continuar sozinho.
Pela primeira vez, porém, percebi que talvez tivesse passado tempo demais tentando resolver essa dúvida antes que qualquer pessoa tivesse a oportunidade de aparecer.
E talvez fosse esse o problema.
Eu queria saber quem entraria antes de abrir a porta.
Isso me pareceu uma exigência razoável durante muito tempo.
Naquela noite, já não pareceu tanto.
Não porque eu tivesse descoberto alguma resposta.
Só porque, pela primeira vez, a possibilidade de não saber não me pareceu uma ameaça.
Continuei andando.
O resto podia esperar.
É exaustivo ter que lutar contra o mundo lá fora e, ao voltar para casa, ter que erguer escudos contra quem deveria ser o nosso refúgio.
Ore, vigie e preste atenção ao sair e voltar para casa, pois existem pessoas más intencionadas em seus pertences.
Buscar a paz é levantar da cadeira, sair de casa descobrir o mundo. Encontra-la é voltar para casa, sentar-se em sua cadeira e respirar vagarosamente.
Que nunca percamos a sensibilidade de reconhecer nossos desvios, nem a coragem de voltar à casa do Pai. O filho pródigo voltou arrependido — e encontrou não julgamento, mas reconciliação e restauração.
Pois, em Cristo, o arrependimento é o portal para a transformação que glorifica a Deus.
Sobre voltar pra casa
Parece que tudo é mais pesado aqui,
como se eu tivesse voltado ao lugar de onde um dia eu parti.
Por dois anos eu corri, tentando escapar,
mas voltei para o passado que eu tanto quis deixar.
Voltei pras lembranças que eu quis apagar,
pras dores da infância que eu não quis carregar,
pros abusos que eu nunca deveria enfrentar,
pra tudo que eu passei tentando esquecer e superar.
Voltei pra depressão que um dia me afundou,
pras noites em que ninguém viu quando meu coração gritou.
Pros momentos em que eu sofri calada,
mesmo cercada de gente, me sentindo abandonada.
Voltei pros monstros que me faziam tremer,
pros medos que cresceram sem me deixar viver.
Pros julgamentos de quem deveria me acolher,
pro ódio de quem deveria me proteger.
Voltei pra um lugar onde minha dor era frescura,
onde meu sofrimento virava drama e minha tristeza, loucura.
Onde aquilo que me feria era tratado como exagero,
e eu aprendi, pouco a pouco, a esconder o que eu sentia por inteiro.
Voltei pra um lugar onde eu não me sentia importante,
onde estar cercada nunca impediu que eu me sentisse distante.
Onde eu gritava por dentro sem ninguém perceber,
onde eu aprendi a sorrir quando tudo que queria era desaparecer.
Voltei pro meu desespero mais profundo,
pro lugar onde eu já não reconhecia meu próprio mundo.
Pro lugar de onde Ele um dia me tirou,
e que, mesmo sabendo de tudo, eu mesma escolhi voltar.
Eu queria enfrentar, queria finalmente vencer,
queria olhar pros meus monstros sem voltar a tremer.
Mas esqueci que eles ainda sabiam me encontrar,
conheciam minhas feridas e sabiam onde tocar.
Eu esqueci que monstros também sabem esperar,
que conhecem nossos medos e sabem como nos quebrar.
E agora eu lembro, com o coração cansado de lutar:
algumas batalhas não exigem coragem para voltar.
Talvez eu tenha confundido enfrentar com permanecer,
como se voltar para a dor fosse a única forma de vencer.
Mas hoje, entre lágrimas que eu não consigo esconder,
uma coisa eu consigo finalmente dizer:
Eu não deveria ter voltado...
A cura começa quando você para de fugir de si mesmo e decide voltar para casa, dentro do seu próprio coração.
A cura começa quando você para de fugir de si mesmo e decide voltar para casa, dentro do seu próprio coração.
A gente passa tanto tempo buscando lá fora o que só pode ser encontrado aqui dentro.
Se acolher. Se perdoar. Se escutar. Se amar.
A cura espiritual não é sobre nunca mais sentir dor. É sobre aprender a se abraçar mesmo nos dias difíceis e lembrar que sua casa sempre foi você.
Por mais difícil e cinzento que tenha sido meu dia, procuro sempre voltar pra casa trazendo comigo um pouquinho de sol!
Ficava feliz ao voltar pra casa, reunida em volta da família? Ou era um fardo, a sensação, a nítida sensação era que ambos apenas preocupavam-se apenas com o seu lado, percebendo a conotação egoísta ou individualizada de cada um. Alguém iniciou este ciclo e o outro não quis se doar sozinho, formaram-se a equipe do "meu ego". E tudo se desfez.
'Voltar para casa é desesperador, na rua a gente sorri, brinca, fala besteira, mas voltar para casa me dá um medo, ainda mais quando minha vida está de pernas para o ar. È o lugar onde eu bato de frente com tudo aquilo que me afligia, não tem como me esconder, me engole, me absorve de uma forma que não sobra nada de mim. Cada pedacinho meu foi esmagado e espremido, só o que resta são lágrimas. Está feito: Um suco bem amargo com todas as minhas dores e futuras rugas.
