Voar
"Não poderia eu, viver em meio a este pequeno globo terrestre, sem desejar a imensidão. Quero mais, quero além. Sendo eu, uma pessoa feita de sonhos, não poderia caminhar por este mesmo solo frio e sem vida. Voar, mas por onde? Se mesmo as nuvens fossem de algodão, poderia até deitar sobre elas e repousar. Dizem que devia ter calma, colocar os pés no chão e não desejar tão alto. Mas não seria eu se não sonhasse mais que o possível. "
Disseram-me: "Tens de criar raízes."
Mas eu, que não nasci para estar plantado, criei asas. Acharam-me tolo, sem maturidade. Hoje, lá estão eles, estagnados, e eu, a voar em liberdade.
AMAR NOUTRA DIMENSÃO
Quando o sol se esconde, para que um novo dia aconteça outra vez, o previlégio da proximidade com o mar enriquece-me as reflexões, as sensações, as emoções.
É na infinitude do horizonte, no observar do pássaro que tomo como de perto a tua presença, que revivo os teus beijos, acolhida por teu abraço, numa intensa real sensação do que me dás nos meus sonhos.
E no pássaro que voa, perante os estímulos que me provocam as ideias, encontro-me, a amar noutra dimensão.
Convide a lua para vigiar tua noite e saia em busca dos sonhos que esperam bem alí onde o sono pega carona com as estrelas só para ver você voar.
Um dia eu sonhei ter uma bike, pedalar. Sonhei ter minha própria nave, viajar. Ter uma bóia, velejar. Um dia sonhei voar. Voar, como é bom sonhar. 🪂
Quero ver o amor pedir licença, quero ver o mundo em silêncio tornando-se sem fim.
Quero beber o futuro no cálice da vida para voar aonde alcançam as asas da imaginação.
Pobre coração acorrentado, preso em elos fatais, anseia pela liberdade, em ser alado e seguir as correntes da liberdade pelas brisas tranquilas a fluir, por sobre terras mares, alçando voos estelares, nos mais distantes lugares, e enfim desfrutar das delícias do amor.
Diante da sua evolução como borboleta, a lagarta não apenas adquire um par de asas, mas a consciência de que pode voar.
SOltOS
dizem que nunca vou saber lidar
com o mundo lá fora,
não vou saber morar nele.
mas como vou poder aprender
preso nessa gaiola
que insiste(o) em me esconder?
é aqui que chamam de escuridão,
nos galhos das árvores, dentro dos corações,
nas letras das canções.
isso pode ser por puro conforto
mas por mais que esteja preso,
sinto um veneno que me fortaleceu
e aos poucos quer me deixar morto.
é dia de voar,
de poder expandir os horizontes,
libertar o corvo que habita em mim.
daqui de cima
há sentimentos que nunca serão palavras.
sinto ventos, estradas,
escuto vozes que assim como a minha,
eram caladas.
dá vontade de ecoar o meu grito,
será que solto fico mesmo mais bonito?
no fundo, toda essa liberdade
me assusta um pouco, é tudo novo.
estranho seria se eu ainda gostasse
daquela prisão, mas ela me trazia consolo.
aquele desejo compulsivo
de conhecer o mundo, voar entre abismos,
desbravar todos os riscos
é o que todo mundo sente algum dia
mas isso é liberdade ou medo do que me bania?
estar livre e estar perdido
são coisas muito parecidas no fim.
afinal, estava melhor preso
ou estasiado em fugir?
sentir o vento em minhas asas,
ser um sujeito de sorte,
escutar o que todos falam sobre
chegar o dia de sua morte.
sei que preciso desvendar todas as miragens,
mandar as devidas mensagens,
odiar esse mundo de selvangens,
mas foi assim que descobri que
ser solto também tem suas desvantagens.
Para ser feliz, dentro de um pouco, liberte se. Para ser bem mais feliz é necessário uma boa parte de egoismo.Pois sem ele, neste mundo, distancia se de qualquer felicidade.
Se eu fosse um poeta, teria aprendido estar sempre, em solta liberdade, a navegar entre as nuvens, a sonhar, a amar e a voar.
Da Ideia à Criação
Antes da lâmpada brilhar,
houve a sombra da ideia,
um pensamento que se insinuava
como quem espreita o destino
sem revelar suas intenções.
O homem, em suas limitações,
só cria porque contempla
o que ainda não existe.
Do verbo ao cosmos,
do planar ao conceito de vôo,
tudo vibra na necessidade
de criar o novo, de moldar o nada.
Pensar é plantar mundos,
colher inovações
que o futuro não supõe.
É fazer do impossível o alicerce
e do impensável
o corpo da criação.
A primeira ideia foi o verbo,
e, desde então,
cada invenção é como uma prece
que nasce nos cantos da alma,
esperando o instante
em que essa ideia se faça matéria.
Asa de um lado só
Só tenho uma asa.
Um lado mudo de pássaro.
O céu me namora,
mas eu sou do chão.
Se tivesse duas,
voava em linhas tortas,
fazia rasantes no azul
e inventava nuvens novas.
Com uma só,
fico brincando com o vento,
sonhando ser passinho,
pés no chão e cabeça nos ares.
Quem sabe um dia,
no finalzinho da lida,
a asa murcha cresça
e eu, enfim, conheça o céu.
Minha asa pulsa,
como se já soubesse do infinito.
Uma asa é quase nada,
ou tudo — depende do corpo que sonha.
