Poemas curtos de Clarice Lispector
Desde já calculo que aquilo que de mais duro minha vaidade terá de enfrentar será o julgamento de mim mesma: terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária.
Não sei como se faz outra cara. Mas é só na cara que sou triste porque por dentro eu só até alegre. É tão bom viver, não é?
Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim.
O pior momento de sua vida era nesse dia ao fim da tarde: caía em meditação inquieta, o vazio do seco domingo. Suspirava. Tinha saudade de quando era pequena – farofa seca – e pensava que fora feliz.
Quanto ao resto, ladies e gentlemen, eu me calo. Só não conto qual é o segredo da vida porque ainda não aprendi. Mas um dia eu serei o segredo da vida. Cada um de nós é o segredo da vida e um é o outro e outro é um.
Uma mulher inteligente visa um único homem. Veste-se, anda, e fala para agradar exclusivamente a ele.
O telefone não toca. Dói. Mas é Deus que me poupa.
Se fosse criatura que se exprimisse diria: o mundo é fora de mim, eu sou fora de mim.
É difícil, estando acordado, sonhar livremente nos meus remotos mistérios.
(...) às vezes me parece que estou perdendo tempo, às vezes me parece que pelo contrário, não há modo mais perfeito, embora inquieto, de usar o tempo: o de te esperar.
Como é chato lidar com fatos, o cotidiano me aniquila, estou com preguiça de escrever esta história que é um desabafo apenas. Vejo que escrevo aquém e além de mim. Não me responsabilizo pelo que agora escrevo.
Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chama talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo.
Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando.
Fico com medo de me afastar da Ordem e cair no abismo povoado de gritos: o Inferno da liberdade. Mas continuarei.
Há horas em que não se quer ter sentimentos.
Quando eu era pequeno pensava que de um momento para outro eu cairia para fora do mundo.
O que eu te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa.
