Velorio
Um dia após a minha morte, era tarde e o velório já havia acontecido, entrei em meu quarto e vi minha mãe sentada em minha cama chorando e perguntando o porquê isso aconteceu, eu podia sentir a dor e o sofrimento dela, mas a quanto tempo ela não sentava em minha cama e ria comigo, sair do quarto fui na varanda, vi meu pai sentado na rede, chorando, com uma angústia grande no peito, podia sentir o seu sofrimento a distância mas quanto tempo eu não ouvia " tenho orgulho de você meu filho " e até " eu te amo " aquilo me quebrou por dentro. Sair pra rua e fui caminhar, passei na casa da menina que amava, entrei no quarto, vi ela olhando minhas mensagens e algumas fotos, ela estava com os olhos cheios de lágrimas, ouvi ela sussurrar " eu o amava " mas como eu poderia saber, nunca havia ouvido isso, eu sentir a dor dela, e ela realmente me amava, mas como saberia disso? Logo em seguida sentei ao lado dela vi ela entrar nas redes sociais, a cada perfil que passava havia uma fotografia minha, junto a algumas palavras de saudade e alguns " eu amo você " mas o que adiantava vivi uma vida ao lado dessas mesmas pessoas, era a primeira vez que ouvia essas palavras. Voltei pra minha casa, quando cheguei vi meu cachorro triste e abatido com a saudade que estava de mim. Neste dia foi a primeira vez que me sentir amado, mas do que adiantava? Já havia morrido. Três anos depois visitei os mesmo lugares, as mesmas pessoas, nada estava igual, em minha casa, meu quarto já não existia, a única coisa que havia restado era algumas fotografias, meus pais adotaram outro filho e seguiram a sua vida, só havia vestígios meus. Fui na casa da garota, ela havia se casado, com um homem alto de cabelos claros, ela estava grávida, formavam um lindo casal. Na sala havia um quadro com a suas fotos, em baixo com a seguinte frase " meu único e verdadeiro amor ". Meu cachorro ja era de outro dono, ele já não estava mais abatido, latia e brincava feliz. Foi assim que percebi que momentos vividos são tempos que não voltam e não se estacionam. Ame enquanto há tempo, não morra primeiro.
Cada um que encare a morte do seu jeito.
É livre arbítrio, um direito.
Não vou a velório por um porém
Cultuar a partida é morrer também
É triste, é penoso, chega a doer,
Ver a dor do outro sem nada poder fazer.
Enterrei meus pais outro dia.
E dói até hoje a saudade, a agonia.
É inesperado, o adeus, o ponto final
Na morte não há poesia, é tudo real...
Por essa e por outras, sempre me recusei a ver gente morta.
Não por medo. Os mortos não traem, não matam.
Prefiro celebrar a vida, os momentos felizes, os sorrisos, as boas histórias, as lembranças.
Eu apenas choro. Calado. Por dentro.
Choro e deixo ir!
Vai pai! Vai mãe!
Vai tia, tio, irmã, irmão, vai amigo, amiga.
Vai na paz.
Sejam luz!
Como é triste ouvir os nomes de padroeiros mortos em cima de um corpo no velório, quando o nome de Jesus, a ressurreição e a vida, deixa de ser invocado pelos mortos na fé.
Talvez uma gargalhada num velório seja mais honesta que um choro numa pregação religiosa.
A emoção verdadeira não obedece a protocolos, nem respeita o “ambiente adequado”.
Às vezes, a lembrança engraçada do falecido invade a mente, e rir é inevitável — e profundamente humano.
Não é desrespeito, é sinceridade.
Por outro lado, há lágrimas que escorrem, não pelo peso da fé ou do arrependimento, mas pelo constrangimento social de parecer frio.
Chora-se porque os outros choram, porque a expectativa exige um rosto molhado.
A verdade é que autenticidade não se mede pelo cenário: pode haver mais vida em uma risada fora de hora do que em mil prantos ensaiados.
O coração não conhece etiquetas — e, quando tenta segui-las, quase sempre mente.
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