Um Estranho Impar Poesia
Entre Vinho e Mar
Começou com um encontro,
um jantar de olhares demorados
e taças de vinho
que refletiam o brilho da expectativa.
A música nos chamou.
No tango,
nossos corpos aprenderam
a linguagem do silêncio:
peito contra peito,
respiração misturada,
passos que se reconheciam
como se já se soubessem de cor.
A noite nos levou até o mar.
Tirei meus saltos,
e a areia fria recebeu nossos pés descalços.
Caminhamos devagar,
de mãos dadas,
rindo como dois cúmplices
que descobriram um segredo.
O vento brincava com meus cabelos,
e eu sentia seu olhar
percorrendo cada gesto meu
com uma ternura inquieta.
Voltamos para o hotel
com o sal do mar ainda na pele
e um desejo tranquilo
crescendo entre nós.
No seu quarto,
a madrugada se abriu
em abraços demorados
e promessas murmuradas entre beijos.
Amamos a noite inteira —
como se o tempo tivesse parado
só para ouvir
nossos corpos conversando.
Depois, no silêncio suave da madrugada,
eu te observei.
O teu sorriso…
aquele sorriso de quem ama
e encontra paz
só por me ter ao lado.
O teu cheiro ainda me envolve,
quente, familiar.
E aquela camisa azul-bebê
sobre a tua pele
parecia feita de céu,
iluminando você
como se a noite inteira
tivesse sido desenhada
apenas para nos encontrar.
O sapato amarelo
Eu planejei comprar um sapato amarelo amanhã,
mas hoje ganhei um vermelho.
Recebo o carinho de quem me deu o vermelho,
e não comprarei mais o amarelo,
pois agora já tenho um sapato novo.
Pra quê ter tantos pares se só tenho dois pés?
Meu boné me deixa bonito e combinaria muito com o sapato amarelo,
mas não com o vermelho.
Boné e sapato vermelho, nada a ver.
Visto o vermelho e mostro que respeito o carinho de quem me presenteou.
Mostro, mostro e me mostro.
Ponho na gaveta o boné,
abandono o sonho do sapato amarelo,
e assim deixo de lado o desejo de construir a mim mesmo.
Cetemque é palavra de vocabulário degradativo.
Meio que um pronome-verbo-impositivo.
Quando usado, só tem a 1ª pessoa:
eu, eu, eu.
Mas é um EU diferente.
Um tipo de acusativo mal conjugado.
Eu cetemqueio não existe.
Nós cetemqueamos é um coach triste
Seu cetemqueado, dá até pra xingar.
O infinitivo, sem sentido, seria cetemquear...
mas não há.
Em 2ª pessoa fica redundante.
É obvio que o cetemque é só pra tu.
É obvio que o cetemque é só pra você!
E em 3ª pessoa? Ele, ela...?
Ah, nesse caso a mudança seria toda radical:
Eletemque toma forma fofocal
e hiperboliza o lexical.
Em todos os casamentos que fui,
vejo um fantasiado levantar os braços
e bobeirar que sabe o mundo.
De jeito nenhum,
nunca me caberia casar assim,
com um tolo me culpando pelos próprios fracassos.
Nem por decreto,
nem a pau me calaria diante de um mascarado imundo
falando que minha mulher é inferior a mim.
Ninguém consegue adivinhar como vai ser um relacionamento, às vezes pode dar certo ou não.
O que vale é a experiência, então analise bem com quem você está.
A gente vive esperando algo
grandioso, mas se esquece do valor do simples.
Um café quente, um teto, um abraço...
São bençãos disfarçadas de
rotina. A vida nem sempre grita, às vezes, ela sussurra.
E quem escuta com o coração, entende: Tem oração antiga, se realizando em silêncio.
Sou um peixe a se estranhar
Sou de letra, não de água
Não sou de rio, mas de página
Navego o mar das palavras,
Onde existir é viajar.
Sentimentos intensos demais para caber em palavras ou gestos de carinho.
Um universo inteiro preso no peito, gritando em silêncio… incompreendido.
Porque, em algum momento, a vida bateu tão forte que silenciou tudo o que eu era capaz de mostrar.
"Um Ser Humano Eminente"
Desde cedo somos ensinados que a vida é feita de escolhas e consequência, onde o mal e o bem prevalecem, fomos ensinados a religião, os costumes de nossas famílias e o trabalho exaustivo que é viver obrigatoriamente em uma instituição ou emprego indesejado. No geral as propriedades existem no homem em estado latente, somos seres únicos e pensantes, mas desde o nascimento somos privados e limitados para o que naturalmente deveríamos ser ou fazer.
Há em mim um corpo que soa como uma casa alugada, as paredes sussurram em tons frios, o chão tem gosto de despedida, e cada passo ecoa como se eu nunca tivesse chegado, prisioneira de uma liberdade que só existe do lado de fora da minha própria pele, ou de dentro ? e, ainda assim, insisto em florescer no escuro, mesmo quando o mundo não me oferece nem a luz mínima para provar que existir não deveria doer tanto.
Então sigo… como quem tateia o invisível com mãos cansadas, tentando decifrar se sou eu que não caibo no mundo ou se é o mundo que me veste como um erro de medida, porque há dias em que respirar tem textura de ferrugem e o tempo escorre lento, espesso, quase audível, como se cada segundo me arranhasse por dentro. E nesse exílio, onde até o silêncio pesa, descubro que o abandono mais cruel não é o do outro, mas o meu mesmo, quando me acostumo a não pertencer, quando a minha própria alma aprende a falar baixo para não incomodar. Mas há também uma espécie de teimosia em mim, não como esperança clara, mas como uma lembrança tátil de que, talvez, existir não seja encontrar um lugar pronto… e sim suportar, com coragem, o desconforto de ainda estar se tornando.
A Iguaria do Abismo
Provei do cálice sem aviso,
como quem aceita um veneno por engano.
Não era morte o que ali estava,
mas uma mutação que não aceita plano.
Fui invadido por essa substância estranha
que agora corre onde antes era apenas sangue.
Dizem ser lenda, chamam de platônico,
falam que o que sinto é fumaça ou ficção.
Mas como pode ser nada, se pesa tanto?
Como pode ser vento, se me aperta a mão?
É real como a lâmina, como o corte vivo,
que se deixado ao relento, faz sangrar o chão.
Carregarei esse gosto para além do tempo,
em bagagens que a carne não pode segurar.
É um nó cego feito de seda e de espinho,
que não me solta, nem me deixa desatar.
Pois na doçura que cura e no amargo que fere,
descobri a verdade que o mundo ignora:
a vida, sem provar desse perigoso banquete,
seria apenas um relógio contando a hora.
Que sabor teria a existência, afinal,
sem essa iguaria que nos devora?
O Hóspede das sombras
Desperta em mim um timbre industrial,
Gosto de ferro, nota aguda e fria,
Uma versão de traço não causal
Que ignora o sol e a própria luz do dia.
Tem o olhar cruzado, o norte em desatino,
Sabores amargos que a alma não traduz,
Habita o fosso, o avesso do destino,
E foge sempre que o afeto faz seu fluxo de luz.
À margem de tudo o que tento cultivar,
Ele se nutre do que eu quis esconder.
Sorri com o mal, sem medo de errar,
Pois não tem outro centro além do próprio ser.
Não guarda o peso da dor alheia no peito,
Não carrega a afeição, o laço ou o dever.
É gelo puro, instinto, um vácuo perfeito,
Um espelho cego que só quer se ver.
Eu sei, com clareza, que esse não sou eu,
Mas no cansaço de ser quem o mundo quer,
Invejo esse monstro que o abismo deu:
O lado de dentro que faz o que bem entender.
Sinto demais, mas não sei mostrar.
Dentro de mim, um universo inteiro em silêncio —
porque a vida, um dia, me ensinou a calar.
Achei que isso me tornava alguém ruim…
mas pessoas ruins não carregam esse peso —
elas apenas vestem sorrisos e parecem leves.
Aprendi que a calma é muito mais desestabilizadora do que a raiva.
Que um sorriso desarma muito mais do que um rosto amarelo.
Aprendi que o silêncio perante uma ofensa, é um grito que faz tremer a terra.
Aprendi que o meu silêncio vale ouro.
Me desculpe por pensar que um dia você de repente iria me desculpar e fingir que não aconteceu nada entre nós.
Me desculpe por ainda acreditar que um dia talvez nós ainda vamos voltar a se falar.
Me desculpe por quando você lembrar de mim, vai ser dessa vez que te machuquei.
Me desculpe por tentar encontrar o mesmo sentimento que você me dava em outras pessoas.
Me desculpe por tentar falar com você, mesmo querendo se distanciar de mim.
Me desculpe por te colocar nessa briga sem sentido que criei.
Me desculpe por ter que fazer você contar essa historia para os outros.
Me desculpe por continuar pensando em você, mesmo depois de todos esses anos.
Me desculpe por te encarar feio quando se encontramos na rua.
Me desculpe por te pintar como o errado nessa história.
Me desculpe por te dar desculpas ralas e não mudar.
Me desculpe por você ter sido meu primeiro amor.
Me desculpe por ter dito aquelas coisas horríveis.
Me desculpe por todas as vezes que te odiei.
Me desculpe por te traumatizar deste jeito.
Me desculpe por não ter empatia com você.
Me desculpe por chorar quando lembro de você.
Me desculpe por arruinar nossa amizade.
Me desculpe por ter te entedido errado.
Me desculpe por ter sido seu amigo.
Me desculpe por virar outra pessoa.
Me desculpe por sonhar com você.
Me desculpe por te perder.
E me desculpe por fazer esse poema.
Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas.
E nenhum de vós pense mal no seu coração contra o seu próximo, nem ameis o juramento falso; porque todas estas são coisas que eu odeio diz o Senhor.
Zacarias 8:16,17
São flores
Do mato,
Possuí um misto
Das boas amizades,
Trás um perfume agreste
Mas é neste
Que a simplicidade investe‼️
***
🌸🤩🌸
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