Textos sobre Tempo
O tempo de florescimento não se anuncia com calendários nem com relógios. Ele chega em gestos sutis: um suspiro que demora a se acomodar, um arrepio que insiste em não passar despercebido, uma palavra dita com a boca trêmula e os olhos firmes. Diante do espelho, aprendi a não correr. A gentileza que me devo não é um prêmio, é o mínimo que posso oferecer ao meu próprio reflexo. Observar-se sem pressa é um ato de coragem: enxergar a delicadeza nos ossos, a força nas veias, a poesia escondida nos gestos cotidianos.
Florescer é não se obrigar a ser mais rápido que a própria vida. É permitir que a paciência me encontre, que o respeito por mim se assente como terra fértil, que minhas raízes cresçam sem alarde. Cada dia é um capítulo, cada cicatriz, uma letra, cada sonho guardado no peito, uma semente.
Quem se respeita floresce com dignidade, quem se pressiona murcha antes do tempo. E talvez o maior ato de coragem seja sorrir para si mesmo, no espelho, sabendo que cada fissura também é parte do desenho que só você consegue completar.
No fim, florescer não é competir com ninguém. É ser inteiro em si, com toda a intensidade de uma tempestade e a suavidade de uma brisa que atravessa folhas sem derrubá-las. É aprender que a própria vida, se observada com cuidado, já é poema suficiente.
(Douglas Duarte de Almeida)
Perdoar não é esquecer, é deixar de apodrecer por dentro. Há dores que o tempo não cura, apenas decanta. O perdão não é o antídoto do veneno, é a coragem de não bebê-lo mais. É olhar para a ferida e, em vez de perguntar “por quê?”, perguntar “até quando?”.
O perdão é uma escolha sofisticada. Não por bondade, mas por lucidez. É quando a alma entende que continuar punindo o outro é continuar se amarrando na mesma corda. E há cordas que, se a gente não solta, acabam nos enforcando em silêncio.
Perdoar não é absolver o erro, é devolver o peso. É dizer: “isso foi teu, não meu”. É o ato mais elegante de liberdade.
Porque guardar rancor é carregar um corpo morto nas costas achando que é proteção. Às vezes, o perdão não vem como gesto, vem como distância. Como aquele passo que você dá pra fora da repetição, sem plateia, sem discurso, sem aviso.
Há perdões que se dão em silêncio, e há silêncios que são o perdão em estado puro. Perdoar não é voltar — é seguir. É olhar pra trás sem desejar vingança, sem querer justiça divina, sem precisar de testemunhas. É só entender que o que te feriu não merece mais residência no teu coração.
O perdão, no fim, é uma forma de amor próprio altamente evoluída — a mais discreta e, talvez, a mais revolucionária.
(Douglas Duarte de Almeida)
Leva tempo até entendermos o que é poder. No início, ele parece um lugar a ser alcançado. Um topo. Uma promessa de reconhecimento, autonomia, controle. E então nos movemos, estudamos, trabalhamos, insistimos, suportamos, com a convicção de que, ao chegar lá, algo finalmente se encaixará.
E, de fato, chega-se.
O lugar de poder existe. Ele se apresenta em forma de conquista, de posição, de nome, de autoridade. Há uma certa vertigem nesse ponto. Um brilho que, por um instante, convence.
Mas há também um detalhe que não nos contam: a coroa pesa.
No começo, quase não se percebe. Há orgulho, há prazer, há a sensação de ter valido a pena. Mas, aos poucos, ela começa a apertar. Exige manutenção, performance, constância. Cobra uma versão de nós que, nem sempre, coincide com quem ainda somos.
E é aí que algo mais profundo se revela. O verdadeiro poder não está em sustentar a coroa a qualquer custo. Está em poder retirá-la. Em perceber que nenhuma conquista vale a perda de si. Que nenhuma posição justifica o sufocamento da própria verdade. Que nenhuma forma de reconhecimento compensa o preço de viver desconectado do que nos faz inteiros.
A verdadeira liberdade talvez esteja nisso. Na possibilidade de chegar e também partir. De ocupar e também recusar. De ter sem se tornar refém do que foi conquistado. O maior poder não está no topo, mas na autonomia de não permanecer nele quando ele já não nos serve.
Porque, no fim, nenhuma coroa deveria custar a própria cabeça.
Passamos tempo demais tentando salvar versões de nós que já cumpriram seu papel. Continuamos repetindo gestos, sustentando personagens e defendendo identidades que um dia nos protegeram, mas que hoje apenas nos apertam por dentro.
Existe um luto que quase ninguém nomeia: o de deixar de ser quem aprendemos a ser para abrir espaço para quem já estamos nos tornando.
Nem toda mudança começa quando a vida muda. Às vezes, ela começa quando finalmente paramos de insistir em caber onde a nossa verdade já não respira.
Agimos como gostaríamos de ser porque, quando há tempo para pensar, escolhemos a versão de nós que queremos apresentar ao mundo. A ação comporta cálculo, linguagem, educação, desejo de reconhecimento.
Mas a reação acontece antes da diplomacia do pensamento. Ela atravessa nossas defesas e revela aquilo que ainda não conseguimos elaborar: nossas feridas, medos, ressentimentos, necessidades e modos aprendidos de nos proteger.
Por isso, não somos necessariamente aquilo que fazemos quando estamos no controle. Há algo de nós que aparece quando o controle falha.
É justamente aí que a frase se torna incômoda: nossas reações talvez não revelem quem somos por inteiro, mas revelam quem ainda somos quando não conseguimos escolher quem ser.
E talvez seja nesse intervalo, entre o impulso que nos atravessa e a resposta que aprendemos a construir, que começa o trabalho de transformar-nos.
Poema - Poesia digital
Tempo atual
Poesia digital
Sem Sedex
Apenas internet
Antes era carta
Agora, mensagem enviada
Mando na tela
Do celular dela
Vários textos
Digitados a dedo
Apenas mensagens
Sem imagem
Tudo que consigo fazer
E mando para você
É rimar o que penso
Quero, nesse momento,
Poder te amar
Não apenas ter inspiração para rimar.
Amor de Infância
Quando tempo fique te esperando, eu dormia e acordava de beijando, sonhava com você todos os dias, você era a única pessoa que eu queria. O tempo passou e você foi embora levou com você a nossa história, e comigo ficou as lembranças das coisas que fazíamos na nossa infância.
Eu não sabia o que dizer, eu não sabia o que falar simplesmente aconteceu você na minha vida, eu não sei se era o certo, eu não sei se era assim, mas o nosso amor de infância nunca terá, nunca terá um fim.
Deus nos abençoou, Deus nos protegeu, não sei porque somos assim mas temos o amor para nós unir, nada poderá nos separa, nada nunca irá nos fazer chorar, pois o nosso amor de infância para sempre vai durar.
ATÉ A ÚLTIMA LUZ.
No claustro azul da noite silenciosa,
onde o tempo sepulta antigas eras,
a alma contempla as sombras austeras
da marcha humana, trágica e grandiosa.
E, entre ruínas da jornada dolorosa,
recolhe as vozes frágeis das quimeras;
mas vence os vendavais das primaveras
com a força imortal e misteriosa.
Não é a chama efêmera da aurora,
nem o fulgor que o mundo reverencia,
mas o lume interior que a dor aflora.
É a centelha da própria consciência,
que mesmo quando a existência se evapora,
persiste além da última aparência.
Marcelo Caetano Monteiro.
RECORDAÇÕES.
O tempo passa em passos de veludo, e deixa na parede o antigo espelho, onde o passado fala em tom vermelho de um tempo bom em que eu vivia mudo. Guardo no peito o calor do teu abraço, que o vento frio da tarde não consome, ainda chamo, em preces, pelo nome que se perdeu na curva do espaço. A mesa posta evoca a tua imagem, o cheiro doce do café na mesa, afastando de mim toda a tristeza, dando coragem para esta viagem. Lembrar é dar ao peito nova vida, trazer de volta o que ficou distante, fazer eterno o efêmero instante, curar a dor da dolorosa despedida.
Sorrateiro
Os olhos se viam felizes
Refletidos pelo espelho
Mas o tempo, sorrateiro
Envelheceu seu rosto
Ao longo de um dia inteiro
Como gotas de chuva
As noites que desabam
Sobre nossas casas,
Nossas coisas, nossas vidas
As horas correm felizes,
suaves por uma fenda
O sinal de saída, o apito do trem na curva
Hora de dormir e descansar
O brotar das uvas em novembro
Felizes idas e vindas
Pode ser que a vida seja
Não um fim em si mesma
Mas um laço indefinido, que liga
Entre futuro e passado
Uma pergunta retórica
Mesmo assim, ser respondida
Depois deixada de lado
Pra no fim, passar despercebida
Por ser o assunto indissolúvel
Questão que, de mal resolvida
A gente vai se apegando
Às alegrias passageiras
Que o tempo vai trazendo, sorrateiramente
Nada nessa mão, nada na outra também
Sorria! Você viveu mais um dia!
Edson Ricardo Paiva
É TEMPO!
Hoje, justiça e tempo se alinham.
Avançam unidos, na mesma passada.
Porque é tempo dos justos.
É perceptível a força da resistência.
O tempo não deixou corroer.
Onde a justiça é implacável,
ela opera sobre os males que habitam o opressor.
Aquilo que nos dispersou,
estamos reconstruindo nas afinidades das lutas,
nos elementos simbólicos de nossas conformações,
através dos coletivos reinventados
para a escalada do empoderamento.
Formação necessária
de combatentes contra as práticas estruturantes do racismo.
Estamos avançando.
Ainda que dolorosas perdas nos conduzam às dores e aos lamentos,
aos nossos sentimentos mais profundos,
estamos avançando.
Avançamos com conhecimento.
Conscientes da força ancestral,
dos nossos guias,
daquilo que nos impulsiona,
nos condiciona
e habita em nós.
Somos representatividade resistente.
Somos a continuidade daqueles que nos antecederam
nas lutas igualitárias.
Somos incansáveis opositores do racismo.
E somos conscientes
de que a luta é desigual.
Alinhados,
destruímos todos os dias
pilares e mais pilares da barbárie racista.
Lutamos na defesa dos nossos direitos.
Lutamos em defesa dos nossos.
Lutamos contra o desumano desrespeito
que invisibiliza nossas contribuições.
Lutamos pelo direito de existir
em condições humanas.
Somos quem resiste.
Sim!
Resistimos secularmente ao genocídio identitário.
E somos, secularmente, fortes.
Somos nós a base.
O sustentáculo.
A estrutura que mantém o opressor no privilégio.
E é por isso que somos temidos.
Porque se a base sair,
a pirâmide cai.
Mudam-se as posições.
Tentam.
Tentam nos barrar.
Mas já provamos:
a estrutura começou a abalar.
Nós podemos.
Estamos movimentando.
Estamos invertendo posições.
Posições às quais fomos sentenciados,
julgados
e condenados.
Conquistamos direitos,
mas seguimos buscando equidade.
Buscando justiça,
não maldade.
Saindo daquilo que nos foi determinado
por mais de quinhentos anos.
Desbravando novas trilhas.
Ainda que percamos alguns pelo caminho,
lamentamos.
Sentimos.
Honramos.
E prosseguimos nos enfrentamentos.
Reivindicamos a efetivação das ações afirmativas.
Firmamos possibilidades de avanços igualitários.
Porque é chegado o novo tempo.
Reflitam.
Acostumem-se ao incômodo.
Acostumem-se à mudança.
Acostumem-se às novas posições.
Porque os tempos são outros.
É TEMPO!
Eli Odara Theodoro
Por muito tempo eu estive assim
Esperando por quem não me quis
pensei que iria ser feliz
Sem perceber, que algo não era verdade
e já havia passado do fim
E eu aguardava o dia todo pra estar
com quem não quer saber de mim
Quer saber?
Até que não foi tão ruim
A saudade
que haverá de doer depois
Se tiver que escolher um dos dois
Vai fazer como eu fiz
e querer ficar com ela
Que fugiu de viver um amor
E pela vida sem sabor de nada
Me trocou
e achou, então
Que era bom rir assim
Enquanto eu sofria
Mas eu não vou estar perto nesse dia
Quando seu peito deserto
Vai chorar de madrugada
Vai me buscar e descobrir
que eu já hei de estar feliz
vai procurar, então, os poemas que eu fiz
e que ela rasgou, de malvada que era
Sem pensar nas lágrimas que a esperam
desesperada
Vai então, nessa hora descobrir
Que ao meu lado não tem mais lugar
E que já não será para mim
Mais nada.
Criança sorridente
A alma arguta
Aproveita teu tempo
Meu anjo
Teus pedidos, Deus escuta
Perceba, não faz sentido
Abrir mão do pouco tempo
Que possuis
A querer viver depressa
A vida aqui na frente
É muito astuta
Crescer se faz premente
Se soubesses realmente
O que é a vida
Deixaria-se ficar
Pra sempre assim
Os jardins da vida adulta
Não tem flores
Parece ter
Mas você não poderá
Jamais tocá-las
Aproveita um pouco mais
A voz materna
Que te embala.
O que há de errado com o tempo?
Talvez o erro seja o intento
de não aprendermos, enquanto vivemos,
a contá-lo no convívio, no movimento.
Enquanto ele ecoa, convivemos, às vezes,
sós entre nós mesmos.
E não percebemos que o tempo pode afastar
ou atrair sentimentos.
Bons ou ruins, eles vão e vêm
sem que percebamos.
Ele nos leva por caminhos
e cria atalhos inteiros.
Ele vai passando como quem escorre
entre nossos dedos,
sem aviso às vezes rápido,
às vezes lento, mas sempre indeciso.
Vivemos tudo o que nos permitimos:
com a família, sozinhos ou entre amigos.
Ele corre quando queremos presença,
nos arrasta quando a dor pede licença.
Ele voa quando estamos atrasados,
e para, sem que percebamos,
no sorriso de quem somos apaixonados.
Vinte e quatro horas nos são dadas,
todos os dias, sempre depositadas.
Caem em nossa conta sem permissão,
sem pedido, sem merecimento ou explicação.
Prometemos a nós mesmos
não deixar o tempo passar em vão.
Quando crianças, o tempo era mágico,
e não tentávamos controlá-lo com um celular nas mãos.
Estávamos ocupados colecionando momentos,
dádivas nos dadas pelo próprio tempo,
para que, quando estivermos perdidos,
possamos lembrar… e voltar ilesos.
Há dias em que queremos doar,
nem que seja um fragmento do que nos resta guardar,
quando percebemos que o outro já não terá
o tempo que a vida prometeu entregar.
Então entendemos o inevitável:
o tempo, sim, ele é temporário.
Nascemos, crescemos e morremos
um roteiro que segue fiel itinerário.
Mas como se espera? pergunta o coração.
O tempo do último olhar, da despedida em vão?
Ou o tempo que passa sem quem amamos,
tentando ser inteiros… quando já nos faltamos?
O Brilho que o Tempo Não Apaga
O calendário avisa que o dia chegou,
E entendo que a saudade no seu peito, mais forte, apertou.
Uma data que pesa, que traz o vazio,
É a falta desse abraço que faz parecer tudo mais frio.
Mas, se olhar no espelho, é impossível não notar
A luz do seu sorriso, o brilho no olhar.
São traços herdados de alguém similar,
Reflexos de um laço profundo,
De um amor que o tempo jamais pôde apagar.
Seu pai, que partiu, não está mais aqui,
Mas a força dele permanece viva, sempre ao vê-la sorrir.
Cada traço de afeto, de paz e bondade
É uma herança viva vencendo a saudade.
A bondade em seu coração
É também motivo de orgulho e admiração.
Somos feitos de erros, acertos,
Planos e desejos.
Você é fruto de um amor e nunca foi segredo.
O amor partilhado hoje está marcado em seu rosto.
Homenagem registrada em sua pele.
Eternamente um pequeno gesto seu,
Gigante para ele, que hoje reina por todo o universo.
Lá de cima, existe alguém orgulhoso da menina
Que o tempo transformou em mulher,
Sem jamais apagar aquilo que a fez ser quem é.
Sua filha, menina, mulher, linda...
Que a saudade de hoje se transforme em carinho,
Que o vazio encontre um pouco de abrigo,
Pois você jamais caminhará sozinha.
Hoje e sempre, existe uma estrela que a guia,
Lá de cima,
Onde o amor não conhece despedida.
O Tempo da Recompensa
Ajustiça divina não falha e o universo nu
nca esquece o bem que plantamos em segredo. Ao longo do caminho, passamos por invernos rigorosos onde pensamos que nossos sonhos haviam morrido e que certas vitórias nunca bateriam à nossa porta. No entanto, a vida possui uma sabedoria própria e silenciosa. Chega um momento sagrado em que tudo aquilo que você plantou com amor, paciência e honestidade começa a florescer. O que parecia impossível acontece. A vida devolve cada gota de suor e cada lágrima derramada em forma de paz e colheita farta. Nada se perde quando agimos com o coração limpo.
Pode ser
Que o tempo endureça tanto
Os corações
Tão sofridos da gente
Que quando a gente não vê
Chega uma hora
Que ninguém mais chora por nada
Pode ser
Que a gente chore escondido
E até brigue com o vento
Sempre que lembrar
Que ele levou pra sempre embora
Um simples balão colorido
Mas que tanto a gente o queria
Pode ser
Que essas coisas já estivessem escritas
E sejamos nós somente
Pessoas imaginárias
Personagens de um livro bobo qualquer
Cuja capa não chega nem a ser bonita
E tudo se repete, quando alguém o quer lêr
E estejamos passando pela etapa triste
Coisas que acontecem, quando um coração acredita
Pode ser tanta coisa
Pode ser ... não sejamos nada
Ninguém sabe o que se passa
Dentro de cada coração
Atrás de cada porta, após fechada
Acho que nem mesmo nós sabemos
Assim, o balão se foi
A capa do livro desbota
Se o coração dói ou não dói
Ninguém viu e nem se importa
Assim como o vento leva
Um dia o vento traz de volta
Pode ser
Que o tempo endureça tanto esse coração
Que quando o balão voltar ...tanto faz
Poder ser
Que a gente não queira mais.
Edson Ricardo Paiva.
Era somente o silêncio
De um tempo que se foi
Era noite
Todo mundo queria
E um dia eu também quis
Amanhecer distante dali
Porque pensei
Que poderia voltar lá
A qualquer instante
Percebia em meus ouvidos
O ruido mágico e único
Na paz do silêncio
Que de longe vem
Naquele mágico momento
Que o silêncio a tudo diz
E tudo faz sentido
Era o encanto do não saber
Que a brisa a soprar lá fora
Depois de ir embora, não volta
Era um pensar inocente
Que tudo aquilo nos pertencia
Era da gente
O silêncio em silêncio ficou
Pediu ao tempo que dissesse
Que a vida ao redor
Tem vontade própria
E nos convida a viver
Mas o viver da vida
Obedece
À sua própria vontade
E não a nossa.
Edson Ricardo Paiva.
Chega um dia na vida
Que a medida de tudo
Muda
A passagem do tempo
E a contagem das horas
Dinheiro contado
O Relógio emudece
Cresce a escuridão
Escurece
E tudo é medido
Pela altura
Nessa altura da vida
É que se descobre
Descobri
Que eu não sou quem eu era
Eu morri
Faleci de esperar
O dia que não veio
Morri de tanta espera
Bem no meio da vida
Esperei por ela
Parado
Bem no meio do passeio
Um arranjo de flores
Hoje, em meio a essas dores
Não sei se era pra mim
Ou se pra ela
Minha causa mortis
Desnuda
Fingindo vestida
Foi vida
De todo despojada
Minha vida me matou
Enquanto a vivia
Triste a morri
E a vida seguia
Morri de vida
Sem rumo
Sem prumo e nem norte
Eu morri uma morte linda
de morte despercebida
Enquanto a vivia ainda.
Edson Ricardo Paiva.
Pedi ao Sol um quente abraço
Pedi ao tempo que parasse
e olhasse um pouco pra gente
Tentei escrever uma canção
Que falasse da lua nova
Quando míngua pra crescente
Saí à rua pra fazer
Alguma coisa que eu há muito não faço
e esperei o Sol nascente
Saí ao mundo pra fazer
Quem sabe, o que nunca fiz
Te convidei pra vir dançar na chuva
Meti minhas mãos num arco-íris
Qual se ele fosse um par de luvas
Te perguntei se era feliz
Pedi ao vento uma resposta
Falei com os companheiros
Que me cercaram a vida inteira
Agradecendo aos rios
Não chutei, nem desviei-me
das pedras do caminho
Cantei canções para o mar
Depois eu dei um abraço no ar
Coisas que fiz a vida inteira
Por cada irmão que me cercasse
e antes que o dia acabasse
Voltei pra casa e fiz algo
Que desde há muito eu não fazia:
Sorri meu melhor sorriso pra noite
e desejei bom dia ao dia
Mas não me senti satisfeito
O Sol no céu
Águas no mar
O rio no leito
A chuva que cai neste canto do mundo
Num pranto profundo e na mesma cadência
Então eu perguntei à lágrima
O porquê da tua ausência.
Edson Ricardo Paiva.
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