elizete1598
Eu e os livros,
mares de encontros que me atravessam,
ventos que me levam a navegar saberes.
Cada página acende em mim
a chama esquecida,
essência adormecida que desperta
no entrelaçar de vidas,
na confluência dos caminhos
que me habitam.
Cordel da Mulher Preta Quilombola
A mulher preta quilombola
Tem identidade e tem chão,
Carrega gênero na luta
E memória no coração.
É guardiã da palavra antiga,
É raiz da tradição.
Traz na voz a oralidade,
No gesto, o velho costume,
Na lida, a sustentabilidade
Que mantém aceso o lume.
Resistência é sua veste,
É herança que a resume.
Especificidade é força
Que carrega na essência,
Nossa própria constituição
Nasce dessa resistência.
Somos corpo-território,
Somos tempo em permanência.
Somos a continuidade
Da história que não se encerra,
Por isso todos caminham
Porque somos base da terra.
Sustentabilidade que pesa,
Mas é herança que não erra.
É da nossa ancestralidade
Esse fardo que também é luz,
É passado que nos guia,
É futuro que nos conduz.
Mulher preta quilombola
É raiz que o mundo traduz.
QUANDO A PORTEIRA SE ABRE!
Há dias em que sou princípio.
Eixo.
Coluna erguida no meio do vendaval.
Defendo a vida como quem acende lamparinas
em territórios onde a noite insiste.
Meu verbo é justiça.
Meu gesto é permanência.
Mas há dias,
em que o existir me enverga.
E algo dentro de mim range.
Não é descrença.
Não é abandono do que acredito.
É o corpo lembrando de todas as lutas
que a alma sustentou em silêncio.
Vem primeiro um abalo,
não na ideia,
mas na carne.
Um peso que não tem nome,
uma vertigem que não pede licença,
uma névoa que atravessa o pensamento
e colore tudo de nefasto.
É quando a porteira se abre.
E os pensamentos que eu sei que não sou
correm pelo pasto da minha mente
como bois assustados.
Eles gritam exageros.
Sussurram desistências.
Inventam um mundo sem saída.
E eu, por instantes,
exagero nos goles da dor.
Bebo como se a tristeza fosse água
e a razão, pequena demais para conter o dilúvio.
O sentimento derruba a lógica
sem piedade,
sem perdão.
Mas ainda assim,
há algo que permanece.
Mesmo quando tudo em mim vacila,
há uma centelha
que observa.
Ela não grita.
Não acusa.
Não foge.
Apenas permanece.
E é ela
que me lembra,
quando o vendaval cessa:
Eu não sou a tempestade.
Não sou os pensamentos que me atravessam.
Não sou o peso que me curva.
Sou a consciência que atravessa a noite
e ainda escolhe amanhecer.
E mesmo que a porteira se abra outra vez,
mesmo que o abalo retorne,
há em mim
um princípio inegociável
que nenhuma dor consegue desalojar:
defender a vida,
inclusive a minha.
Sabe, me pediram para dizer quem sou eu… Oxe, não adianta olhar, tem que sentir…
Sou casa acesa no meio da memória,
janela aberta para o futuro.
Carrego nos olhos a profundidade
de quem escuta os mais velhos
e, ainda assim, ri com a leveza
de quem sabe brincar com o vento.
Meus cabelos são como raízes que dançam,
guardam histórias,
sustentam mundos invisíveis
e florescem pensamento.
Entre livros, mapas e símbolos,
eu costuro os saberes com delicadeza firmeza e
mãos de cuidado,
postura de quem não se curva ao esquecimento.
Sou mulher-território.
palavra que vira ponte.
presença que ensina sem impor.
Em mim, a ancestralidade respira.
E o amanhã aprende
a nascer com dignidade. Sou Eli Odara Theodoro
AFETO PESSOAL
Meus olhos que guardam marés, deito o corpo, mas não descanso a história. Levo um brilho úmido no olhar, de quem já chorou rios e ainda assim cultiva fontes. Tenho um rosto que é território sagrado, mapa de lutas silenciosas, de noites longas e amanheceres insistentes. Cada fio deste meu grisalho é um tempo que não se rendeu, é memória viva que se recusa a ser apagada. Tenho uma boca firme, carrego palavras que o mundo ainda precisa escutar. E mesmo no cansaço, há em mim uma força ancestral que não se curva, que não se cala, que não se perde. Sou uma mulher com existir poesia, dessas que não se escrevem, se atravessam. Eu sou Eli Odara Theodoro
Elton…
Eu já entendi filho, teu descansar não é fraqueza que mora nesse silêncio.É a pausa do tambor antes do próximo toque que move o mundo. Que te robustece! Sabe filho, teu rosto carrega a calma de quem já atravessou tempestades antigas, e ainda segue destemido, mesmo com o olhar de menino, você traz nos ossos a memória de reis que nunca se ajoelharam diante das maiores batalhas. Enquanto teu corpo repousa, tua história está de pé erguida como lança, firme como raiz em terra sagrada.Há um reino inteiro em teus olhos fechados, onde ancestrais caminham contigo, quando a vida te lapida para novas batalhas, sabe? Cada sonho seu é estratégia, cada respiro é resistência.Nobre guerreiro, tua cor não é apenas pele é armadura de sol, é noite que guarda estrelas. E mesmo quando o mundo insiste em te cansar, há uma força antiga em ti que sussurra: “levanta, filho da história, teu nome é continuidade.”Descansa, sim, porque até os mais fortes sabem que o descanso também é parte da luta.
NA QUITANDA DA VIDA
Na quitanda da vida,
eu aprendi que viver
não vem pronto.
A vida se oferece em porções:
tem dias que adoçam a boca,
outros que amargam a alma.
Tem dias de fartura
e dias em que a gente precisa
dividir o pouco
para ninguém ficar sem comer.
Foi no meu quilombo que aprendi
que a vida não se mede pelo que se possui,
mas pelo que se partilha.
Minha primeira escola foi o território.
Foi olhando a terra,
ouvindo os mais velhos,
sentindo o cheiro da chuva,
vendo o dendê nas mãos,
escutando as histórias que não estavam nos livros,
que comecei a compreender
que memória também é conhecimento.
Eu sou feita dessas coisas.
Do chão que meus ancestrais pisaram.
Das palavras que sobreviveram ao silêncio.
Das mulheres que sustentaram suas famílias
quando quase ninguém olhava para elas.
Das mãos que plantaram, colheram, cozinharam,
criaram filhos e mantiveram a comunidade de pé.
Por isso, quando digo quilombola,
não estou apenas dizendo quem sou.
Estou dizendo de onde venho.
Estou dizendo o que carrego.
Estou dizendo aquilo que não aceito perder.
Minha identidade não é fantasia.
Não é adereço.
Não é tema para novembro.
É existência.
É estar no mundo
sabendo que antes de mim
muita gente precisou resistir
para que eu pudesse estar aqui.
E estar aqui também é resistência.
Eu não quero que contem minha história
como quem observa de longe.
Quero falar.
Quero contar.
Quero produzir conhecimento
a partir do lugar onde meus pés estão.
Porque também fazemos ciência
quando guardamos a memória.
Também fazemos educação
quando ensinamos uma criança a conhecer sua história.
Também fazemos cultura
quando transformamos nossas vivências em arte.
O quilombo não é passado.
O quilombo é presente.
Está na criança que pergunta.
Na mulher que enfrenta.
No jovem que permanece.
No mais velho que aconselha.
Na comunidade que se reúne.
Na terra que alimenta.
Na memória que insiste em permanecer viva.
E eu sigo nessa quitanda da vida
escolhendo o que quero carregar.
Não levo tudo.
Algumas dores eu deixo na banca.
Alguns silêncios eu devolvo.
Algumas histórias eu reescrevo.
Mas a ancestralidade,
essa eu levo comigo.
Porque aprendi que não basta sobreviver.
É preciso existir com dignidade.
É preciso ocupar.
É preciso falar.
É preciso criar.
É preciso deixar marcas.
E quando perguntarem
o que é ser quilombola,
talvez eu não precise explicar tanto.
Basta olhar para mim.
Eu sou mulher.
Sou território.
Sou memória.
Sou continuidade.
Sou uma voz que veio de longe
e ainda está chegando.
E enquanto eu tiver voz,
o quilombo continuará falando.
Na Quitanda da Vida
Na quitanda da vida,
o produto mais precioso é o viver.
E o quilombo sabe disso.
Aqui, cada experiência tem sabor,
cada memória tem raiz,
cada pessoa carrega consigo
um pedaço da história de quem veio antes.
Na banca da ancestralidade,
encontramos a sabedoria dos mais velhos,
a palavra que atravessa gerações,
o canto que guarda memórias,
o tambor que anuncia presença,
a dança que movimenta a história,
o alimento que reúne a comunidade
e a terra que sustenta nossos passos.
Aqui, nada é apenas mercadoria.
A cultura não está à venda.
A memória não está à venda.
O território não está à venda.
A identidade quilombola não está à venda.
São heranças.
São direitos.
São fundamentos de uma existência
que se recusa a desaparecer.
Na quitanda da vida,
cada geração recebe uma cesta
cheia de saberes ancestrais.
Recebe o dever de cuidar,
de preservar,
de ensinar
e também de transformar.
Porque ser quilombola
é reconhecer de onde viemos
sem perder de vista
para onde queremos caminhar.
É fazer do território
mais que um pedaço de chão:
é reconhecê-lo como casa,
memória, alimento, pertencimento
e futuro.
É olhar para nossas crianças
e dizer:
vocês são continuidade.
Vocês são presença.
Vocês são memória viva.
Vocês são o amanhã que já começa hoje.
Nossa resistência não vive somente nas grandes lutas.
Ela está na roça cultivada,
na comida compartilhada,
na roda de conversa,
na reza,
no canto,
no artesanato,
na festa,
na escola,
na juventude que permanece,
na mulher que sustenta saberes,
no mais velho que ensina
e em cada quilombola que afirma:
“Nós estamos aqui.”
Estamos aqui porque existimos.
Existimos porque resistimos.
Resistimos porque temos história.
E temos história porque nossos ancestrais
não permitiram que suas raízes fossem arrancadas.
Na quitanda da vida,
provamos as dores que herdamos,
mas também degustamos
a força que nos foi deixada.
E seguimos plantando.
Plantamos memória.
Plantamos dignidade.
Plantamos cultura.
Plantamos autonomia.
Plantamos pertencimento.
Para que aqueles que vierem depois
encontrem não apenas os frutos,
mas também a terra,
as sementes
e o direito de continuar plantando.
Porque, na quitanda da vida,
viver é o produto,
aprender é a degustação,
ancestralidade é a raiz,
território é o chão,
e a presença quilombola
é a afirmação de que nossa história
continua viva.
É TEMPO!
Hoje, justiça e tempo se alinham.
Avançam unidos, na mesma passada.
Porque é tempo dos justos.
É perceptível a força da resistência.
O tempo não deixou corroer.
Onde a justiça é implacável,
ela opera sobre os males que habitam o opressor.
Aquilo que nos dispersou,
estamos reconstruindo nas afinidades das lutas,
nos elementos simbólicos de nossas conformações,
através dos coletivos reinventados
para a escalada do empoderamento.
Formação necessária
de combatentes contra as práticas estruturantes do racismo.
Estamos avançando.
Ainda que dolorosas perdas nos conduzam às dores e aos lamentos,
aos nossos sentimentos mais profundos,
estamos avançando.
Avançamos com conhecimento.
Conscientes da força ancestral,
dos nossos guias,
daquilo que nos impulsiona,
nos condiciona
e habita em nós.
Somos representatividade resistente.
Somos a continuidade daqueles que nos antecederam
nas lutas igualitárias.
Somos incansáveis opositores do racismo.
E somos conscientes
de que a luta é desigual.
Alinhados,
destruímos todos os dias
pilares e mais pilares da barbárie racista.
Lutamos na defesa dos nossos direitos.
Lutamos em defesa dos nossos.
Lutamos contra o desumano desrespeito
que invisibiliza nossas contribuições.
Lutamos pelo direito de existir
em condições humanas.
Somos quem resiste.
Sim!
Resistimos secularmente ao genocídio identitário.
E somos, secularmente, fortes.
Somos nós a base.
O sustentáculo.
A estrutura que mantém o opressor no privilégio.
E é por isso que somos temidos.
Porque se a base sair,
a pirâmide cai.
Mudam-se as posições.
Tentam.
Tentam nos barrar.
Mas já provamos:
a estrutura começou a abalar.
Nós podemos.
Estamos movimentando.
Estamos invertendo posições.
Posições às quais fomos sentenciados,
julgados
e condenados.
Conquistamos direitos,
mas seguimos buscando equidade.
Buscando justiça,
não maldade.
Saindo daquilo que nos foi determinado
por mais de quinhentos anos.
Desbravando novas trilhas.
Ainda que percamos alguns pelo caminho,
lamentamos.
Sentimos.
Honramos.
E prosseguimos nos enfrentamentos.
Reivindicamos a efetivação das ações afirmativas.
Firmamos possibilidades de avanços igualitários.
Porque é chegado o novo tempo.
Reflitam.
Acostumem-se ao incômodo.
Acostumem-se à mudança.
Acostumem-se às novas posições.
Porque os tempos são outros.
É TEMPO!
Eli Odara Theodoro
Na linguagem dos mundos os instrumentos musicais, assim como os cantos, são linguagens ancestrais que. estabelecem a comunicação entre os mundos, entre os planos visíveis e invisíveis da existência. O corpo, por sua vez, torna-se território de manifestação dessa conexão: a expressão viva de uma comunicação que atravessa o som, desperta a memória ancestral e transforma-se em movimento, gesto e presença. O som chama, o canto estabelece o diálogo e o corpo responde. Nessa confluência, a música não é apenas ouvida: ela é sentida, incorporada e vivenciada como força de conexão entre a ancestralidade, o sagrado e a existência. Eli Odara Theodoro
