Textos sobre infância que encantam todas as idades
Seria de fato muito transformador se eu pudesse contemplar pessoalmente a natureza empolgante em exibição na imensidão fascinante do mar aberto, apresentando movimentos majestosos, espontâneos, detalhes notórios, belos em cores e formas, proporcionando um grande deslumbramento, muito diferente de outros.
Pensar em algo desse tipo, tão puro e agradável, mediante a bondade de Deus, permiti-me saborear um dos lados bons da minha infância que guardo com bastante afinco na minhas lembranças mais preciosas, que servem-me de incentivo, principalmente, em momentos que estou quase sem força.
Em inúmeras vezes, para se sobreviver à realidade, é necessário sonhar de olhos abertos com uma demasiada imaginação, expondo na mente vontades, detalhando momentos, vivenciados com emoção, ornados com simplicidade, um amor incansável, uma rica vivacidade, uma rara sensação por estar sonhando acordado.
Chega uma fase determinada da vida, a partir da qual, a maturidade passa a ser indispensável, sendo assim, precisa estar em constante atividade num contínuo desenvolvimento para se evitar pelo menos uma boa parte do peso desagradável da própria irresponsabilidade.
Entretanto, a sanidade também tem a mesma ou talvez até mais importância e uma das maneiras de defendê-la é colocar de vez em quando a perceção madura para descansar e enquanto isso, usar o olhar de criança, aquele mesmo que é trazido desde a rica infância.
E olhando gentilmente com esta apreciação infante tão valiosa, a bela simplicidade se une com a vívida imaginação, então, é notada com mais facilidade proporcionando uma imersão maior de deslumbramento, saída momentânea da normalidade em um necessário avivamento.
Exemplificando, as nuvens no céu podem ganhar formas semelhantes a coisas familiares que se tem guardadas na memória, é possível acessar outros mundos, peceber as lições que estão em algumas páginas ou em uma simples animação que são válidas para a fase adulta, uma saudável concepção.
Portanto, que o olhar de criança não se perca com o tempo, ao contrário, que esteja cada vez mais vivo, pois às vezes o que parece ser um chapéu pode ser algo totalmente diferente, mas que seja usado no momento certo para que não venha a ser inconveniente e sim ajude a manter sã a frágil mente.
A saudade é um reflexo do passado que se faz presente, acessada através das boas lembranças do que foi usufruído com entusiasmo numa felicidade explícita, o coração grato por cada instante e lembrando, vem aquela sensação de que passou tão rápido, de que nada será como antes.
As vivências exultantes da infância provavelmente são as que mais geram saudades, passam depressa demais numa fase que não se tem a consciência do quanto são valiosas entre banhos de chuva, desenhos animados, brincadeiras de rua e remédios feitos de abraços.
O tempo certamente não fica parado, mas não importa que hoje seja diferente, desde que a essência seja mantida assim como os aprendizados, as amáveis emoções sentidas, os momentos marcados ricamente pela vida, portanto, siga que enquanto houver fôlego, novas saudades serão construídas.
A ti, minha querida, faço uma proposta,
por alguns instantes,
fiquemos nosso mundo imaginário
com a audácia da infância
para aproveitarmos ao máximo,
trocaremos olhares,
abraços e beijos,
ficaremos à vontade,
teremos uma conversa agradável,
unidos numa cumplicidade,
todos a nossa volta serão ignorados,
teremos um momento memorável
e só nosso
e a noite embelezará o nosso cenário.
Confiança de um amor puro, a bênção preciosa no mundo de uma criança
numa sensação de renascimento, um sabor de esperança, fruto de um abraço sincero, acolhedor, que passa segurança, também dos risos e da atenção que fazem aliviar a dor, então, feliz de quem alcança o esmero de um ser de tanto valor que traz o frescor da infância graças a constância de amar do Senhor.
Depois de tanto ter que enfrentar uma forte angústia que vinha se repetindo com uma certa frequência e sem saber a razão, entrou numa reflexão profunda a respeito da própria existência, o que finalmente trouxe a percepção de que não sabe bem ao certo, porém, num determinado momento, foi responsável por deixar o seu coração ferido, pois a frieza da falta do seu amor próprio causou um triste e amargo desencontro consigo.
O encanto pela vida não era mais o mesmo, ofuscado por responsabilidades e rotinas, o que antes era bastante precioso desde a infância, foi aos poucos sendo esquecido, abriu mão da sua felicidade, não pôde mais perceber as tantas bênçãos que havia recebido, atraindo muito desgaste, o lamento grandioso já era frequente, não estava se reconhecendo, esqueceu como era viver de verdade, precisava muito de um avivamento.
Para o seu bem, graças a Deus, refletindo e percebendo, não desperdiçou a rara oportunidade de se reencontrar, a emoção de alívio transbordou dos seus olhos como se a sua alma também quisesse falar por ansiar muito por este reencontro, aquele frio devastador de outrora, foi ressignificado, agora continua presente, mas faz parte de um lindo cenário acolhedor, enaltecendo o calor inestimável de se amar no precioso equilíbrio da cor azul.
Já imaginou como seria se houvesse um confronto entre o presente e o passado?
o entusiasmo da infância
contra o cansaço da vida adulta,
a criança ficaria decepcionada,
nem sonhava que chegaria a este ponto, que cobranças e desânimos
seriam mais frequentes,
enquanto que o adulto seria surpreendido,
nem lembrava que ela havia existido um dia,
que viver não era mais tão divertido como antes,
ambos num primeiro momento
não saberiam explicar como aquilo estava acontecendo, a razão de estarem se confrontando,
entretanto, chegariam num acordo
diante da seguinte conclusão
de que um é o reflexo do outro,
de que a vida não é feita
apenas de diversão, mas que esta
não deve deixar de existir
para que viver não seja algo em vão
e que assim, os dois possam coexistir
enfrentado juntos cada situação.
Ah, se eu pudesse viajar até o passado, sairia prontamente ao meu encontro, daria um conselho memorável para o meu eu criança, diria "Não tenha medo, preste muita atenção no que vou dizer, pois não tenho muito tempo, em breve, terei que voltar, então, aconselho que brinque mais um pouco ou melhor, o máximo que puder, pode ser sozinho ou acompanhado de seus amigos, mas aproveite muito esta a sua infância, não tenha pressa para ser adulto.
Considerando que esta sua fase de agora já é bastante passageira, logo será saudades, participe das brincadeiras, dê boas risadas, não desperdice seus dias chorando por causa da maldade dos outros, quando começar a chorar, seque rapidamente as suas lágrimas, também não seja egoísta, nem maldoso, mostre bondade, seja um bom filho, um bom aluno, um verdadeiro amigo,saiba que você não é inferior, nem melhor do que ninguém a não ser do que Deus.
Não se esqueça que você é um menino muito amado por um amor que não tem preço, alguém muito valioso, abençoado, motivo de muita alegria, que precisará ser muito corajoso, que Deus vai sempre cuidar de você, ainda que venha a se sentir solitário, venha a passar por momentos tristes, portanto, seja grato, use a imaginação, leia bons livros, tudo pode virar diversão, não esconda seus sorrisos, a sua empolgação, torne cada ocasião agradável em uma experiência inesquecível.
Pareço um estranho, um total desconhecido e talvez, você esteja confuso com tudo que acabei de falar, porém, conheço você muito bem e espero que você possa lembrar de pelo menos uma parte do que falei, pois chegou a hora de eu partir, sou o seu eu do Futuro. Provavelmente "Eita, como naquele filme que tem um velho, um moço e um carro que voa?", assim, responderia sorrindo "Isso mesmo, sem o carro e vim sozinho, agora voltarei, que você possa ter um grande orgulho de mim, até um dia, bons sonhos, pode voltar a dormir.
A ficha demora para cair muitas vezes, chega a ser muito difícil de acreditar, mas o fato é que a sua abençoada infância já não está mais presente, a não ser nas boas lembranças guardadas na mente com bastante relevância, pois graças a Deus, hoje, és um pré-adolescente.
Chegaste numa fase desafiante de muitas mudanças, questionamentos, algumas inseguranças e alguns deslumbramentos diante de novas cobranças, sentimentos, descobertas, responsabilidades, tudo vai acontecer na hora certa, em cada oportunidade.
Dessarte, não tenha pressa e que não prevaleça o seu possível medo, como sempre não estarás sozinho, a sua vida continuará sendo uma grande bênção com O Senhor guardando todos os seus caminhos, renovando as suas forças durantes suas fraquezas.
Preste muita atenção para o que estiver ocorrendo a sua volta, escolha bem as pessoas que vai querer tê-las por perto, muitas não são confiáveis, não se cobre demais, os erros fazem parte e o mais importante, que Deus permaneça atuante nesta e nas suas próximas fases.
Estamos novamente no mês de agosto e inevitavelmente, costumo lembrar de que já faz alguns anos que o senhor teve que partir deste mundo, que não vejo mais o seu sorriso, chegando do trabalho, participando conosco nos almoços de domingo, não ouço mais a sua voz falando a respeito da semana que passou, contando alguma história de quando era mais jovem, enfim, a viveza dos dias comuns, porém, tinham a sua companhia, eram abençoados por Deus e possuíam um valor imensurável, cheios do seu amor.
Sinto falta das nossas conversas, das metas que alcançamos juntos, das nossas viagens, dos nossos vários encontros, principalmente, daqueles enriquecidos pela simplicidade, o nosso ânimo era mantido, arduamente, preservado apesar das dificuldades, enxergava no senhor, o meu abrigo, um símbolo de perseverança, uma luz de sabedoria durante a minha imaturidade, o herói que me acompanhava desde a infância, que lutava pelo meu bem e pela minha felicidade, que dava o conforto enquanto eu chorava tudo isso faz parte da minha maior saudade.
Mas, Graças a Deus, o que hoje me conforta é saber que de alguma forma, o senhor permanece vivo e ao meu lado me encorajando assim como o grande amor que ainda sinto, sempre que lembro da sua integridade, dos seus conselhos, dos ensinamentos que carrego comigo e alguns que aplico na minha vida, nas minhas decisões, que contribuem para minhas conquistas, nas minhas realizações, portanto, em cada fase, tem a sua presença entre muitas emoções numa riqueza de bênçãos, nas tantas alegrias que conseguem ofuscar as tristezas.
Velha casa de meus pais,
Eu não te esqueço jamais
Por esta existência em fora,
Só porque tu me retratas
As fantasias mais gratas
Daqueles tempos de outrora!...
Mamoeiro! Bananeira!
Joazeiro! Goiabeira!
- Que cinema sem igual!
Jogando sobre as alfombras
Um rendilhado de sombras
Na tela do teu quintal!
E aquela batida longa
Da cantiga da araponga
Que entre os rasgos do concriz
E os estalos do canário
Ia formando o cenário
Daquela quadra feliz!
Mas o tempo - este malvado!
Para matar o meu passado,
Numa explosão de arrogância,
Jogou de encontro ao mistério
Toda a beleza do império
Dos sonhos de minha infância!
Árvores, pássaros, tudo
Rolou para o poço mudo
Do abismo do nunca-mais!...
Enquanto a sonoridade
Dos gorjeios da saudade
Se esparrama em teus beirais...
Por isso em tuas janelas,
Em tuas portas singelas
E em cada vidro quebrado,
Onde a tristeza se deita,
Vejo uma réstia perfeita
Das estórias do passado!...
Ai velha casa sombria
Quem, nesta vida, diria
Que aquele céu sucumbisse,
Que aquela fase passasse,
Que aquela ilusão fugisse
E que não mais voltasse!...
Na festa descolorida
Da paisagem destruída,
Aos olhos da Natureza,
Só tu ficaste de pé
Confortando a minha fé!
Matando a minha tristeza!
Velha casa desolada
Guardas na tua fachada
Uma indelével lembrança
Dos meus dias de quimera,
Das rosas da primavera
Que plantei quando era criança!
E agora que o sol se pôs
E a bruma envolve nós dois
Na sua atroz densidade
Enfrentemos a incerteza
Tu - conduzindo tristeza!
Eu - transportando saudade!
Em uma casinha de taipa, uma garota corre feliz,
E, rajado de som, o silêncio é interrompido em uma pausa feroz.
O céu celeste, em rosa, se transforma, e o som vem, cheio de sentido e coração.
A menina, que corre, é uma senhora em um campo no outono,
Sem uma casa, mas com uma lagoa entre pássaros.
O céu rosa é celeste, e o som, mais feroz, vem à tona.
Embora o correr da menina senhora sinta falta,
O bem te vi voa, voa, em um quintal entre risos
Saudades
Abraços que ficaram no ar,
Beijos que o tempo não deixou roubar,
O tremor da primeira vez a palpitar,
Brinquedos artesanais que aprendemos a amar.
Risadas partilhadas com irmãos,
Pipas ao vento, piões nas mãos.
Corridas sem fim pela rua,
Noites de escuridão ao clarear da lua.
Futebol descalço, a liberdade nos pés,
Sobre paralelepípedos, longe de leis.
O doce sabor do amor a descobrir,
Em cada jogo, um mundo a sorrir.
Esconde-esconde, a vida a brincar,
Bicicletas a girar, estradas a explorar.
Sem preocupações a pesar,
Infância, um reino que não queremos deixar.
Tenho tanto para falar que chega a ser sufocante o silêncio nos meus dedos.
Expressão essas que não decifrei em letras, a mente pensa os sonhos navegam em pensamento.
Estes mesmo que ainda não decifro nas linhas estendidas sobre o papel este mesmo que já traz sã lembrança.
Da floresta a onde os arbustos ao longe vêm uma florada que ainda não sei distinguir.
Que flores e essa entre cores amarelas e laranjada com um pouco de lilas as folhas verdes dando um destaque a mais!
Olhando para o céu que me faz reflexo do mar no horizonte profundo me recordando da minha infância que tão perto, vem me trazendo uma breve lembrança.
Dos meus desejos que não realizei, me pergunto porque, mais como devo agir nestes universos de anseio e desejo que me faz refletir.
Vem o silêncio entre o barulho trazendo o conforto de que um dia, só mais um dia para agir!
Alfredo e Juca eram irmãos.
Alfredo não era de expressar seus afetos, os sentimentos pareciam estar guardados a sete chaves... (coração de manteiga, com capa de ferro).
Lembranças da infância, do lugarejo onde nasceram e cresceram, dos joelhos ralados com as corridas ladeira acima, tombos ladeira abaixo, no patinete de madeira e rodinhas de rolimã que fôra feito por seu pai.
A bola de couro e o caminhão de madeira presentes dos avós
Alfredo era apaixonado por futebol.
Juca gostava de carros e, os puxava fazendo som de motor com a boca...vrum..vrum...
Sua mãe os vestia iguaizinhos, parecerndo gêmeos. Estudavam na mesma escola, seguiam juntos todos os dias.
Juca era mais conversador... tinha mais amigos e fazia sucesso entre as meninas.
Em idade hábil não prestaram serviço militar.
Juca fez o curso técnico, conseguiu trabalho, e logo foi pai.
Alfredo fez faculdade, formou-se engenheiro e mais tarde casou.
Juca teve mais filhos que Alfredo.
Assim seguiram suas vidas, já não saiam mais juntos e os encontros...eram apenas nas festas familiares ou por motivo de doença.
Hoje, Juca se foi...as gavetas onde são guardados os álbuns de fotografias, passaram a ser puxadas com mais frequência...Alfredo se procura ao lado de Juca...saudades da infância, dos dias presentes,dos sentimentos, do amor sem ser dito, da boa lembrança!
Eu sinto saudades
daquele tempo
em que eu lambia
a colher de pau
com resquícios
da massa de bolo...
Eu sinto carência
de uma fatia
do bolo da infância
que ficou alí
apagada no sopro de
um desejo infantil...
Mas...
eu ainda sinto viva
a presença daquela menina
acanhada
que brincava de escrever versinhos perfumados de meiguice...
Ela sobrevive em mim!...
✍©️ @MiriamDaCosta
#EscrituraCriativa #Poesia #Versos #Pensamentos
A magia do Dia das Crianças
No Dia das Crianças, somos chamados a escavar o que o tempo enterrou em nós. Crescer é como um lento naufrágio, onde nos afogamos nas correntes da rotina e no peso das horas que se multiplicam sem cor. Perdemos, entre os dedos, o assombro que outrora dançava livre em nossos olhos. O mundo, antes vasto e inexplorado, agora é uma paisagem estática, onde já não vemos a magia que as crianças respiram.
Lembro-me do dia em que observei meu filho na cozinha, como um pequeno alquimista, sorrindo ao transformar ingredientes comuns em arte efêmera. Mexia a colher com a solenidade de quem conhece segredos ancestrais, e o açúcar, dissolvendo-se, era um rio de luz. As gotas de chocolate caíam como constelações em um céu de farinha. Para ele, aquele bolo era mais que um simples bolo. Era um sonho que se formava entre suas mãos.
Nós, que já não sentimos o encanto nos gestos diários, repetimos nossos passos sem poesia. Perdemos o ritual da criação. Fazemos, mas já não criamos. Esquecemos a dança do instante, trocamos nossos olhos de espanto por uma lente endurecida, que só busca o fim, que só quer o resultado. Quando foi que deixamos de encontrar o universo em um grão de areia? Quando foi que a música da vida se calou dentro de nós?
Que neste Dia das Crianças possamos redescobrir o caminho perdido. Que voltemos a andar descalços na terra do encantamento. Que nos permitamos tocar, outra vez, a beleza das pequenas coisas – o riso de um amigo, a sombra de uma árvore no fim da tarde, o brilho de um olhar que nos acolhe. As crianças conhecem a canção secreta da vida. Elas sabem que o tempo não é uma linha reta, mas uma dança circular. Sabem que a alegria não se alcança, mas pode ser encontrada nos detalhes mais sutis.
O mundo nos ensina a sermos frios, a contarmos o tempo em segundos. Mas as crianças nos lembram que a vida se conta nos sorrisos e nos gestos despretensiosos. A criança antevê a felicidade, não espera que ela chegue para ser feliz. Elas sabem ver o voo delicado de uma borboleta como um milagre, sabem que uma flor pode conter todos os segredos do universo. Elas nos ensinam que a verdadeira sabedoria está em desaprender. Desaprender o peso, reaprender a leveza. E assim, voltar a acreditar naquilo que só o coração pode ver.
Que neste Dia das Crianças, aprendamos, assim como elas, a amar a véspera, a alegria que já habita o instante antes da chegada. Que possamos, enfim, abrir nossos corações para a inocência e para a curiosidade que nos habita, adormecida. Porque são elas que nos mostram o caminho de volta ao que sempre soubemos: a vida é um mistério a ser vivido, não resolvido. E, ao olhar novamente através de seus olhos, talvez, só talvez, reencontremos o brilho que deixamos cair ao longo da estrada.
De como me inventei
Passei meus dias em meio às coisas miúdas.
Aprendi com as borboletas a carregar nas costas o mundo,
e com os pingos da chuva, a fazer serenata no chão.
A torneira aberta dos céus
jorrava horas inteiras de poesia,
e eu, menino sem bicicleta,
inventava que as palavras tinham rodas.
Brincava de crescer pelos olhos,
onde cabia o universo e um pé de grama.
Ensinava o absurdo a se acomodar no meu quintal:
uma pedra virava amiga,
uma nuvem, brincadeira de adivinhar.
Enaltecer os ordinários era meu jeito
de me desconhecer um pouco por dia.
As frustrações, eu punha no varal.
Torcia minhas tristezas até o último soluço
e pedia ao sol que secasse tudo antes da próxima chuva.
Porque a chuva sempre volta,
mas as tristezas, se bem secas, viram outra coisa:
lençol para embalar sonhos
ou sombra fresca para esquecer o calor.
Assim fui me criando,
com as faltas vestidas de beleza
e com os vazios repletos de poesia.
Nunca esperei o fim chegar,
porque quem vive de esperar
não interage com o presente,
nem cresce pelos olhos.
Escolhi viver assim:
de mãos dadas com o invisível,
sendo mais do que sou.
Ou sendo menos.
Afinal, quem precisa de muito
quando tem o céu inteiro dentro de si?
Crescer é Perder-se
Se soubesse, criança, como passa o tempo,
Voltavas a brincar com pedrinhas no rio,
Continuavas a sorrir para as borboletas,
Aproveitavas o viver como passarinho.
A vida adulta é pura lamúria,
Tem gosto de saudade e cheiro de chuva.
Queria ter ainda a confiança do abandono,
Quando me esquecia nos braços de Deus,
E era feliz nos desvãos do quintal.
Hoje, crescido, com o controle nas mãos,
Não vivo, apenas existo,
Prisioneiro dos meus próprios medos,
Carregando o peso das responsabilidades.
Se pudesse voltar ao ontem,
Onde o futuro era apenas uma ideia distante,
E cada dia uma nova aventura,
Entregar-me-ia à pureza da infância.
Na simplicidade dos dias antigos,
Encontrava a verdadeira alegria,
E na inocência do meu olhar de menino,
Revelava-se o segredo da vida.
Hoje, vejo-me perdido em meio ao concreto,
Nas rotinas sem cor e sem brilho,
E anseio pelo riso fácil,
Pelo despreocupado viver.
Se soubesse, criança, que crescer é perder-se,
Voltavas a brincar com as formigas,
Continuavas a sorrir para o vento,
Aproveitavas o viver em plenitude.
Hoje que cresci e assumi o controle, não vivo.
Tudo é se der,
Tudo é quem sabe,
E o coração ainda sonha ser menino.
Mundo Azul
Ele caminha devagar na calçada,
como quem mede o peso do dia.
Apressados tropeçam nele,
mas ele nunca tropeça
na pressa do mundo.
Disseram que era estranho,
porque via o mundo por ângulos tortos.
Que culpa tem um espírito sensível,
se a sociedade se crê reta demais
para enxergar a beleza do desvio?
No intervalo entre duas palavras,
ele enxerga um poema inteiro.
No espaço entre um toque e outro,
ele sente tudo o que existe.
A falta de respostas assusta os outros,
mas o silêncio dele não é vácuo: é morada.
Ali dentro, onde poucos chegam,
há um universo à espera de tradução.
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