Texto quando se quer Terminar de Alguém

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Passei a madrugada em claro hoje, É estranho como a ausência de alguém pode ocupar tanto espaço dentro de um quarto.
Fico repassando nossas memórias e aquela ideia da nossa 'menininha' que você tanto falava. Foi naquele momento que eu realmente senti que tinha encontrado o meu lugar no mundo. Você me deu um propósito e uma vontade de construir algo maior, mas agora que você não está, esse propósito parece um deserto.
Queria não precisar dessas respostas que sei que nunca virão. Queria não me sentir preso no vazio onde você me deixou. Mais do que qualquer coisa, eu queria me reencontrar, mas parece que esqueci o caminho de volta para quem eu era antes de nós. Ainda estou aqui, tentando entender como se continua quando o coração ainda insiste em ficar parado no mesmo lugar.

Passei os últimos anos interpretando um papel: o de alguém que superou, que esqueceu e que, finalmente, seguiu em frente. Mas hoje, a máscara caiu. Ver você agora, seguindo a sua vida e construindo o seu caminho, me fez perceber que falhei miseravelmente na missão de te arrancar de mim. Antes de tudo, me perdoa por te incomodar mais uma vez. Sei que não tenho esse direito e te peço sinceras desculpas por reaparecer assim, mas eu precisava ser honesto com você e comigo.
​Não importa quem passe pelos meus dias ou o quanto eu tente me distrair nos silêncios; meu coração sempre encontra um atalho para voltar ao mesmo pensamento: você. O que vivemos não foi um capítulo passageiro; foi algo que se enraizou na minha alma de um jeito que nem o tempo, nem a distância conseguiram apagar. Reconheço hoje, com toda a clareza, que a culpa de não estarmos mais juntos foi sempre minha. Eu falhei com você, errei onde não deveria e carrego esse peso amargo sabendo que o que perdemos foi fruto dos meus próprios tropeços. Se eu pudesse voltar ao passado, se houvesse qualquer maneira de reescrever a nossa história ou mudar as minhas atitudes, eu o faria sem hesitar. Daria tudo para voltar ao tempo em que tínhamos tudo, apenas para não ter te perdido. Me desculpa, de verdade, por ter sido o motivo do nosso fim.
​Dizer isso hoje pode parecer uma loucura ou uma recaída egoísta, e novamente te peço perdão por invadir o seu espaço. Mas a verdade é que, para mim, nada mudou. O amor que eu sinto ainda guarda o mesmo fogo e o mesmo lugar sagrado. O que eu mais queria, na verdade, era poder dizer tudo isso olhando nos seus olhos, sentindo a sua presença e deixando que você visse a verdade no meu olhar, mas sei que o momento exige esse distanciamento. Aceito esse silêncio como parte do meu castigo. Talvez a vida tenha nos levado para mares diferentes, mas se algum dia você olhar para trás e se perguntar se ainda existe alguém que te espera com a mesma intensidade... a resposta sempre será sim.
​Escolhi o dia de hoje para confessar isso porque o mundo celebra o seu nascimento, mas eu celebro o privilégio de ter conhecido a sua essência. Parabéns por ser essa mulher extraordinária. Mais uma vez, peço que me perdoe por desabafar em uma data que deveria ser só de alegria para você. É um egoísmo meu não conseguir guardar esse peso no peito justamente hoje.
​Amar alguém de verdade é deixá-la ser feliz. Às vezes, a gente pensa que amar é viver com a pessoa para sempre, mas nem sempre a vida permite que o amor cure o que os erros estragaram. Amar é permitir que você siga, mesmo que seja longe de mim. O amor verdadeiro não morre; ele se transforma em memória e respeito. Você sempre será o meu primeiro e eterno amor. Aprendi que o amor da nossa vida nem sempre é quem fica ao nosso lado, mas sim quem nos marca para sempre.
​Não é apego; é uma marca. Não é algo que me prende, mas algo que me transformou para sempre. Me perdoa por tudo. Me perdoa por ter percebido o valor de tudo tarde demais. Me perdoa por ainda te amar assim. Siga o seu caminho com a certeza de que a culpa foi inteiramente minha, mas que o meu carinho por você é imutável e eterno.
​Feliz aniversário, meu eterno grande amor.

É difícil explicar essa sensação de ter perdido alguém que ainda está aqui. Não te perdi para a vida, mas nos perdemos nas escolhas, no tempo e nas circunstâncias que nos trouxeram até este distanciamento. O que sobra é esse "vazio cheio": cheio de lembranças, de planos que agora não têm dono e de todos os e se que costumavam colorir nossas conversas.
O mais pesado é perceber que o amor não entende de prazos. Ele continua pulsando aqui, me fazendo lembrar do som da sua voz ou do seu toque em momentos aleatórios do dia. Preciso aprender a conviver com esse sentimento sem ter para onde direcioná-lo. É um exercício diário de não esquecer, mas de deixar ir; de não apagar o que fomos, mas de aceitar o que somos agora.
Sigo em frente levando esses pedaços de mim que ainda moram em você. Por fora, o sorriso vai se recompondo, mas por dentro ainda existe esse silêncio que ama e que espera, mesmo sabendo que o caminho agora é individual.
Dizem que a vida ensina a suportar o insuportável. Espero que, com o tempo, essa dor se transforme naquela lembrança leve, um lugar onde eu possa visitar sem me machucar, apenas para agradecer pelo que vivemos.

Já parou para pensar em como certos líderes religiosos se desestabilizam quando encontram alguém que pensa por conta própria? É quase um padrão: no instante em que você deixa de balançar a cabeça positivamente para cada palavra dita no altar e passa a questionar as incoerências flagrantes, a indignação deles transborda. Eles não se revoltam contra a injustiça do mundo, mas sim contra a sua capacidade de enxergar através do teatro que eles montaram.
A verdade incômoda é que o templo virou um palco de controle. O mecanismo de manipulação é sutil, operando por meio do medo e da culpa institucionalizada. Usam o sagrado como escudo para blindar vaidades humanas e julgar a vida alheia, enquanto nos bastidores sustentam uma conduta oposta àquela que pregam com tanta veemência. Tentam moldar o comportamento coletivo apontando dedos, criando regras que servem apenas para manter as pessoas submissas, dependentes de uma aprovação humana disfarçada de aprovação divina.
No entanto, há algo crucial que precisa ser dito em alto e bom som: religião não define e jamais transformará o caráter de ninguém. Estar sentado em um banco de igreja todos os domingos ou carregar um livro sagrado debaixo do braço não anula a maldade, a soberba ou a desonestidade. A fé deveria ser um caminho de evolução interna, mas frequentemente torna-se um disfarce conveniente para indivíduos vazios de empatia. O verniz moral de um terno elegante ou de um discurso inflamado não esconde a podridão de quem usa a esperança dos outros em benefício próprio. É uma falência ética deplorável ver homens que se autointitulam guias espirituais agindo como mercadores de ilusões e juízes implacáveis da fraqueza alheia.
Para os pastores que utilizam o rebanho como degrau para o poder e ferramenta de controle, fica um aviso severo: nenhuma estrutura construída sobre a mentira e a opressão psicológica permanece firme. Vocês prestarão contas não da quantidade de joelhos que dobraram diante da sua autoridade, mas das mentes que adoeceram sob o peso dos seus julgamentos hipócritas. Liderança real se conquista pelo exemplo, pelo acolhimento e pela transparência, nunca pelo terrorismo espiritual.
E para quem continua frequentando esses ambientes de olhos fechados, aceitando a ignorância como se fosse virtude, é hora de despertar. Deus não habita no monopólio da palavra de um homem que exige sua obediência cega. Espiritualidade legítima liberta; ela não escraviza, não isola e não pune a inteligência. Continuar aplaudindo discursos manipuladores por comodismo ou medo do desconhecido faz de você cúmplice da própria cegueira. Abra os olhos. A sua integridade, o seu discernimento e a sua dignidade valem muito mais do que qualquer ilusão de pertencimento oferecida por quem só quer governar a sua mente

Entre o que foi e o que é


Eu tô com alguém bom, alguém que me faz bem.
Mas ainda carrego ecos de quem me feriu.
Não porque eu queira voltar,
mas porque certas lembranças não sabem ir embora.


Meu corpo já entende o novo toque,
mas minha alma, às vezes, ainda procura o antigo.
E isso me confunde — me parte.


Ele me fez mal, eu sei.
Mas há pedaços de mim presos nas memórias que ele deixou.
E o amor, mesmo quando dói,
tem um jeito cruel de se fazer presente.


Talvez um dia eu acorde e o passado não pese mais.
Talvez um dia o novo amor ocupe todo o espaço.
Mas, por enquanto,
vivo nesse meio-termo —
entre o que me destruiu
e o que tenta me reconstruir.




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O que será que a vida espera de mim?

Às vezes me pergunto se ela espera que eu seja alguém digno. Alguém que tenha aprendido as regras do mundo, que saiba distinguir o certo do errado, que cumpra os valores que me ensinaram e carregue, com alguma dignidade, tudo aquilo que esperaram que eu fosse.

Mas quem decidiu o que é ser digno?

Talvez dignidade seja apenas uma palavra que inventamos para dar nome à maneira como esperamos que o outro viva.

Desde cedo nos ensinam o que devemos ser. Estudamos para ser alguém. Trabalhamos para ser alguém. Construímos relações, acumulamos histórias, conquistas, fracassos, títulos e lembranças — quase sempre tentando responder a uma pergunta que ninguém nos fez diretamente, mas que parece estar escondida em tudo:

“Você está sendo aquilo que deveria ser?”

E talvez seja justamente aí que a vida se torne estranha.

Porque, enquanto tentamos corresponder ao mundo, vamos nos afastando lentamente de nós mesmos.

Talvez a vida não queira de mim grandes feitos. Talvez não queira que eu seja extraordinário, admirado ou lembrado. Talvez queira apenas que eu consiga existir sem precisar transformar cada passo em uma prova de que mereço estar aqui.

Ser alguém simples.

Alguém que compreenda a si mesmo, ainda que nunca completamente. Alguém que reconheça as próprias contradições, faça as pazes com algumas delas e aprenda a conviver com aquilo que jamais conseguirá compreender.

E, quem sabe, compreender um pouco os outros.

Porque talvez compreender o outro seja também perceber que ninguém sabe exatamente o que está fazendo. Há pessoas que parecem ter todas as respostas, mas carregam perguntas que nunca tiveram coragem de dizer em voz alta.

Talvez todos nós estejamos apenas tentando encontrar alguma forma de chamar de vida aquilo que fazemos com o tempo que nos foi dado.

E então penso que talvez eu esteja fazendo a pergunta errada.

Talvez não seja a vida que espera alguma coisa de mim.

Talvez seja eu quem espere alguma coisa dela.

Espero que, em algum momento, tudo faça sentido. Que os encontros tenham uma razão, que as perdas tenham deixado alguma coisa, que os caminhos que não escolhi tenham me conduzido, de alguma maneira, até onde deveria estar.

Espero que exista alguma espécie de resposta escondida depois de todas essas perguntas.

Mas talvez não exista.

Talvez eu esteja procurando por algo que nunca teve nome.

Algo simples e, ao mesmo tempo, impossível de explicar. Algo que não cabe em uma profissão, em uma relação, em uma conquista ou em qualquer uma das palavras que usamos para definir uma vida.

Algo que talvez exista apenas naquele lugar silencioso dentro de nós onde ninguém mais consegue entrar.

E talvez seja por isso que, mesmo quando conquistamos aquilo que um dia desejamos, ainda sentimos que falta alguma coisa.

Porque há desejos que não sabem dizer o próprio nome.

Há vazios que não pedem para ser preenchidos, apenas compreendidos.

Há partes de nós que passam anos esperando que finalmente prestemos atenção nelas.

Talvez viver seja esse movimento estranho entre aquilo que o mundo espera de nós e aquilo que, silenciosamente, esperamos encontrar dentro de nós mesmos.

Talvez amadurecer não seja finalmente descobrir quem somos.

Talvez seja aceitar que nunca seremos uma resposta definitiva.

Somos perguntas em movimento.

Somos aquilo que fomos, aquilo que perdemos, aquilo que escolhemos, aquilo que recusamos e também tudo aquilo que ainda não conseguimos ser.

E talvez a vida não esteja esperando nada de nós.

Talvez ela simplesmente aconteça.

E sejamos nós que, diante dela, insistimos em perguntar:

“O que devo fazer com tudo isso?”

Talvez a resposta não esteja em descobrir o que a vida espera de mim.

Talvez esteja em descobrir o que, apesar de tudo, ainda faz com que eu queira continuar vivendo.

Meu Coração é um Estúpido


Alguém disse ao meu coração
Que já não te amo.
Mas ele recusa-se
A deixar-te partir.
Queria ser tão forte
Como este coração,
Para entender
Onde vai buscar tanta estupidez.
Sabes quantas vezes
Já o encontrei a chorar?
Quando lhe perguntei o motivo,
Respondeu-me
Que era apenas uma tempestade
E que passaria mais tarde.
Mas, noutro dia,
As lágrimas continuavam.
Voltei a perguntar-lhe,
E garantiu-me
Que a tempestade regressara
Ainda mais forte.
Mesmo assim,
Disse que ela não o iria abalar.
Acrescentou ainda
Que já suportara dores piores
E, apesar de tudo,
A vida continuara a caminhar.
Então disse-lhe:
“Se o amor é assim,
Eu desisto de amar.
Desisto de sentir.”
O coração olhou para mim, espantado,
E respondeu:
“Tu nunca amaste de verdade, meu amigo.
O amor é assim.
Hoje faz-te conhecer
A pior das infelicidades;
Amanhã oferece-te
A maior das felicidades.”
Respondi-lhe:
“Então isso não é amor…
É um castigo.”


Castigo da Feitiça, 2026

Se existe entre nós alguém que ainda guarda um segredo que lhe parte o coração, precisa saber que a carne humana não suporta para sempre o peso da dor. Um dia, o corpo cansa-se, a alma sucumbe, e aquilo que foi silenciado por tanto tempo encontra finalmente uma forma de se revelar.
Daniel Perato Furucuto

⁠Uma dica

Quando você for ENSINAR algo a alguém, lembre-se que a outra pessoa não sabe do que se trata, ela ainda está aprendendo. Copiou?

Tem gente que "ensina" como se estivesse falando pra si mesmo.

ENSINAR exige empatia e paciência. Lembre-se disso!!!

"Ah, todo mundo pode ensinar e blá blá blá." NÃO!!!!!! Todos podem fingir que ensinam, mas poucos têm a habilidade para tal.

O Santuário do Acolhimento


Acolher alguém em seu momento de maior fragilidade é transformar o próprio coração em um santuário de proteção e paz. Esse ato vai muito além de abrir as portas de uma casa; significa abrir os espaços da alma para receber uma vida que, naquele instante, encontra-se sem rumo e despedaçada. Quando decidimos ser o abrigo de alguém, oferecemos o respeito de uma escuta que não julga e a segurança de um teto emocional onde a dor pode finalmente chorar sem medo. Esse acolhimento puro é a expressão máxima da nossa humanidade, pois entende que a maior caridade é estender a mão justamente para quem não tem forças para se leva

Se eu tivesse que explicar você


Se alguém me perguntasse
o que exatamente aconteceu comigo
depois que conheci você,
eu provavelmente não saberia responder.


Porque não foi uma coisa.
Não foi uma palavra, um gesto,
um momento específico.


Foi um conjunto de detalhes
que, separados, talvez não significassem nada...


mas que, juntos,
fizeram você se tornar você para mim.


E talvez seja isso que torna tudo tão difícil de explicar.


Como explicar que uma pessoa
pode se tornar importante sem pedir para ser?


Como explicar que, em algum momento,
a gente percebe que já não está apenas conhecendo alguém...
está conhecendo um mundo.


Um mundo com histórias que eu ainda não conheço,
com cicatrizes que não vi,
com sonhos que talvez ainda nem tenham nome,
com medos que você talvez esconda,
com desejos que ainda vou descobrir.


E eu não quero conhecer esse mundo de uma vez.


Quero descobrir aos poucos.
Quero conhecer a mulher que você é
quando está feliz,
a que aparece quando está cansada,
a que ri das próprias bobagens,
a que fica teimosa,
a que muda de ideia,
a que se irrita,
a que sonha,
a que às vezes duvida de si mesma...


Quero conhecer até as versões suas
que você talvez ache difíceis de amar.


Porque gostar de alguém
pelas partes bonitas é fácil.


O que me interessa é conhecer o conjunto.
A pessoa inteira. Sem recortes.


Sem precisar transformar você
em uma versão perfeita
para caber no que eu sinto.


E talvez seja essa a minha maior declaração:
eu não quero uma personagem sua. Quero você!


Com suas certezas e contradições.
Com aquilo que mostra
e aquilo que ainda não conseguiu mostrar.


Com os dias em que tudo parece simples
e aqueles em que nem você consegue
entender o que está acontecendo aí dentro.


Quero continuar descobrindo.
Porque quanto mais eu conheço você,
menos vontade tenho de encontrar uma definição.


E talvez eu finalmente tenha entendido:
algumas pessoas não foram feitas
para serem explicadas.


Foram feitas para serem conhecidas.


E você...


eu quero passar muito tempo,
mais 1000 anos fazendo exatamente isso.

Independentemente de alguém querer ou não demonstrar que precisa de amor, ainda vale a pena espalhar carinho. O amor não pertence apenas aos relacionamentos entre casais; ele também vive na amizade, no respeito e nos pequenos gestos do dia a dia.

Viemos ao mundo para amar o nosso próximo e lembrar que todos merecem afeto. Mesmo em meio a tanta maldade, que a nossa gentileza seja a prova de que o amor ainda encontra espaço para florescer.

O conservadorismo não transforma ninguém em uma pessoa melhor, tampouco impede alguém de ser desprezível. É apenas uma conduta, um conjunto de valores e princípios adotados diante da vida. O caráter, porém, revela-se nas atitudes — e não no rótulo ideológico que alguém escolhe carregar.


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O Homem que Sobrou de Todos os Homens

Antes de mim
já havia o silêncio.

Depois,
alguém acendeu uma luz
e chamou aquilo de nascimento.

Não me perguntaram
se eu queria estar aqui.

Deram-me um corpo,
um nome,
um punhado de ossos
e uma consciência inquieta
demais para caber dentro deles.

Passei a infância
aprendendo o tamanho das coisas.

O quintal parecia infinito.
O céu não terminava.
O tempo não tinha pressa.

Eu ainda não sabia
que um dia os relógios
começariam a devorar pessoas.

Nem que homens adultos
acordariam cedo
para vender seus dias
em troca de dinheiro
com o qual comprariam
mais alguns dias.

Eu ainda não sabia
que crescer seria
descobrir lentamente
que quase tudo aquilo
que chamávamos de escolha
já vinha com preço.

Então cresci.

E o corpo cresceu comigo.

Mas dentro dele
continuava aquele menino
batendo nas paredes
de uma casa que não sabia
ser sua.

Foi quando comecei
a desmontar o universo.

Procurei Deus
atrás das estrelas.

Depois procurei estrelas
dentro dos átomos.

Procurei respostas
na matéria,

e encontrei vazio.

Procurei vazio,

e encontrei movimento.

Procurei movimento,

e encontrei caos.

Procurei o caos,

e encontrei a mim.

Talvez tenha sido aí
que tudo começou a dar errado.

Porque descobrir a própria consciência
é uma forma sofisticada
de perder a inocência.

Depois que percebemos
que estamos vivos,

não conseguimos mais
fingir que não estamos.

E eu pensei demais.

Pensei até o pensamento
ficar pesado.

Pensei até transformar
a própria cabeça
em um quarto sem janela.

Houve noites
em que o silêncio
tinha mais presença
que qualquer pessoa.

O mundo dormia.

Eu não.

Eu contava as rachaduras
do teto
como quem procura
uma saída no mapa de uma prisão.

Às vezes queria desaparecer.

Não como quem deseja um fim,

mas como quem deseja
que alguém apague
uma palavra escrita errada
antes que a página inteira
seja condenada por ela.

Queria ser menos eu.

Depois descobri
que era impossível.

Então tentei ser outra coisa.

Fui raiva.

Fui veneno.

Fui punho.

Fui grito.

Fui a palavra que ninguém queria ouvir
na mesa onde todos fingiam
que estava tudo bem.

Olhei para o mundo
e achei que ele merecia
ser destruído.

Depois olhei melhor
e percebi:

eu também fazia parte dele.

Essa foi uma descoberta pior.

Porque é fácil odiar monstros
quando acreditamos não possuir dentes.

Mais difícil é perceber
que às vezes o monstro
mora no espelho
e paga suas próprias contas.

Ainda assim, lutei.

Contra homens.

Contra ideias.

Contra sistemas.

Contra deuses.

Contra o destino.

Contra mim.

E por algum tempo
confundi liberdade
com não pertencer a nada.

Que erro.

A liberdade não é ausência de correntes.

É saber quais delas
você aceita carregar.

Então veio o amor.

E eu, que desconfiava
de quase tudo,

acreditei.

Que ironia.

Passei anos procurando
uma prova de que a vida tinha sentido

e bastou alguém
olhar para mim
como se eu tivesse.

O amor não me salvou.

Nenhum amor salva.

Ele apenas mostrou
que havia coisas
pelas quais valia a pena
continuar lutando.

E isso foi suficiente.

Depois vieram as perdas.

Porque toda coisa que amamos
carrega consigo
a possibilidade de nos ferir.

Aprendi tarde
que algumas pessoas
não ficam.

Algumas são passagem.

Algumas são cicatriz.

Algumas são casa
e algumas são incêndio.

E algumas conseguem ser
as duas coisas.

Continuei andando.

Não por coragem.

Por insistência.

Há uma diferença.

Coragem olha para o abismo
e decide saltar ou não.

Insistência simplesmente
acorda no dia seguinte.

Eu acordei muitas vezes.

Algumas sem vontade.

Algumas sem esperança.

Algumas sem saber
o que fazer comigo.

Mas acordei.

E um dia percebi
que havia outras pessoas
acordando por minha causa.

Foi então que o homem
que queria desaparecer
começou a compreender
o peso de permanecer.

Já não era apenas meu corpo.

Já não era apenas minha vida.

Havia mãos pequenas
que ainda não entendiam
a palavra futuro,

mas já eram capazes
de mudar o meu.

Foi nesse instante
que o tempo deixou de ser inimigo.

Ele passou a ser herança.

E compreendi algo
que nenhuma equação
havia conseguido me ensinar:

nós não somos apenas
aquilo que lembramos.

Somos também
aquilo que ensinamos
sem perceber.

Somos a frase que alguém repete
anos depois.

O gesto que alguém reproduz.

A coragem que alguém encontra
porque um dia viu a nossa.

Somos aquilo que permanece
quando o nome já não está
na boca de ninguém.

Talvez seja essa
a única forma humana
de eternidade.

Não durar.

Continuar.

Hoje ainda tenho perguntas.

Muitas.

Algumas envelheceram comigo.

Outras nasceram ontem.

Ainda desconfio de Deus.

Ainda desconfio dos homens.

Ainda desconfio de mim.

A diferença é que já não preciso
resolver todos os mistérios
para apreciar o fato
de estar dentro deles.

Já não preciso compreender
o universo inteiro
para amar alguém
nesta pequena parte dele.

Já não preciso vencer
todas as batalhas
para reconhecer
que sobrevivi a algumas.

E já não quero apagar
nenhuma versão de mim.

O menino.

O revoltado.

O apaixonado.

O bêbado de pensamentos.

O homem perdido.

O homem arrogante.

O homem quebrado.

O homem que achou
que não haveria amanhã.

Todos eles continuam aqui.

Não como fantasmas.

Como fundação.

Eu sou o erro
que aprendeu com o erro.

A ferida
que aprendeu a fechar
sem esquecer onde doeu.

A pergunta
que desistiu de exigir resposta.

O caos
que encontrou uma maneira
de não destruir tudo.

A matéria
que, por algum acidente absurdo,
aprendeu a amar.

E talvez seja isso
que mais me assuste:

depois de passar tanto tempo
querendo descobrir
o que existe depois da vida,

eu finalmente comecei
a prestar atenção
no que existe dentro dela.

Um café quente.

Uma madrugada.

Uma discussão.

Um abraço.

Uma criança dormindo.

Uma fotografia antiga.

Um erro que ainda dói.

Uma gargalhada inesperada.

Uma pessoa dizendo
“fica”.

O sol entrando pela janela
sem pedir licença.

A vida.

Essa coisa estranha
que nunca explicou
por que me escolheu.

E que, ainda assim,
eu escolhi de volta.

Quando meu corpo finalmente cansar,

quando a matéria
voltar a ser matéria,

quando meu nome for apenas
uma palavra antiga
em alguma boca distante,

não quero que digam
que fui um homem sem respostas.

Eu fui pior.

Fui um homem cheio delas.

Tive respostas demais
para perguntas erradas.

Passei metade da vida
tentando descobrir
como escapar do labirinto.

A outra metade
aprendendo a construir
janelas dentro dele.

E se algum dia
alguém encontrar minhas palavras,

não procure nelas
um homem pronto.

Não existe.

Procure um homem
tentando.

Porque foi isso
que eu fiz.

Tentei.

Tentei entender.

Tentei amar.

Tentei odiar.

Tentei fugir.

Tentei ficar.

Tentei ser pai.

Tentei ser filho.

Tentei ser homem
antes mesmo de descobrir
o que isso significava.

Tentei transformar dor
em alguma coisa que não fosse desperdício.

Às vezes consegui.

Às vezes não.

Mas escrevi.

E talvez escrever tenha sido
a maneira mais honesta
que encontrei
de deixar sangue no papel
sem precisar morrer por ele.

Agora olho para trás.

Há muitos homens
espalhados pela estrada.

Todos têm meu rosto.

Nenhum é exatamente eu.

Eu sou o intervalo
entre eles.

O espaço invisível
onde um termina
e outro começa.

Sou o menino
que ainda olha para o céu.

O homem
que ainda pergunta.

O pai
que já sabe que amanhã chegará.

E o velho
que ainda não conheço.

Talvez um dia
eu finalmente compreenda
por que nasci.

Talvez não.

Mas já não tenho tanta pressa.

Tenho coisas para fazer.

Tenho pessoas para amar.

Tenho erros para corrigir.

Tenho histórias para contar.

Tenho amanhã.

E, pela primeira vez,

isso não parece pouco.

Parece infinito.

Porque agora eu sei:

não é preciso vencer a morte.

Basta não deixar
que ela seja a última coisa
a dizer quem fomos.

Então, quando chegar minha vez,

que o universo faça comigo
o que sempre fez com tudo:

me desmonte.

Quebre meus átomos.

Espalhe minha matéria.

Devolva meu corpo
ao chão.

Não me importo.

Porque antes disso
eu terei sido muitas coisas.

E algumas delas
terão ficado.

Num filho.

Num abraço.

Numa lembrança.

Numa cicatriz.

Num riso.

Numa página.

E talvez,
em algum lugar,

um homem que nunca conhecerei
leia estas palavras
e perceba que não está sozinho.

Então tudo terá valido a pena.

Não porque eu descobri
o sentido da vida.

Mas porque, no fim,

eu finalmente descobri
que o sentido não estava esperando
por mim em lugar algum.

Eu estava construindo.

Enquanto caía.

Enquanto amava.

Enquanto errava.

Enquanto envelhecia.

Enquanto escrevia.

E entre todos os homens
que eu fui,

entre todos os homens
que ainda posso ser,

há somente um
que permanece.

Não o primeiro.

Não o último.

Mas aquele que escolheu
continuar.

Eu.

Cada alma tem seu próprio projeto de vida.

Por isso, não se apresse
quando alguém parecer estar à sua frente.

O ego compara,
mede, disputa e pergunta:
“Por que ainda não cheguei lá?”

A essência não pergunta isso.

Ela apenas vive.
Experimenta.
Aprende.
Muda de direção quando precisa.

Talvez você não esteja atrasada.
Talvez apenas esteja vivendo
uma história que não foi escrita para ser igual à de ninguém.

Há caminhos que não precisam ser comparados.
Precisam apenas ser vividos.

Gesto de doação
(Mauro 1Evaristo)

Seja um ato de bondade
Na vida de alguém
Sequer faça publicidade
Prospera quem faz o bem.

Seja um gesto de carinho
Na vida de alguém
Nem precisa dizer aos vizinhos
O bem prospera o bem.

Seja um gesto de doação
Na vida de um qualquer, um irmão
Sequer precisa comentar com alguém

Pois a energia de uma boa ação
Repercute e volta também,
Faça o bem sem olhar a quem.

feradapoesia.blogspot.com

A dor do alheio viver
(Mauro A Evaristo)

Se alguém atingiu o conhecimento
Que liberta das mazelas do tempo,
Mas defende aos outros o sofrer
O que de bom valeu esse aprender?

Se alguém "perceptou" a verdade
Que liberta das maldades,
Mas defende aos outros o sofrer
Qual a validade desse perceber?

Se alguém assimilou a compreensão
Que tudo se resolve via educação,
Mas defende aos outros o sofrer

Como pode toda uma nação
Aplaudir, ovacionar esse Ser
Que ignora a dor do alheio viver?

feradapoesia.blogspot.com

⁠⁠Perceba o quanto antes, onde não é bem vindo, tratado como um alguém nada importante, assim, não permaneça ao lado de quem não quer estar de fato contigo, não se humilhe, não force a barra, não cobre o que deve ser recíproco e prestado espontaneamente através de um entrosamento genuíno,

não seja uma pessoa inconveniente, não aceite menos do mínimo saudável, já que não é necessário muito para se fazer presente, ainda que haja muita distância, alguns desentendimentos e encontros pouco frequentes, só não pode haver o triste descaso, um total desinteresse, que traz apenas desagrados, males evidentes.

E não se trata de viver de um jeito amargo e cheio de frieza e sim de compreender que tudo é temporário, que, portanto, não vale a pena desperdiçar o nosso tempo, sendo uma das coisas que temos de mais valiosas com fingimentos, convivências forçadas, tendo uma falta de respeito com a própria existência, um agir inadequado.

⁠⁠⁠⁠⁠⁠Gostar de alguém não é uma obrigação, não acontece por acaso, sem uma boa razão, vem depois do prestígio espontaneamente cativado, de se encontrar alguma identificação, de ficar feliz por tê-lo por perto, partilhando de boa parte dos mesmos princípios, uma visão muito parecida de mundo, quando os bons ânimos podem ser somados ou o bom ânimo de um pode afastar o desânimo do outro, um laço imperfeito, mas muito resistente, onde os seus defeitos podem ser tolerados e as suas qualidades são mais aparentes.
Então, não pode ser algo forçado, perderia até o sentido, passaria a ser bastante inconveniente, um malefício compartilhado e nem sempre será recíproco, não se tem essa necessidade para se gostar, claro que se for o caso, melhor, entretanto, para isso, não deve ser cobrado, pois a espontaneidade é imprescindível e deve ser notável, precisa existir verdade dos dois lados neste vínculo de tanto significado ao ser correspondido entre amigos, casais, familiares e ex- desconhecidos, permitindo alguns momentos especiais.
Por fim, considerando tudo isso, enfatizo que gostar de alguém não deve ser danoso, um motivo para aceitar o descaso, um tratamento indiferente ou desrespeitoso, assim, não se aproxime de quem claramente não gosta de você, que acha que a sua presença é um fardo, que só presta atenção nos seus erros, não é necessário deixar de gostar, muito menos guardar algum rancor, porém, é preciso evitar o dissabor de ser apenas aturado, uma forma de reconhecer o próprio valor, de demonstrar um mínimo de maturidade, agindo a seu favor, preservando a sua integridade.

Existe uma diferença notável entre ser alguém muito querido ou ser apenas tolerado, querer tê-lo é por perto representa algo recíproco, a sua presença é valorizada, não é vista como um fardo, as desavenças no convívio ocorrem, óbvio, mas não são frequentes, a afinidade permanece forte, as conversas fluem naturalmente

É bastante evidente que a consideração quando é de verdade faz com que a atenção seja prestada com vontade e não somente por educação, de forma apressada ou para suprir alguma necessidade, aliviar a consciência pesada, tirar vantagem sem pensar duas vezes, demonstrando uma clara falsidade

Os laços são construídos com naturalidade, levam um tempo e não carecem de exigências, não é algo forçado, caso contrário, nem valeriam a pena, portanto, seja alguém mais seletivo, claro que todos erram, todavia, não aceite a fragilidade do que é falso ou um contato danoso somente para ter uma companhia.