Tem me Feito Tao bem
Sobretudo eu estar com 48 anos, uso da GRATIDÃO a vida.
Me sinto jovem, minha alma tem esse viço e brilha. Não uso mais a modéstia em dizer o que sou.
Não alimento falsas ilusões embora elas existam, não posso perder meu precioso tempo, preciso continuar enquanto tenho saúde, força, vontade e coragem.
Cativo pessoas, cultivo gentilezas. Cuido de mim.
Ando bordando com minha linha cor de rosa o tempo chamado amor.
Suspiro, desejo e dor.
Posso morrer amanhã.
Talvez fique inútil. Sim.
Fiz um acordo com Deus, que ao meu lado, fique apenas os que verdadeiramente me amam.
Amém.
O que tem de gente querendo nos derrubar é absurdo. O que tem de gente querendo te levantar surpreende.
Deus aje no absurdo e nos surpreende. Amém
Se você não me disser a verdade, não tem como eu ajudar a minha metade. Se tem outro em meu lugar ou se você quer colocar, te deixo livre para viver. Não prometo te esperar, o coração vai cicatrizar e uma hora sei que vou te esquecer. Se era medo de me machucar, já tem meu perdão. Tá esperando o que?
Apenas se importe – III
Você não é nada disso.
Você é humano.
A humanidade não tem limites.
A consciência não tem fronteiras. E você é isso.
Como parte dos padrões e processos atemporais que compõem a saga humana em cada instante precioso, o que você faria hoje para mudar o comprimento de onda do coletivo?
O que você faria para reconciliar a perspectiva binária que impusemos à nossa existência unitária
O que você faria para sonhar um sonho coletivo melhor?
O que você faria?
****************Simplesmente se importe.******************
E se o fizer, importe-se um pouco mais.
E se você deixou de se importar, se preocupe em saber o porquê.
_____________________________________________________________
Quando você começou a ensaiar a couraça preventiva de não se importar o suficiente - para evitar dor e danos emocionais?
_____________________________________________________________
Cuide porque cada parte verdadeira de sua humanidade anseia por cuidar.
Porque você foi feito para cuidar.
Eu me importo.
“Não voltarei a um universo
de objetos que não se conhecem,
como se as ilhas não fossem as crianças perdidas
de um grande continente.” _Monet_
E só para ser ácido: crer, ter fé, não tem nada a ver com cristianismo, islamismo, judaísmo ou qualquer outro “ismo” que por ventura alguém professe.
Paulo H Salah Din
A HUMANIDADE MORRE EM SILÊNCIO: A INDIFERENÇA TEM MÃOS LIMPAS
A cidade fede.
Não por causa do esgoto.
É o cheiro da consciência apodrecendo devagar.
Você aprende isso quando passa dos sessenta.
Os anos deixam marcas onde antes havia certezas. O espelho passa a contar verdades que ninguém pediu para ouvir. Alguns amigos viram fotografias, outros apenas silêncio. Os cães que juravam amor eterno descansam sob a terra. Os balcões onde você gastou madrugadas cedem lugar a farmácias e franquias. Algumas mulheres levam consigo os planos que um dia pareciam indestrutíveis. E a vida, insolente, sequer diminui o passo. Amanhece do mesmo jeito, como se nenhuma ausência merecesse um minuto de luto.
O problema nunca foram os assassinos.
Eles são poucos.
O problema sempre foi essa multidão de gente decente.
Os que dizem:
"Não é comigo."
Essa frase matou mais gente do que qualquer exército.
Todo império foi construído sobre ela.
Toda cruz.
Toda bomba.
Toda criança enterrada antes do tempo.
Você quer encontrar o diabo?
Não procure chifres.
Procure conforto.
Ele mora ali.
Na poltrona.
No controle remoto.
No dedo que desliza pela tela para não olhar uma fotografia de guerra por mais de três segundos.
A alma não morre de uma vez.
Ela enferruja.
Primeiro deixa de sentir o mendigo.
Depois deixa de sentir o velho.
Depois a mulher espancada.
Depois a criança.
Quando percebe, já não sente nem a própria dor.
Só o vazio.
E chama isso de maturidade.
Que piada.
Passei tempo demais em bares para acreditar em gente iluminada.
Conheci bêbados mais honestos que muitos santos.
Pelo menos eles admitiam que estavam quebrados.
Os outros escondem a podridão atrás de sorrisos bem escovados e frases motivacionais.
A espiritualidade, se existe alguma, nunca esteve nos altares.
Ela aparece quando a dor de um desconhecido estraga o seu sono.
Quando você não consegue terminar o café porque uma notícia ficou presa na garganta.
Quando percebe que nenhuma fronteira impede um coração de reconhecer outro coração.
Nesse instante você entende uma coisa terrível.
Nunca existiram "eles".
Sempre fomos "nós".
E essa é a pior notícia que alguém pode receber.
Porque acaba a desculpa.
Acaba Deus levando a culpa.
Acaba o governo.
Acaba o destino.
Sobra você.
Você e a escolha ridiculamente simples que a maioria evita fazer.
Importar-se.
Não para parecer bom.
Não para ganhar o céu.
Nem para aliviar a consciência.
Importar-se porque, no dia em que a dor do outro deixar de atravessar o seu peito, você continuará andando, falando e pagando contas...
...mas a única coisa realmente viva dentro de você já terá ido embora.
Há perguntas que não têm remédio.
E isso não é uma tragédia. É uma libertação.
Passamos anos tentando consertar aquilo que nasceu para não ser consertado. Procuramos respostas como quem revira os bolsos de um casaco velho atrás de uma chave que nunca existiu. Enquanto isso, a vida passa pela porta da frente, acende um cigarro, sorri de lado e vai embora.
Há dores que não serão curadas.
Então estão curadas.
Porque a única cirurgia possível é aceitar que elas continuarão caminhando ao nosso lado.
A decisão sempre foi nossa.
Mas, por favor, caminhe com empatia. Todo mundo carrega um cadáver invisível nas costas. Uns escondem melhor. Outros bebem. Outros rezam. Outros escrevem. No fim, todos sangram.
O verdadeiro horror nunca foi sofrer.
O verdadeiro horror é morrer antes da morte.
É viver como uma máquina programada para acordar, trabalhar, consumir, dormir e repetir. É escolher a segurança como quem escolhe uma cela confortável.
Sempre imaginei a zona de conforto como um quarto mofado.
O cheiro de umidade impregnado nas paredes.
Uma luz fraca que nunca chega a iluminar nada.
Nenhuma janela.
Nenhum vento.
Nenhum risco.
Nenhuma possibilidade.
Só a lenta decomposição de alguém que ainda respira.
Não tente viver ali.
A vida não pede anestesia.
Ela pede presença.
Sem dor não existe profundidade.
Sem prazer não existe lembrança.
Sem paixão não existe história.
O fracasso nunca foi o inimigo.
O horror é nunca ter tentado.
Nada é tão urgente quanto dizem.
Nem dinheiro.
Nem prestígio.
Nem a opinião de quem sequer conhece o seu nome.
Urgente é viver.
Porque a mente humana é um universo sem cercas. Ela consegue revisitar o passado, inventar futuros, criar mundos inteiros enquanto o corpo permanece sentado numa cadeira qualquer.
Somos infinitos por dentro e temporários por fora.
Essa talvez seja a piada mais bonita do universo.
Então viva.
Até aquele instante inevitável que ninguém negocia.
Quando esse dia chegar, que encontre em você cicatrizes e não ferrugem.
Seja visceral.
Seja sanguíneo.
Não esconda as desilusões.
Não esconda as decepções.
Elas nunca foram o fim da estrada.
Foram o asfalto.
Talvez a missão que tanto perguntamos ao céu nunca tenha sido vencer.
Talvez fosse simplesmente atravessar.
Continuar andando mesmo depois de perder a fé nas placas.
Mesmo depois de descobrir que ninguém virá nos salvar.
Se as desilusões quase o mataram...
Acorde.
Quase.
Não mataram.
Você ainda está aqui.
Ainda respira.
Ainda pode amar.
Ainda pode quebrar a cara de novo.
Ainda pode rir alto de si mesmo.
Ainda pode incendiar esse quarto mofado e abrir uma janela.
E, quanto a mim...
Escrevo.
Porque existem coisas que não podem permanecer dentro de um homem.
Se eu não colocar para fora,
eu explodo.
O Reflexo Também Tem Uma Arma
A vidraça estava ali como todas as vidraças do mundo: limpa o bastante para fingir que era transparente e suja o bastante para esconder alguma coisa.
Parei diante dela.
Não porque quisesse me olhar.
Ninguém para diante de uma vidraça para se olhar. Isso é coisa de gente satisfeita, vendedor de roupa, sujeito que acabou de ganhar um emprego ou alguém que ainda acredita que o rosto tem alguma coisa a dizer.
Eu só estava passando.
Foi o reflexo que me fez parar.
Primeiro apareceu a minha silhueta.
Depois o rosto.
Depois alguma coisa que não combinava comigo.
A iluminação era ruim, o vidro tinha marcas, riscos, manchas e aquela sujeira fina que a cidade deposita sobre tudo como se cobrasse aluguel. Meu reflexo estava quebrado em vários pedaços.
O rosto num lugar.
O ombro em outro.
Um olho ligeiramente acima do outro.
A boca cortada por uma rachadura.
Parecia uma fotografia de família depois de uma discussão.
Fiquei olhando.
O reflexo também.
Aquilo começou a me irritar.
Não havia nada de especial em uma imagem quebrada. A cidade estava cheia delas. Pessoas quebradas também. Algumas usavam terno. Outras tinham diploma. Algumas tinham filhos. Outras tinham planos para o fim de semana.
A diferença é que as pessoas conseguem esconder melhor as rachaduras.
A vidraça não.
Ela não tinha autoestima.
Era uma vantagem.
Cheguei mais perto.
Foi então que percebi.
O reflexo não estava exatamente repetindo meus movimentos.
Minha cabeça inclinou um pouco.
A imagem demorou.
Um segundo.
Talvez menos.
O suficiente.
Pisquei.
Ele não.
Aquilo seria engraçado se não fosse tão desagradável.
Dei um passo para trás.
O reflexo continuou perto.
Foi aí que tive a impressão de que ele estava apontando alguma coisa para mim.
Não uma arma de verdade.
Seria mais simples se fosse.
Uma arma resolve a discussão.
O reflexo parecia apontar a própria verdade.
E isso é muito pior.
Fiquei olhando para aquele rosto dividido em pedaços.
Um rosto que eu conhecia.
Ou achava que conhecia.
Havia coisas ali que eu não lembrava de ter colocado.
Cansaço.
Rancor.
Pequenas derrotas cuidadosamente arquivadas.
Algumas pessoas que eu dizia ter esquecido.
Algumas decisões que eu chamava de necessidade porque covardia é uma palavra feia demais para certas ocasiões.
E havia também aquele velho sujeito que passava a vida dizendo que estava tudo bem.
O mentiroso profissional.
Eu.
O reflexo parecia saber.
Isso me incomodou.
A gente passa anos aperfeiçoando versões aceitáveis de si mesmo.
Aprende quando sorrir.
Quando apertar a mão.
Quando dizer “vamos ver”.
Quando dizer “não foi nada”.
Quando dizer “eu já superei”.
É um treinamento longo.
Quase uma carreira.
E então uma vidraça qualquer vem e estraga tudo.
Não há salário que pague isso.
Tentei olhar para o outro lado.
Uma rua.
Um carro.
Uma mulher atravessando.
Um cachorro urinando num poste.
A vida continuava oferecendo suas pequenas distrações.
O mundo é muito eficiente nisso.
Quando você começa a pensar demais, ele manda um cachorro mijar num poste.
Olhei para o cachorro.
Funcionou por três segundos.
Depois meu canto de olho voltou para a vidraça.
O reflexo continuava lá.
Esperando.
Não parecia zangado.
Isso seria fácil.
Parecia apenas decepcionado.
E não há nada mais ofensivo do que a decepção de alguém que não precisa dizer nada.
Fiquei imaginando quantas vezes eu havia passado diante daquela mesma superfície sem perceber.
Talvez todas as pessoas façam isso.
Talvez a cidade inteira seja construída de vidraças.
Portas de vidro.
Janelas.
Espelhos.
Telas de celulares.
Vitrines.
Carros estacionados.
Tudo refletindo alguma coisa.
Tudo devolvendo nossa cara em prestações.
E talvez seja por isso que ninguém olhe direito.
É mais confortável enxergar o preço de uma televisão na vitrine do que enxergar a própria expressão sobre ela.
Mais fácil admirar um carro do que perguntar quem está dirigindo.
Mais fácil procurar alguém bonito do outro lado do vidro do que descobrir quem está deste lado.
Afastei-me.
Desta vez o reflexo acompanhou.
Normal.
Finalmente.
Talvez eu tivesse imaginado tudo.
É uma explicação bastante útil.
A imaginação é o advogado de defesa dos culpados.
Fui embora.
Andei alguns metros.
Então olhei novamente.
Só pelo canto dos olhos.
Ele ainda estava lá.
Pequeno agora.
Fragmentado.
Quase irreconhecível.
Mas ainda apontando aquela coisa para mim.
A verdade.
Continuei andando.
Não olhei para trás.
Pelo menos não diretamente.
Porque algumas verdades não precisam que você as encare.
Elas sabem esperar.
E, quando você pensa que escapou, aparecem refletidas no vidro de um carro, numa janela escura, na tela apagada do telefone.
E ficam ali.
Sem disparar.
Sem gritar.
Sem pedir explicações.
Só apontando.
Até você descobrir que o sujeito do outro lado da vidraça não estava tentando matar você.
Estava apenas tentando impedir que você continuasse mentindo.
morango.
Morango tem uma coisa curiosa, parece frágil, mas nunca passa despercebido.
Talvez seja a cor. Aquele vermelho vivo, quase exagerado, como se tivesse sido feito para chamar atenção mesmo quando está perdido no meio de tantas outras frutas. Talvez seja o contraste entre o doce e o azedo, entre aquilo que parece delicado por fora e aquilo que permanece na boca depois da primeira mordida.
Eu nunca gostei de morango.
E talvez seja justamente isso que torne tudo mais bonito.
Porque, antes de você, morango era só uma coisa que eu não gostava. Não fazia questão, não procurava, não sentia falta. Se estivesse na minha frente, provavelmente eu deixaria para lá.
Até você aparecer e, de algum jeito, me fazer gostar.
Não sei exatamente quando aconteceu. Talvez tenha sido aos poucos, como quase tudo que realmente muda a gente. Um dia eu provei. Depois outro. E, quando percebi, aquilo que antes eu não gostava já tinha se tornado uma das pequenas coisas que eu gostava.
E agora eu gosto de morango.
Só que existe um problema nisso.
Eu gosto de morango e lembro de você.
E talvez você tenha percebido hoje.
Ou talvez não.
Porque eu passei o dia inteiro falando de morango para você.
Morango pra cá.
Morango pra lá.
Uma hora era sobre comer morango, outra era sobre gostar de morango, outra eu simplesmente dava um jeito de colocar morango no meio da conversa.
E você não entendeu.
Achou que eu estava falando de morango.
E eu estava.
Mas não estava só falando de morango.
Esse era o jogo.
Você funciona assim pra mim, como o morango hoje.
E o morango?
Ai vem na cabeça o morango, falo sobre o morango, penso no morango, o morango hoje como foi pra você.
É como se o morango tivesse instalado numa parte lá, e fica chato, repetitivo, e porque você tá falando do morango o dia inteiro? porque você escreve sobre o morango o dia inteiro?
nem você mesma se fosse um morango iria querer ouvir falar do morango o dia inteiro.
Imagina como deve ser para as pessoas que me ouvem falar de morango.
A graça estava justamente em deixar a palavra passar pela sua frente o dia inteiro sem explicar por que ela estava ali. Eu queria ver se, em algum momento, você perceberia que eu estava tentando dizer alguma coisa sem realmente dizer.
Porque, para qualquer outra pessoa, era só uma fruta.
Para mim, era você disfarçada de fruta.
E talvez seja engraçado pensar que eu passei o dia inteiro te falando de morango sem falar de você nenhuma vez.
Ou melhor, falando o tempo inteiro.
Penso nas coisas que você gosta, nos pequenos detalhes que talvez nem perceba que deixou pelo caminho. Na maneira como certos sabores parecem ter sido feitos para você, nas pequenas preferências que foram ficando conhecidas por mim quase sem perceber.
E morango acabou entrando nesse lugar.
Talvez porque tenha a mesma contradição que você carrega. Uma coisa bonita, doce, quase delicada, mas que também sabe ser intensa. Que não precisa fazer esforço para ocupar espaço. Que basta aparecer para mudar alguma coisa ao redor.
E existe uma parte engraçada nisso tudo.
Porque eu posso olhar para um morango hoje e pensar que é só um morango. Posso cortar, comer, deixar de lado. Mas em algum momento vou lembrar que existe uma pessoa que fez aquela fruta significar alguma coisa diferente.
Você me fez gostar de uma coisa que eu nunca gostei.
E talvez você nem saiba o tamanho disso.
Porque algumas pessoas passam pela nossa vida e deixam fotos. Outras deixam frases. Outras deixam lugares.
Você deixou tudo isso, incluindo gostos novos.
Deixou pequenas preferências espalhadas em mim, como se tivesse colocado um pouco de você em coisas que continuam existindo mesmo quando você não está.
E talvez, se algum dia ler essas palavras, vá entender imediatamente.
Talvez você entenda e finalmente perceba que eu estava tentando te contar uma coisa.
Que quando eu dizia morango, eu queria que você pensasse em você.
Que quando eu insistia em morango, talvez estivesse esperando que você percebesse a coincidência.
Que eu nunca gostei de morango.
Mas você me fez gostar.
E agora eu gosto de morango.
E por gostar de morango, eu lembro de você.
Talvez seja justamente por isso que eu não precise dizer seu nome.
Porque morango já basta.
Você sabe.
Eu sei.
E, no fim, existem coisas que só fazem sentido para duas pessoas. O resto do mundo pode olhar e enxergar uma fruta vermelha, bonita, doce, comum.
Eu olho e vejo tudo aquilo que, de alguma maneira, ficou associado a você.
O gosto.
A cor.
As coisas que você gosta.
E aquela brincadeira que você não entendeu .
Talvez agora entenda.
Talvez tenha entendido e só tenha fingido que não.
Mas tudo bem.
Alguns jogos são melhores quando a outra pessoa demora para descobrir a resposta.
E a minha resposta foi simples:
morango.
Porque eu nunca gostei de morango.
Até você.
E agora, toda vez que eu gosto de morango, eu lembro de você.
"Não há fato mais miserável do que o ser que não tem brilho ou sombra própria e precisa eclipsar o brilho do outro. Ter uma sombra exige profundidade. Quem só sabe copiar é tão oco que nem sombra consegue projetar sozinho — precisa da luz alheia até para existir."
- Leandra Pinheiro
A vida não é passeio.
A vida é campo de guerra. E cada dia é uma batalha diferente.
Tem batalha que dói.
É a perda, é a traição, é a porta que bate na cara.
Ela te derruba, te arrasta no chão e te faz duvidar de tudo.
Mas é ela também que te ensina a levantar sozinho.
Tem batalha que liberta.
É quando você diz não pra quem te diminui.
É quando você corta o que te prende.
É quando você escolhe sua paz ao invés da aprovação dos outros.
Essa dói no começo, mas cura pra sempre.
Tem batalha que é silenciosa.
É a que ninguém vê. É dentro da sua cabeça, de madrugada.
É ansiedade, medo, vontade de desistir.
É você contra você. E vencer essa é a maior vitória de todas.
utopia?
Tem dias em que acordar parece menos um começo e mais uma conferência.
Antes mesmo de levantar da cama, existe uma lista invisível esperando por ele. Não são grandes sonhos escritos em papel, nem promessas bonitas feitas para o futuro. São necessidades pequenas, quase ridículas quando colocadas lado a lado, mas que juntas dizem muito sobre quem ele se tornou.
Precisa de dinheiro. Não pelo dinheiro em si, mas pela tranquilidade que ele promete. Precisa guardar, investir, construir alguma coisa que permita olhar para a velhice sem sentir que o futuro é uma ameaça. Existe uma vontade cada vez maior de sair do lugar onde está, conhecer outro país, aprender outra língua, começar de novo em algum canto onde ninguém saiba seu nome.
Precisa ser forte também.
E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis.
Porque existe uma contradição nele que ninguém vê de primeira. Por fora, aprende a ser durão. Engole certas palavras, segura algumas vontades, finge que determinadas coisas não doem. Mas por dentro continua sendo sentimental demais. Ainda se importa. Ainda espera. Ainda sente falta. Ainda consegue transformar uma conversa pequena em alguma coisa enorme dentro da cabeça.
Precisa falar com alguém.
Não necessariamente para ser aconselhado. Às vezes, só precisa encontrar alguém que também esteja cansado de guardar coisas dentro de si. Alguém que não tenha medo do silêncio depois da conversa. Alguém que entenda que existem sentimentos que não querem solução, só companhia.
Precisa escrever também.
Talvez seja por isso que transforma tanta coisa em texto. Porque quando não consegue dizer, escreve. Quando não sabe para quem falar, escreve. Quando alguma lembrança insiste em voltar, escreve. Como se cada palavra colocada no papel fosse uma maneira de impedir que alguma parte dele desaparecesse.
Precisa de uma vitória do Palmeiras, dessas que fazem o mundo parecer menos complicado por algumas horas. Precisa de uma música certa no momento certo. Precisa de uma noite em que o celular fique virado para baixo e a cabeça finalmente fique quieta. Precisa rir de alguma coisa idiota. Precisa encontrar motivos pequenos para continuar acreditando que a vida não é feita apenas das coisas que deram errado.
Precisa cuidar da família.
Precisa cuidar de si.
Precisa ter fé, mesmo quando não entende muito bem o que está esperando.
E, principalmente, precisa de carinho.
Talvez esse seja o item mais difícil de admitir.
Porque dinheiro se procura. Trabalho se conquista. Uma passagem pode ser comprada. Um idioma pode ser aprendido. Um carro pode ser trocado. Uma cidade pode ser deixada para trás.
Mas carinho não funciona assim.
Carinho precisa vir de alguém.
E talvez por isso ainda exista, em algum canto dele, aquela pergunta que não sabe morrer, será que alguém ainda gosta dele? Será que alguma pessoa ainda pensa nele quando uma música toca? Será que alguém sente vontade de mandar uma mensagem e desiste? Será que existe alguém passando pela mesma rua, no mesmo horário, carregando uma saudade que ele desconhece?
Ele não precisa necessariamente de uma resposta.
Precisa apenas saber se ainda existe alguma coisa esperando por ele do outro lado.
E é curioso perceber que, no meio de tantos planos grandes, ele ainda se pega querendo entender coisas pequenas.
Por que o coração insiste justamente onde a razão já colocou uma placa dizendo para não entrar?
E, no fim, talvez seja essa a maior contradição da vida adulta, a gente passa anos tentando descobrir como construir um futuro, enquanto continua fazendo perguntas que parecem ter sido inventadas na infância.
Ele quer dinheiro, uma casa, uma vida em outro lugar, estabilidade, conquistas, viagens, histórias.
Mas também quer ser compreendido.
Quer alguém para conversar.
Quer alguém para amar.
Quer alguém que olhe para toda essa confusão e, em vez de perguntar por que ele é assim, simplesmente diga que entende.
Talvez seja isso que ele esteja procurando.
Não uma vida perfeita.
Só uma vida em que suas necessidades não pareçam exageradas.
Uma vida em que possa ser forte sem precisar esconder que sente.
Em que possa ir embora sem sentir que está fugindo.
Em que possa construir o futuro sem precisar abandonar tudo o que ainda sente.
E talvez, no fundo, ele tenha acordado naquela manhã apenas para descobrir que ainda precisa de muita coisa.
Mas também descobriu uma coisa importante
ainda existe vontade.
E enquanto houver vontade de conhecer o mundo, ganhar dinheiro, escrever, amar, cuidar, acreditar, viajar, torcer, recomeçar e entender por que certas coisas são proibidas sem que ninguém saiba explicar direito…
ainda existe vida acontecendo.
Mesmo que, as vezes, ela pareça apenas uma longa lista de coisas que ele ainda precisa.
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