Morango. Morango tem uma coisa curiosa,... Gabriel Parice Lopes

morango.


Morango tem uma coisa curiosa, parece frágil, mas nunca passa despercebido.


Talvez seja a cor. Aquele vermelho vivo, quase exagerado, como se tivesse sido feito para chamar atenção mesmo quando está perdido no meio de tantas outras frutas. Talvez seja o contraste entre o doce e o azedo, entre aquilo que parece delicado por fora e aquilo que permanece na boca depois da primeira mordida.


Eu nunca gostei de morango.


E talvez seja justamente isso que torne tudo mais bonito.


Porque, antes de você, morango era só uma coisa que eu não gostava. Não fazia questão, não procurava, não sentia falta. Se estivesse na minha frente, provavelmente eu deixaria para lá.


Até você aparecer e, de algum jeito, me fazer gostar.


Não sei exatamente quando aconteceu. Talvez tenha sido aos poucos, como quase tudo que realmente muda a gente. Um dia eu provei. Depois outro. E, quando percebi, aquilo que antes eu não gostava já tinha se tornado uma das pequenas coisas que eu gostava.


E agora eu gosto de morango.


Só que existe um problema nisso.


Eu gosto de morango e lembro de você.


E talvez você tenha percebido hoje.


Ou talvez não.


Porque eu passei o dia inteiro falando de morango para você.


Morango pra cá.


Morango pra lá.


Uma hora era sobre comer morango, outra era sobre gostar de morango, outra eu simplesmente dava um jeito de colocar morango no meio da conversa.


E você não entendeu.


Achou que eu estava falando de morango.


E eu estava.


Mas não estava só falando de morango.


Esse era o jogo.


Você funciona assim pra mim, como o morango hoje.


E o morango?


Ai vem na cabeça o morango, falo sobre o morango, penso no morango, o morango hoje como foi pra você.


É como se o morango tivesse instalado numa parte lá, e fica chato, repetitivo, e porque você tá falando do morango o dia inteiro? porque você escreve sobre o morango o dia inteiro?
nem você mesma se fosse um morango iria querer ouvir falar do morango o dia inteiro.


Imagina como deve ser para as pessoas que me ouvem falar de morango.


A graça estava justamente em deixar a palavra passar pela sua frente o dia inteiro sem explicar por que ela estava ali. Eu queria ver se, em algum momento, você perceberia que eu estava tentando dizer alguma coisa sem realmente dizer.


Porque, para qualquer outra pessoa, era só uma fruta.


Para mim, era você disfarçada de fruta.


E talvez seja engraçado pensar que eu passei o dia inteiro te falando de morango sem falar de você nenhuma vez.


Ou melhor, falando o tempo inteiro.


Penso nas coisas que você gosta, nos pequenos detalhes que talvez nem perceba que deixou pelo caminho. Na maneira como certos sabores parecem ter sido feitos para você, nas pequenas preferências que foram ficando conhecidas por mim quase sem perceber.


E morango acabou entrando nesse lugar.


Talvez porque tenha a mesma contradição que você carrega. Uma coisa bonita, doce, quase delicada, mas que também sabe ser intensa. Que não precisa fazer esforço para ocupar espaço. Que basta aparecer para mudar alguma coisa ao redor.


E existe uma parte engraçada nisso tudo.


Porque eu posso olhar para um morango hoje e pensar que é só um morango. Posso cortar, comer, deixar de lado. Mas em algum momento vou lembrar que existe uma pessoa que fez aquela fruta significar alguma coisa diferente.


Você me fez gostar de uma coisa que eu nunca gostei.


E talvez você nem saiba o tamanho disso.


Porque algumas pessoas passam pela nossa vida e deixam fotos. Outras deixam frases. Outras deixam lugares.


Você deixou tudo isso, incluindo gostos novos.


Deixou pequenas preferências espalhadas em mim, como se tivesse colocado um pouco de você em coisas que continuam existindo mesmo quando você não está.


E talvez, se algum dia ler essas palavras, vá entender imediatamente.


Talvez você entenda e finalmente perceba que eu estava tentando te contar uma coisa.


Que quando eu dizia morango, eu queria que você pensasse em você.


Que quando eu insistia em morango, talvez estivesse esperando que você percebesse a coincidência.


Que eu nunca gostei de morango.


Mas você me fez gostar.


E agora eu gosto de morango.


E por gostar de morango, eu lembro de você.


Talvez seja justamente por isso que eu não precise dizer seu nome.


Porque morango já basta.


Você sabe.


Eu sei.


E, no fim, existem coisas que só fazem sentido para duas pessoas. O resto do mundo pode olhar e enxergar uma fruta vermelha, bonita, doce, comum.


Eu olho e vejo tudo aquilo que, de alguma maneira, ficou associado a você.


O gosto.


A cor.


As coisas que você gosta.


E aquela brincadeira que você não entendeu .


Talvez agora entenda.


Talvez tenha entendido e só tenha fingido que não.


Mas tudo bem.


Alguns jogos são melhores quando a outra pessoa demora para descobrir a resposta.


E a minha resposta foi simples:


morango.


Porque eu nunca gostei de morango.


Até você.


E agora, toda vez que eu gosto de morango, eu lembro de você.