Talvez
Fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, (...) faz de conta que ela não ficava de braços caídos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, (...) faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta (...)
Então não apanhei no chão o que reluzia. Era ouro, meu Deus. Era ouro, talvez.
Sou de gelo por fora e de fogo por dentro. Talvez esse choque térmico faça de mim alguém tão indecifrável, e eu não vou sorrir para agradar ninguém. Então, se quiser, mereça o meu sorriso. Sou repleta de sentimentos. Sou equilibrada e realizada... assim sou eu, com intensas virtudes e uma infinidade de sentimentos, defeitos e qualidades também. É simples assim... sou única, singular.
E foi então que eu descobri uma coisa fantástica, talvez a mais fantástica de todas: quando a gente para de procurar desesperadamente por um amor, a gente percebe que pode amar qualquer coisa. Eu posso amar meu computador, minha rua, minhas fotos, minha empregada, o nhoque da minha mãe. Ou até mesmo uma tarde qualquer e sem grandes emoções como tantas.
Você fala em casar. Algum tempo atrás falei nisso talvez por romantismo, por solidão ou brincadeira, ou mesmo seriamente. Não quero casar. Casamento é uma coisa completamente estúpida.
Talvez as pessoas estejam certas, e você seja realmente tudo aquilo que dizem. Talvez eu realmente mereça algo melhor, alguém melhor. Mas quando eu olho em volta em busca desse alguém que vá me fazer feliz, eu nunca consigo encontrar, porque quando eu olho em volta a única pessoa que eu quero encontrar é você. Talvez eu só queira me iludir e acreditar em algo, talvez eu só ame essa ilusão, essa imagem que eu criei de você. Mas quem ama aceita os defeitos, porque eles também constituem quem você é. E eu não quero ninguém perfeito, não quero ninguém que nunca vá me machucar, porque eu sei que de uma hora para outra todo mundo sempre decepciona alguém. Eu só quero você, imperfeito do jeito que você é. E não do jeito que as pessoas dizem.
Uma viagem bem longa, para bem longe daqui, talvez resolvesse, se é que há mesmo algo para ser resolvido. Mas talvez a solução esteja na paisagem interna, não na externa. Talvez eu possa modificar aquela sem modificar esta. O que eu queria era modificar a duas, de uma só vez. Queria ter o que ver, quando olhasse dentro ou fora de mim.
(...) mas agora, por desprezo pela palavra, talvez enfim eu possa começar a falar.
Talvez já esteja mais do que acidentada para ainda ter que enfrentar essa dor na carne, de verdade, sem ser apenas uma metáfora.
Talvez se eu não tivesse chegado tão perto, nem te tocado tão fundo, nem sido tão eu... talvez houvesse alguma possibilidade.
E talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim nem agora nem aqui.
Saudade: enigma cruciante
que talvez se explique assim:
- quanto mais te sei distante
mais te sinto junto a mim...
(...)Amar também é bom:porque o amor é difícil.
O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta,a maior e última prova,a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação.
Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo,não sabem amar: tem que
aprendê-lo. Com todo o seu ser,com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário,medroso e palpitante,devem aprender a amar.Mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura.
Assim, para quem ama,o amor,por muito tempo e pela vida afora,é solidão,
isolamento cada vez mais intenso e profundo.O amor, antes de tudo,não é o que se chama entregar-se,confundir-se, unir-se a outra pessoa.Que sentido teria, com efeito,a união com algo não esclarecido,inacabado, dependente? O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer,tornar-se algo em si mesmo,tornar-se um mundo para si,por causa de um outro ser;é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz,uma escolha e um chamado para longe.
(...)Creio que aquele amor persiste tão forte e poderoso
em sua memória justamente por ter sido sua primeira solidão
profunda e o primeiro trabalho interior com que moldou a sua vida.(...)
(Cartas a um jovem poeta)
Se eu continuar no controle de tudo, incluindo de mim mesmo, talvez consiga ficar desperto e aqui, não parcialmente aqui, mas aqui, presente, agora.
Talvez um dia o encanto acabe e o elo que nos une seja quebrado.
Pode ser que as cobranças se tornem constantes e as brigas sejam frequentes. Discordaremos de coisas que concordávamos outrora, a tolerância não será mais a mesma. Pode ser que seus olhos não brilhem mais ao me ver, e meu coração não bata mais forte ao ouvir seu nome.
Veremos que a sintonia que tínhamos foi perdida. A cumplicidade não será mais a mesma, e iremos perceber que um abismo foi criado entre nós.
Não teremos a sensação de que o tempo corre devagar quando estamos longe, de que as horas são tão longas.
Em algum momento irei decepcioná-la, então você perceberá que não sou "perfeito" como pensavas. Os defeitos que antes eram quase imperceptíveis se tornarão visíveis. Perceberemos que não somos tão parecidos quanto pensávamos.
Não serei mais o causador dos seus sorrisos bobos, nem conseguirei dizer as palavras que lhe arrancaram suspiros em outros momentos.
Juras de amor não serão mais trocadas e lembraremos que o pra sempre, sempre acaba.
E se esse dia chegar, se essa hipótese se tornar realidade...
Eu quero que você tenha a certeza de que, todos os "eu te amo" que eu lhe disse, foram sinceros e que não me arrependo de tê-los dito. Prometo que guardarei os bons momentos. Lembrarei de você com carinho, sem magóas ou ressentimentos.
Claro que desculpas nem sempre consertam as coisas. Talvez porque usamos demais e de diferentes formas, como uma amar, como fuga. Mas quando realmente estamos arrependidos, quando tentamos consertar, quando realmente queremos e quando consertamos, desculpar é perfeito. Quando fazemos certo, se desculpar é se redimir.
