Talvez

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Talvez o mais silencioso dos naufrágios seja perder a própria identidade enquanto se aprende, pouco a pouco, a representar aquilo que o mundo espera de nós.

A felicidade talvez seja uma porta que só se abre quando deixamos de arrombá-la; há destinos que recuam justamente diante daqueles que tentam possuí-los à força.

O contrário do pecado talvez não seja a perfeição moral, mas a coragem de acreditar que a existência pode ser vivida para além daquilo que nossos próprios limites conseguem demonstrar.

A felicidade talvez não consista em possuir tudo o que se deseja, mas em reduzir o poder que o desejo exerce sobre aquilo que somos.

O destino distribui circunstâncias que não escolhemos; nossa liberdade começa, talvez, na maneira como interpretamos as cartas antes de decidir como jogá-las.

O corpo é a primeira fronteira da consciência e talvez sua mais incômoda verdade: antes de sermos ideias, projetos ou biografias, somos matéria vulnerável atravessando o tempo.

A beleza não elimina a dor, assim como a rosa não revoga os espinhos; talvez a maturidade consista precisamente em aprender a reconhecer a delicadeza sem exigir que o mundo deixe de ferir.

O homem talvez não seja senhor do ser, mas seu mais inquieto guardião, condenado a escutar aquilo que jamais consegue possuir.

Questionar é admitir que aquilo que julgávamos saber talvez fosse apenas uma forma sofisticada de não perguntar.

Talvez apenas o sagrado, e não a técnica, possa devolver ao homem o silêncio necessário para ouvir aquilo que sua própria civilização tornou inaudível.

Talvez o primeiro problema da filosofia seja descobrir se a vida merece ser abandonada antes que tenhamos compreendido por que desejamos abandoná-la.

Viver talvez não seja derrotar o absurdo, mas recusá-lo como argumento suficiente para desistir da existência.

A grandeza humana talvez consista menos em vencer o destino do que em não permitir que ele determine inteiramente o significado de nossa passagem pelo mundo.

Filosofar talvez seja aprender a contemplar a morte sem permitir que ela transforme a vida em mera antecipação do fim.

O corpo é nossa primeira pátria e talvez a única da qual jamais conseguimos verdadeiramente emigrar.

Existir é estar em relação; talvez o isolamento absoluto seja apenas outra maneira de começar a desaparecer.

Talvez todo conhecimento profundo nasça de uma ferida primordial: saber que vamos morrer e, ainda assim, desejar compreender por que vivemos.

Talvez a maior contribuição da ciência à filosofia tenha sido ensinar ao homem que sua intuição não é uma autoridade sobre a realidade.

Talvez a maturidade intelectual consista em sustentar simultaneamente duas ideias: podemos conhecer muito e, ainda assim, ignorar o essencial.

Talvez a verdadeira liberdade intelectual seja esta: poder acreditar sem precisar fingir que acredita saber.