Talvez
Não sei… talvez eu tenha medo de perder isso antes mesmo de descobrir o que é.
Às vezes me pego pensando se ela também está pensando em mim, e, quando percebo, minha cabeça já foi longe demais. Cria possibilidades, interpreta silêncios, transforma pequenos sinais em perguntas que não sei responder.
E então vem a voz dela na minha cabeça.
Será que eu estou sentindo demais?
Será que ela sente alguma coisa também?
Será que eu deveria me aproximar ou esperar?
Será que estou confundindo vontade com sentimento?
Talvez seja isso que mais me assusta: não saber qual dessas perguntas merece uma resposta.
Porque eu quero sentir, mas também quero entender. Quero me permitir, mas não quero me perder. E, no meio de tudo isso, fico tentando descobrir como se reage quando o coração começa a querer alguma coisa antes que a razão consiga explicar o quê.
K.B
Despedidas que Não São Adeus
Eu ainda sou daqueles que não acreditam em despedidas. Talvez porque, ao longo dos meus caminhos, aprendi que algumas pessoas podem se afastar dos nossos olhos, mas jamais conseguem se afastar completamente do nosso coração. Há quem parta para o mundo espiritual e continue caminhando conosco através das lembranças, dos ensinamentos e dos momentos que o tempo não consegue apagar. Há também aqueles que continuam aqui, neste mundo, mas que, por alguma razão, seguiram por outros caminhos. Mesmo assim, permanecem presentes em nossa memória.
Quando alguém que amamos parte, precisamos encontrar uma força que muitas vezes nem sabíamos possuir. Não é fácil aceitar a ausência de quem fazia parte dos nossos dias, das nossas conversas e até dos nossos silêncios. Mas talvez nem todas as perguntas precisem de respostas. Prefiro acreditar que algumas despedidas são desafios que Deus coloca em nosso caminho para nos tornar mais fortes, mais humanos e mais agradecidos.
Acredito também que algumas pessoas passam por nossa vida para nos presentear com momentos, ensinamentos, sorrisos, abraços e exemplos. E, quando partem, deixam sementes que precisam continuar florescendo através de nossas atitudes. Afinal, não somos donos das pessoas que amamos; temos apenas o privilégio de caminhar ao lado delas durante um trecho da nossa jornada.
Por isso, diante de certas despedidas, talvez a palavra mais importante não seja ”adeus”, mas “obrigado”. Obrigado pela companhia, pelo carinho, pelos ensinamentos e por tudo aquilo que ficou dentro de nós. Obrigado a Deus por ter permitido que nossos caminhos se encontrassem, mesmo que por um tempo que hoje pareça tão curto.
Agora percebo que o sentimento de perda, que senti à primeira vista, começa a se transformar em saudade. A dor ainda existe, mas já vem acompanhada de gratidão. E talvez seja essa a grande lição de quem caminha muito: algumas pessoas deixam de caminhar ao nosso lado, mas passam a caminhar dentro de nós.
Por isso, não quero dizer adeus. Quero apenas agradecer e continuar caminhando, levando comigo aqueles que um dia fizeram parte da minha estrada. Porque aprendi como peregrino que existem caminhos que fazemos com os pés e outros que fazemos com o coração. E quem passou pela nossa vida e deixou amor nunca vai embora completamente.
Peregrino Nino Carneiro
Talvez a maior sabedoria seja viver o presente sem esquecer quem fomos e sem abandonar quem ainda podemos nos tornar.
Poema: Acabou!
Não sou o que você sonhou
Mas talvez o que você já imaginou
Mas, nessa poesia
Te falo que não sou polícia
Pra correr atrás de ninguém
Um dia te quis o bem
Não quero o teu mal
Apenas um final
Do raro sentimento
Que existia aqui dentro
Que você matou
Por isso tudo acabou.
O feliz com pouco
Vale o dobro
Não falo de dinheiro
Mas do sentimento verdadeiro
Falo de amor
Que você não deu valor
E tá descansando em paz
Agora procuro minha paz
E amor próprio
Amar eu próprio
A melhor escolha
Pra minha pessoa.
O mundo não é como eu quero, e talvez nunca seja. Cada um muda no seu tempo. É preciso respeitar e entender o tempo e a mudança de cada um. A vida dos outros não me pertence. Cada um tem a sua própria vida, suas próprias escolhas e suas consequências, sejam positivas ou negativas. O único mundo que eu posso mudar é o meu próprio mundo interno.
Viva fazendo o que o mundo espera de você, e talvez seja premiado, elogiado, privilegiado, bem tratado, respeitado e até popular, mas no fim, pode morrer infeliz.
Viva para o seu coração, seguindo o que realmente acredita e sente, e talvez seja desprezado, debochado, ridicularizado, rejeitado, maltratado, ignorado, mas no final, morrerá em paz, satisfeito com a própria escolha.
Se uma pessoa é capaz de me desanimar de algo, talvez esse algo não era algo que eu no fundo gostava tanto assim...
Ninguém é capaz de me desanimar de algo que eu no fundo quero.
Desculpe se minha mania de perseguição é mais aguçada que o seu sexto sentido. Talvez ela apenas tenha o hábito de perceber antes.
Os Mundos Esquecidos
William Contraponto
Talvez já fomos mais do que lembrança,
E o tempo ocultou nossa passagem;
Restou da antiga e vasta confiança
Somente o mito, herança da viagem.
Se o fogo um dia consumiu cidades,
E o mar levou palácios para o chão,
Ficaram só fragmentos e verdades
Guardadas na discreta tradição.
Quem sabe um templo fosse uma oficina,
Ou um saber tornado devoção;
A história, quando o esquecimento inclina,
Reveste a perda com imaginação.
Não digo que essa hipótese é verdade,
Nem quero sugerí-la como religião;
A dúvida preserva a liberdade
De investigar sem qualquer imposição.
Talvez também sejamos só passagem,
Um breve instante à beira da erosão;
O orgulho não resiste à ventania,
Nem vence para sempre a destruição.
Se um novo amanhecer surgir depois,
De outro silêncio feito de poeira,
Que reste a velha pergunta entre nós:
Quantos mundos perdeu a humanidade inteira?
"Sinto dó,
Um sentimento de marcha ré.
Talvez eu sinta por este papel,
Que deve se arrepender por não ser um origami.
Talvez eu só pense assim no sofá.
Será que algo muda se eu vir o nascimento do Sol?
São tantas coisas que só acontecem lá...
Para, no fim do dia, só pensar em si.
Só sentir dó.
E, por isso,
Sinto dó."
Não sei amar pela metade.
Quando amo, mergulho sem reservas.
Talvez o verdadeiro perigo não esteja
em me perder na profundidade de alguém,
mas em descobrir, dentro de mim,
o quanto eu poderia desejar permanecer ali.
"TALVEZ UM DIA, EU TENHA QUE REUNIR OS MEUS FILHOS E LHES DIZER QUE FOMOS DERROTADOS, MAS NÃO PODEREI OLHAR NOS OLHOS DELES E LHES DIZER QUE VIVEM NA MISÉRIA PORQUE O SEU PAI NÃO TEVE CORAGEM DE LUTAR" Mahatma Gandhi
A maior tristeza de um homem altivo é ver os seus filhos na miséria. Ademar de Borba
"Talvez, ao ler isso, você esteja se sentindo perdido. Talvez sinta que perdeu o ritmo ou o rumo em alguma área da sua vida. E eu quero que você saiba: está tudo bem. Na verdade, todo mundo se sente assim, mesmo que ninguém admita.
O segredo que levei tempo para entender é que, se você se sente perdido agora, é porque está buscando o caminho do lado de fora. Mas o mapa nunca esteve lá. Se você silenciar o mundo e olhar para dentro, neste exato momento, você vai encontrar o caminho de volta para casa."
Palavras criam pontes ou abismos.
Curam ou destroem.
Aprisionam ou despertam.
E talvez por isso seja tão poderoso quando alguém usa a própria voz não para diminuir, mas para revelar grandeza em quem já estava quase desistindo de si mesmo.
Porque há frases que a gente escuta…
e há frases que nos transformam para sempre.
Talvez a resposta só pertença a quem escolheu não desistir. Afinal, existem destinos que só encontram aqueles que continuam caminhando, mesmo sem enxergar o fim da estrada.
Será?
Se eu pudesse fazer um último pedido, seria: talvez a resposta que você precisa seja, na verdade, uma pergunta.
Quando foi que você parou e pensou: será que ele não sofre todos os dias também?
Será que tudo não lembra eu pra ele também?
Será que ele sente meu cheiro no vento, como eu sinto o dele?
E quando o vento toca o meu rosto, será que ele sente também? Parece que ele me toca.
Será que ele me sente tocá-lo através do vento?
A Inércia do Êxtase: o poder de permanecer quando o mundo exige movimento
Talvez uma das formas mais difíceis de liberdade seja conseguir ficar parado sem sentir que estamos desperdiçando a própria vida.
Por Felipe Mateus Alessi — Mago Trimegista
Adaptado de Desintegrando a Realidade: O Plano Tridimensional
Vivemos numa época que transformou movimento em virtude. Produzir, responder, trabalhar, consumir, aprender, viajar, crescer, treinar, construir, publicar, melhorar. Sempre existe alguma coisa que ainda deveria estar sendo feita. Mesmo o descanso passou a precisar de justificativa: descansamos para trabalhar melhor, meditamos para produzir mais, dormimos para recuperar desempenho, tiramos férias para voltar renovados. Até o silêncio parece precisar demonstrar alguma utilidade para ser aceito. Criamos uma relação curiosa com a existência: estar vivo parece já não ser suficiente. É preciso provar continuamente que estamos fazendo alguma coisa com o fato de estarmos vivos.
Mas existe outro estado possível: um estado no qual a consciência deixa, por alguns instantes, de correr atrás do mundo. O corpo permanece, a mente desacelera, o tempo perde parte de sua autoridade e aquilo que normalmente chamaríamos de “não fazer nada” começa a revelar uma experiência muito mais complexa. Dei a esse estado um nome: Inércia do Êxtase.
O prazer da permanência
A maioria de nós conhece o prazer da conquista: conseguir aquilo que desejávamos, terminar um trabalho, ganhar dinheiro, vencer uma disputa, receber reconhecimento, chegar a algum lugar. Esses prazeres possuem algo em comum: dependem de movimento. Há um ponto inicial, uma trajetória e algum tipo de chegada. Mas existe outra experiência: o prazer de não precisar chegar.
A Inércia do Êxtase começa quando o movimento deixa temporariamente de ser uma necessidade e a simples experiência de existir torna-se suficiente. Isso não significa tornar-se indiferente ao mundo, abandonar projetos, desistir das responsabilidades ou transformar a preguiça em filosofia. Trata-se de algo mais difícil: permanecer consciente sem ser imediatamente arrastado pela necessidade de agir.
Quando isso acontece, pequenas sensações recuperam uma importância que normalmente perdemos: o ar tocando a pele, o peso das mãos, a respiração, a temperatura do ambiente, o intervalo entre dois sons, o próprio corpo ocupando espaço. Nada extraordinário aconteceu. E, exatamente por isso, algo extraordinário começa a aparecer. Percebemos que grande parte da nossa experiência estava escondida atrás da pressa.
O silêncio não está vazio
Há um problema: quando os estímulos cessam, a paz nem sempre aparece primeiro. Muitas vezes aparece o ruído. Memórias, preocupações, conversas imaginárias, planos, medos, desejos, problemas que ainda nem aconteceram, coisas que deveriam ter sido ditas, coisas que talvez aconteçam amanhã. A mente, acostumada ao movimento, tenta preencher qualquer espaço vazio.
É por isso que permanecer consigo mesmo pode ser desconfortável. Basta observar um pequeno intervalo sem atividade para surgir imediatamente a vontade de pegar o telefone, abrir alguma rede, procurar uma notícia, colocar uma música, enviar uma mensagem, assistir alguma coisa ou pensar no que acontecerá depois. O vazio parece exigir preenchimento. Mas talvez o problema não esteja no vazio. Talvez esteja na nossa incapacidade de permanecer diante dele.
A Inércia do Êxtase nasce justamente nesse limite. Não consiste em destruir os pensamentos, nem em lutar contra eles. O exercício é mais simples: observar sem obedecer imediatamente. A inquietação aparece, e você observa. Um pensamento aparece, e você observa. Uma lembrança atravessa a mente, e você observa. Uma vontade surge, e você observa.
Pouco a pouco, ocorre uma separação fundamental entre duas coisas que normalmente confundimos: ter um impulso e precisar segui-lo. Entre uma coisa e outra existe um espaço. É nesse espaço que começa o governo interior.
A imobilidade da montanha
Uma pedra permanece imóvel porque não possui escolha. A montanha representa outra imagem: ela permanece porque seu centro é profundo. Essa diferença é essencial. A Inércia do Êxtase não é a imobilidade da incapacidade. É a imobilidade daquele que poderia mover-se, mas não precisa fazê-lo imediatamente.
Existe força nisso, talvez até mais força do que imaginamos, porque reagir é fácil. Difícil é escolher se uma reação merece existir. Responder a uma provocação é fácil; difícil é perceber o impulso antes de responder. Comprar é fácil; difícil é observar o desejo antes de obedecê-lo. Falar é fácil; difícil é suportar alguns segundos de silêncio.
Mover-se compulsivamente pode produzir uma aparência de poder, mas nem todo movimento significa liberdade. Às vezes estamos apenas sendo conduzidos por aquilo que nos estimula. Quem não consegue permanecer talvez também não escolha plenamente seus movimentos: corre porque algo mandou correr, consome porque algo despertou desejo, responde porque algo provocou, distrai-se porque o silêncio se tornou insuportável.
Nesse sentido, parar pode tornar-se uma espécie de experiência filosófica. Ao suspender momentaneamente o movimento, começamos a descobrir quais forças estavam nos movendo.
A alquimia da atenção
No Plano Tridimensional, trato a atenção como uma das matérias-primas da alquimia interior. Aquilo para onde dirigimos repetidamente nossa atenção começa a ocupar espaço dentro de nós. E aquilo que ocupa espaço continuamente acaba participando da construção daquilo que chamamos de “eu”.
Por isso, a atenção não é insignificante. Ela alimenta, reforça, seleciona e organiza. Uma mente constantemente fragmentada por estímulos tende a experimentar o mundo de maneira fragmentada. A quietude oferece o movimento contrário: ela reúne. Não porque todas as respostas apareçam, mas porque, por alguns instantes, deixamos de produzir novas perguntas apenas para fugir das anteriores.
Foi nesse processo que construí um pequeno mecanismo simbólico de mudança mental. Quatro imagens: girar a chave, abrir a porta, fechar a janela, virar a página.
Essas palavras não possuem poder por si mesmas. Não são fórmulas secretas nem encantamentos capazes de alterar o universo. Seu valor está no significado que a consciência atribui a elas.
Girar a chave
Representa reconhecer que um estado mental precisa terminar. Nenhuma porta se abre enquanto continuamos segurando a fechadura anterior.
Abrir a porta
Significa aceitar outra possibilidade de percepção, permitir que algo diferente entre e questionar o automatismo.
Fechar a janela
Toda abertura exige também algum limite. Fechar a janela significa reduzir temporariamente os ruídos que continuam tentando invadir o espaço interior. Nem tudo merece nossa atenção.
Virar a página
É reconhecer que compreender algo não significa permanecer eternamente preso a ele. Existem experiências que precisam ser estudadas, experiências que precisam ser atravessadas e experiências que, depois disso, precisam simplesmente ficar para trás.
Girar a chave, abrir a porta, fechar a janela, virar a página. A sequência funciona como uma pequena arquitetura simbólica da mudança.
Nem toda felicidade precisa fazer barulho
Também aprendemos uma ideia estranha sobre felicidade: ela precisa aparecer, produzir sinais, ser visível. A pessoa feliz deveria sorrir, viajar, celebrar, conquistar e mostrar. Quanto maior a felicidade, maior pareceria sua manifestação exterior.
Mas algumas das experiências mais profundas de satisfação possuem exatamente a forma contrária. São silenciosas: uma refeição tranquila, a presença de alguém amado, o corpo descansando depois de um dia longo, uma música ouvida sem pressa, uma tarde em que nada extraordinário aconteceu, a percepção repentina de que, naquele instante, nada está faltando.
Existe uma felicidade que não exige testemunhas, uma felicidade que não precisa ser convertida em espetáculo. Foi essa experiência que me levou à palavra “êxtase”. Não uso êxtase aqui no sentido do excesso. Não é explosão, frenesi ou avalanche de sensações. Na Inércia do Êxtase ocorre quase o contrário: o êxtase aparece quando diminui a necessidade de estímulo.
Existe uma felicidade que não faz barulho, uma alegria que não depende de vitória, um poder que não precisa demonstrar sua força.
O paradoxo do nada
Quanto mais tentamos agarrar uma sensação agradável, mais percebemos que ela escapa. Queremos repetir, intensificar, guardar, garantir que continuará. E, no momento em que começamos a tentar possuir aquilo que estamos sentindo, já deixamos de simplesmente senti-lo.
Esse é um dos paradoxos da Inércia do Êxtase: quanto menos a consciência tenta possuir o instante, mais plenamente consegue habitá-lo. O prazer deixa de depender da expectativa sobre o que virá depois. Não porque o futuro tenha desaparecido, mas porque, naquele momento, ele não precisa ser resolvido.
O passado também continua existindo, mas não precisa ser revivido. Resta o intervalo, o agora, uma região estranha entre aquilo que já terminou e aquilo que ainda não chegou. Grande parte do Plano Tridimensional nasce da tentativa de compreender justamente esses espaços: não destruir os polos, não negar movimento, desejo ou conquista, mas perceber aquilo que existe entre os movimentos.
É nesse ponto que a consciência consegue observar o próprio pêndulo antes de ser arrastada por ele.
Não fugir do mundo, mas retornar a ele
Existe um risco em qualquer filosofia da interioridade: transformar introspecção em fuga. Não é isso que proponho. O objetivo da Inércia do Êxtase não é abandonar a realidade, mas retornar a ela com maior domínio sobre a própria atenção.
Depois da quietude, continuaremos precisando trabalhar, escolher, responder, construir, amar, resolver problemas, pagar contas, errar e recomeçar. A diferença está na origem do movimento. Uma coisa é agir porque estamos sendo arrastados; outra é agir porque decidimos fazê-lo.
Por isso, o repouso consciente não é inimigo da ação. Pode ser justamente aquilo que permite distinguir ação de reação. O mago, dentro da linguagem do Plano Tridimensional, não é aquele que foge do mundo concreto para habitar eternamente o invisível. É aquele que investiga seu mundo interior para retornar ao concreto com maior consciência.
A Alta Magia, nesse sentido, começa muito antes de qualquer ritual externo. Começa na capacidade de conhecer a si mesmo, governar a si mesmo e transformar a si mesmo.
O poder de não precisar provar
Existe ainda outra liberdade escondida nessa experiência: a liberdade de não precisar demonstrar continuamente quem somos. Grande parte do desgaste da vida nasce dessa necessidade. Provar inteligência, força, felicidade, sucesso, importância, razão, vitória e até mesmo paz.
Mas a paz que precisa desesperadamente ser provada já perdeu alguma coisa de sua paz. Na quietude, o valor da experiência deixa de depender da testemunha. Não é necessário convencer ninguém de que determinado instante foi significativo. Ele aconteceu. Você estava lá. Isso basta.
Talvez exista enorme poder nessa ausência de necessidade, porque quem precisa provar constantemente sua força continua dependendo do olhar de quem deveria reconhecê-la. A Inércia do Êxtase aponta para outro caminho: estar inteiro mesmo quando ninguém está olhando.
Permanecer enquanto o universo se move
Não podemos parar o tempo nem interromper o movimento do mundo. As pessoas continuarão mudando, as relações mudarão, o corpo mudará, projetos começarão e terminarão, algumas coisas serão conquistadas e outras serão perdidas. O pêndulo continuará balançando.
Talvez a questão nunca tenha sido fazê-lo parar. Talvez a questão seja descobrir um centro que não precise acompanhar cada oscilação com a mesma intensidade.
Foi assim que comecei a compreender a Inércia do Êxtase: não como fuga, indiferença ou culto à passividade, mas como exercício de soberania interior. A capacidade de permanecer quando tudo exige movimento, observar quando tudo exige reação, sentir sem imediatamente possuir, repousar sem transformar o repouso em culpa e, por alguns instantes, experimentar a existência antes de perguntar o que fazer com ela.
Talvez algumas das formas mais altas de poder sejam quase invisíveis: não levantar a voz, não responder imediatamente, não perseguir toda vontade, não transformar todo silêncio em conteúdo, não converter todo instante em produtividade.
Há uma força que se agita e há uma força que repousa. A primeira é facilmente percebida; a segunda exige atenção. A Inércia do Êxtase começa quando descobrimos que permanecer também pode ser um ato.
E talvez um dos grandes trabalhos da consciência seja exatamente este: aprender a ficar imóvel enquanto o universo continua se movendo.
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Sobre esta investigação
A Inércia do Êxtase integra Desintegrando a Realidade: O Plano Tridimensional, tratado hermético de minha autoria dedicado à investigação da consciência, de suas oscilações e dos processos de transformação interior.
O Plano Tridimensional não pretende oferecer uma doutrina acabada. Seus conceitos são apresentados como instrumentos de observação.
A proposta é simples: desintegrar uma experiência não significa destruí-la. Significa separá-la em partes suficientes para que possamos finalmente enxergá-la.
Felipe Mateus Alessi
Mago Trimegista
O que é a vida?
Talvez não seja resposta, mas travessia.
Não um sopro passageiro, nem um teste de perfeição,
mas a chance diária de crescer em consciência.
Nem tudo será compreendido,
e está tudo bem.
Que sejamos lúcidos, gentis e corajosos,
porque não caminhamos sozinhos .
Deus habita o processo.
FIGURAS CINZAS
Quando a ausência ganha a cor da memória.
Talvez a vida seja como um álbum.
Nascemos com algumas páginas praticamente vazias. Não sabemos quantas existirão, quantas pessoas passarão por elas ou quais histórias serão escritas ao longo do caminho.
Então começamos a preencher.
Primeiro aparecem aqueles que já estavam conosco antes mesmo de compreendermos o significado da palavra família. Pai, mãe, irmãos, avós. Depois chegam os tios, primos, professores, colegas, amigos, amores, filhos, vizinhos e tantas outras pessoas que, de alguma maneira, encontram um espaço em nossas páginas.
Cada uma delas é uma figurinha.
E, enquanto está conosco, é colorida.
Algumas ocupam páginas inteiras. Outras aparecem discretamente em algum canto da nossa história. Há aquelas que permanecem durante décadas e aquelas que passam rapidamente, mas deixam uma marca que não desaparece.
Há figurinhas que trazem alegria.
Outras carregam ensinamentos.
Algumas nos fazem rir.
Outras nos fazem chorar.
Existem aquelas que nos abraçam e aquelas que nos ferem.
Algumas nos amam.
Outras nos decepcionam.
E há aquelas que simplesmente passam por nós sem perceber que, por algum motivo, deixaram uma pequena parte de si em nossa história.
É assim que o álbum vai crescendo.
Página após página.
Ano após ano.
Até que descobrimos uma coisa que ninguém nos ensina verdadeiramente a compreender:
o álbum também muda de cor.
Um dia, uma das figuras coloridas se torna cinza.
Não porque perdeu sua importância.
Não porque deixou de ser amada.
Não porque sua história deixou de ter valor.
Ela se torna cinza porque sua presença terminou e sua memória começou.
É o momento em que alguém parte.
Um avô.
Uma avó.
Um pai.
Uma mãe.
Um irmão.
Um amigo.
Um amor.
Alguém que, talvez, acreditássemos que estaria sempre ali.
E então descobrimos que algumas pessoas não desaparecem exatamente.
Elas apenas mudam de lugar.
Saem do espaço onde podíamos encontrá-las e passam a ocupar outro lugar, muito mais silencioso: a memória.
É por isso que algumas figuras ficam cinzas.
Não são figuras apagadas.
São figuras encerradas.
A história chegou ao seu ponto final.
E talvez seja justamente isso que torne a perda tão dolorosa.
Porque a morte não leva apenas uma pessoa.
Ela leva também a possibilidade de escrever novos capítulos com ela.
Não haverá mais aquela conversa.
Aquela ligação.
Aquele abraço.
Aquela discussão.
Aquela risada.
Aquele conselho.
Aquela presença aparentemente comum que, depois da partida, descobrimos ser extraordinária.
É então que sentimos saudade.
E a saudade talvez seja uma das formas mais silenciosas de amor.
Porque sentimos falta justamente daquilo que teve importância.
Ninguém sente saudade daquilo que nunca significou nada.
A dor da ausência é, de certa forma, a prova de que houve presença.
Talvez por isso devêssemos olhar para nossas figuras cinzas com um pouco mais de ternura.
Elas não representam somente aquilo que perdemos.
Representam também aquilo que tivemos.
Um dia aquela pessoa esteve ali.
Um dia houve convivência.
Houve histórias.
Houve abraços.
Houve conflitos.
Houve perdão.
Houve amor.
Houve vida.
E talvez essa seja a primeira grande lição das figuras cinzas:
não devemos permitir que a tristeza pelo fim apague a beleza do que existiu.
O ponto final não torna inútil a história.
Uma história não perde seu valor porque terminou.
Pelo contrário.
É justamente porque sabemos que ela terminaria algum dia que cada capítulo deveria ter sido vivido com maior intensidade.
A criança que brincou com o avô talvez não soubesse que um dia sentiria falta daquela voz.
O filho que achava cansativo ouvir os conselhos dos pais talvez um dia daria qualquer coisa para escutá-los novamente.
O amigo que sempre esteve por perto talvez só tenha revelado seu verdadeiro valor depois de partir.
A vida possui essa estranha capacidade de nos ensinar o valor das coisas muitas vezes depois que elas deixam de estar disponíveis.
Por isso, talvez devêssemos olhar mais para as figuras coloridas enquanto ainda estão coloridas.
Abraçar enquanto podemos.
Dizer “eu te amo” enquanto a pessoa pode ouvir.
Pedir perdão enquanto ainda existe tempo.
Perdoar enquanto ainda existe oportunidade.
Visitar enquanto a porta ainda pode ser aberta.
Ligar enquanto ainda existe alguém do outro lado da linha.
Porque não sabemos em qual página a cor vai mudar.
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Com o passar dos anos, nosso álbum fica cheio.
E, inevitavelmente, algumas figuras coloridas começam a ficar cinzas.
Isso pode nos assustar.
Quando somos jovens, pensamos que viver é acrescentar pessoas.
Mais tarde descobrimos que viver também é aprender a conviver com as ausências.
Talvez amadurecer seja exatamente isso.
No começo, queremos preencher páginas.
Depois aprendemos a preservar páginas.
E, finalmente, compreendemos que algumas das páginas mais importantes de nossa existência são justamente aquelas que guardam pessoas que já não podemos abraçar.
O álbum da vida não é composto apenas pelas pessoas que permaneceram.
Ele também é formado por aqueles que partiram.
Somos, de certa maneira, uma coleção de pessoas.
Carregamos expressões que aprendemos com nossos pais.
Gestos dos nossos avós.
Conselhos de professores.
Histórias de amigos.
Manias de irmãos.
Lembranças de antigos amores.
Feridas deixadas por algumas pessoas.
Perdões oferecidos por outras.
Somos também aquilo que recebemos daqueles que passaram por nossa vida.
Talvez sejamos um pouco de cada pessoa que realmente nos tocou.
E, nesse sentido, as figuras cinzas continuam participando do álbum.
Elas já não podem acrescentar novos capítulos à própria história, mas continuam influenciando a nossa.
O avô que partiu pode continuar ensinando através de uma frase que repetimos.
A mãe pode continuar presente em um gesto que aprendemos.
O pai pode continuar vivendo em uma maneira de trabalhar, cuidar ou enfrentar dificuldades.
O amigo pode continuar provocando um sorriso quando lembramos de determinada história.
A pessoa que amamos pode continuar existindo na forma como aprendemos a amar.
É assim que a memória desafia a ausência.
Ela não devolve fisicamente quem partiu.
Mas impede que tudo aquilo que aquela pessoa representou desapareça completamente.
Enquanto alguém se lembrar, alguma parte daquela história continua existindo.
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Talvez seja por isso que o cinza não deva ser entendido apenas como a cor da tristeza.
O cinza também pode ser a cor da permanência.
É a cor de uma presença que deixou de ser física, mas não deixou de ser significativa.
É a cor da memória.
E memória não é o contrário da vida.
É uma das maneiras pelas quais a vida continua dentro de nós.
Existe, então, uma esperança escondida nas figuras cinzas.
A esperança de que aquilo que foi verdadeiro não seja completamente perdido.
A esperança de que o amor não termine simplesmente porque o abraço terminou.
A esperança de que uma história possa continuar produzindo frutos mesmo depois de seu último capítulo.
Talvez a morte encerre uma existência, mas não consiga apagar todas as consequências de uma vida.
Uma pessoa pode partir e ainda permanecer na maneira como alguém pensa, educa, ama, trabalha, perdoa ou enfrenta o mundo.
Nesse sentido, algumas pessoas continuam vivendo através daqueles que deixaram para trás.
---
Imagine, então, alguém chegando ao final da própria vida e abrindo seu álbum.
Haverá muitas figuras coloridas.
Mas haverá também muitas figuras cinzas.
Algumas provocarão lágrimas.
Outras trarão risos.
Algumas despertarão arrependimento.
Outras, gratidão.
Talvez algumas páginas sejam difíceis de olhar.
Talvez existam pessoas que gostaríamos de encontrar novamente.
Talvez existam outras das quais gostaríamos de nos despedir melhor.
Mas todas elas terão alguma coisa em comum:
fizeram parte da história.
E talvez, naquele momento, seja possível compreender algo que levamos uma vida inteira para aprender.
O objetivo nunca foi manter todas as figuras coloridas.
Isso seria impossível.
O objetivo era viver.
Amar.
Conhecer.
Errar.
Perdoar.
Aprender.
Construir histórias.
Preencher páginas.
E, quando algumas figuras inevitavelmente mudassem de cor, ter memória suficiente para olhar para elas e dizer:
“Eu tive você na minha vida.”
Talvez essa seja uma das maiores formas de gratidão que podemos oferecer aos que partiram.
Não apenas chorar porque eles se foram.
Mas agradecer porque um dia estiveram conosco.
Porque, quando transformamos a lembrança em gratidão, a ausência começa a dividir espaço com a esperança.
E então percebemos algo ainda mais bonito.
O álbum não terminou.
Ainda existem páginas vazias.
Ainda existem pessoas que não conhecemos.
Amizades que ainda não começaram.
Abraços que ainda não demos.
Lugares onde ainda não estivemos.
Amores que ainda podem chegar.
Histórias que ainda não foram escritas.
E, principalmente, ainda podemos ser a figurinha colorida na vida de alguém.
Talvez seja essa a grande responsabilidade de estar vivo.
Enquanto nossas páginas ainda estão sendo preenchidas, precisamos cuidar da cor que deixamos nas páginas dos outros.
Porque um dia, para alguém, também seremos memória.
E quando esse dia chegar, talvez não sejamos lembrados pelo tamanho da nossa casa, pelo dinheiro que acumulamos, pelos cargos que ocupamos ou pelas coisas que possuímos.
Talvez sejamos lembrados por uma conversa.
Por um abraço.
Por uma ajuda.
Por uma palavra.
Por uma presença.
Por um momento em que fizemos alguém sentir que não estava sozinho.
No fim, talvez seja isso que realmente permaneça.
As coisas passam.
As pessoas partem.
As páginas viram.
As cores mudam.
Mas algumas histórias continuam.
E talvez a vida seja exatamente isso:
um álbum que começa vazio, se enche de cores e, lentamente, vai adquirindo tons de cinza.
Não devemos temer o cinza.
Porque o cinza nos lembra que houve cor.
E se ainda dói olhar para determinada figura, talvez seja porque aquela pessoa ainda possui um lugar dentro de nós.
Por isso, quando sentir saudade, não pense apenas na ausência.
Volte à página.
Olhe a figura.
Lembre da voz.
Lembre do sorriso.
Lembre da história.
E agradeça.
Porque nem todos têm a sorte de possuir uma memória que ainda dói.
Às vezes, a dor da saudade é simplesmente o coração dizendo:
“Isso foi importante.”
E talvez seja essa a esperança escondida nas figuras cinzas.
Algumas pessoas deixam de estar ao nosso lado, mas nunca deixam de fazer parte de quem somos.
O álbum continua aberto.
Ainda há páginas.
Ainda há cores.
Ainda há vida.
Preencha-as.
