Talvez
A memória é o erro mais cruel da consciência. Se o esquecimento fosse completo, talvez a existência fosse apenas suportável. Mas a lucidez nos condena a conservar aquilo que mais desejávamos ver dissolvido. Cada lembrança regressa não para consolar, mas para demonstrar que nenhuma dor termina; ela apenas muda de profundidade.
O tempo nunca cura. O tempo apenas ensina a dor a permanecer em silêncio. Sob a aparência da serenidade, continuam respirando os rostos perdidos, as palavras irremediáveis, os instantes que morreram sem nunca aceitar o próprio fim. Carregamos um cemitério inteiro dentro do peito, e chamamos essa lenta decomposição de vida.
A saudade não homenageia o amor; ela denuncia o fracasso de tudo o que ousou desafiar o desaparecimento. Amar profundamente é assinar, sem perceber, um pacto com uma ausência futura. Quanto maior o amor, mais vasta será a ruína que ele deixará para trás.
Talvez seja por isso que a memória nunca nos abandone. Ela sabe que, quando a última lembrança desaparecer, também desaparecerá a última prova de que existimos para alguém. E essa possibilidade é ainda mais aterradora do que a própria morte.
No fim, não sobrevivemos às perdas. Apenas aprendemos a caminhar com elas como quem arrasta o próprio cadáver, esperando que o esquecimento chegue antes da última lembrança — embora, no fundo, saibamos que ele quase nunca chega.
- Tiago Scheimann
A maturidade talvez seja apenas o instante em que compreendemos que nenhuma conquista consegue negociar com a transitoriedade.
Talvez a forma mais insidiosa do sofrimento seja continuar acreditando na beleza, mesmo depois de testemunhar, repetidas vezes, a crueldade do mundo.
A condição humana talvez se resuma a isto: caminhar entre o desejo de compreender o infinito e a inevitável limitação de uma vida demasiadamente breve para alcançá-lo.
Orar talvez seja a última forma de honestidade que resta ao homem. Não porque o céu necessariamente responda, mas porque, diante do silêncio absoluto, desaparece a necessidade de fingir força. A oração não convence Deus; ela desarma o orgulho de quem finalmente reconhece a própria impotência.
- Tiago Scheimann
"A força talvez não esteja em sentir-se sempre seguro, mas em conseguir agir na própria direção mesmo quando culpa, medo ou hábitos antigos aparecem."
Talvez o esquecimento seja apenas o rascunho do eterno, esperando que a história que se perdeu na areia do tempo seja recontada pelo silêncio das pedras, onde o ontem e o amanhã se encontram no mesmo grão do presente.
Reno Fioraso
Talvez o amor não chegue fazendo barulho. Talvez ele vá chegando devagar, ocupando espaços que a gente nem percebe: no pensamento que insiste, na saudade que aparece do nada, no sorriso que surge só de lembrar de alguém.
E, quando a gente percebe, já aconteceu. O coração escolheu sem pedir permissão. E entre tantas pessoas no mundo, encontrou justamente você.
O maior aprendizado sobre Gestão de Pessoas talvez seja este:
por trás de cada nome existe uma pessoa — com sentimentos,
talentos, sonhos e o direito de ser respeitada e valorizada.
A maior força de uma Constituição talvez esteja menos no poder que concede ao Estado do que no poder que impede o Estado de exercer.
Escrever ideias que toquem a mente é difícil. Se soubesse música, talvez tocasse a alma em vez de escrever.
Eu gosto muito de você!
Mas não sei porque eu "Gosto".
Te admiro tanto!
...Talvez eu goste tanto
pelo fato de;
"Não saber porque eu gosto de você."
Talvez amadurecer seja perceber que segurança demais também cobra juros — e quase sempre paga-se com aquilo que poderia ter sido.
Um dia, talvez você olhe para trás e perceba: não era o abismo que parecia tão grande. Era a sua vida que estava pequena demais para continuar cabendo onde você insistia em ficar.
Qual foi a última vez que você lembrou que está vivo?
Talvez quando sentiu dor, talvez quando sentiu a cura.
Talvez vendo a chuva, talvez em uma noite escura.
Talvez na solitude, talvez em uma aventura.
Talvez a vida seja sobre a completude do processo, semelhante a um filme; persistir mesmo sabendo que há um fim quase certo.
Onde foi que nos perdemos?
Nunca tivemos tantas possibilidades de aproximação e, talvez, nunca tenha sido tão difícil encontrar quem realmente esteja disposto a se aproximar. Estamos conectados o tempo inteiro, acompanhando a vida uns dos outros, compartilhando imagens, opiniões, conquistas e fragmentos de intimidade. Mas, entre tantas conexões, alguma coisa parece estar se perdendo: a disposição de olhar para além de nós mesmos.
Tenho pensado sobre os tempos em que vivemos, sobre a maneira como as relações se tornaram frágeis, como a intolerância ganhou espaço e como parece cada vez mais difícil flexibilizar uma opinião, compreender uma ausência, acolher uma limitação ou simplesmente considerar que o outro também tem suas dores, seus dias difíceis e suas próprias batalhas silenciosas.
Parece que estamos sempre prontos para exigir, mas nem sempre dispostos a compreender. Queremos ser aceitos, mas temos dificuldade em acolher o que é diferente de nós. Queremos ser lembrados, mas esquecemos de lembrar. Reivindicamos presença, mas nem sempre sabemos estar presentes. E, nessa conta em que cada um parece preocupado demais com o que recebe, quem ainda se ocupa daquilo que pode oferecer?
As redes sociais talvez não tenham criado essa distância, mas deram a ela uma vitrine. Aprendemos a exibir o que vivemos, a selecionar o que mostramos e a transformar até os sentimentos em pequenas apresentações. Há imagens de felicidade por toda parte, declarações sobre amor, discursos sobre empatia e frases bonitas sobre humanidade. Mas o que acontece quando a vida deixa de ser uma publicação e passa a exigir de nós alguma atitude? Quando alguém precisa de paciência, de escuta, de compreensão ou de uma presença que não rende aplausos nem pode ser exibida?
É nesse momento que conhecemos a distância entre aquilo que se diz e aquilo que se é.
Não acredito que tenhamos vindo ao mundo para dar conta de tudo sozinhos. É verdade que existem caminhos que ninguém pode percorrer por nós. A fé é pessoal, a consciência nos pertence e cada um responderá pelas próprias escolhas. Há travessias que são íntimas, dores que não conseguimos traduzir e despedidas que ninguém pode viver em nosso lugar. Mas uma coisa é reconhecer a individualidade da nossa existência; outra, muito diferente, é transformar isso em justificativa para a indiferença.
Nascemos dependentes de outros braços, crescemos necessitando de afeto e atravessamos a vida procurando, de tantas maneiras, um lugar onde possamos existir sem precisar nos defender o tempo inteiro. Até quem aprendeu a se bastar conhece, em algum momento, o desejo de ser compreendido, de dividir uma descoberta, de encontrar alguém com quem o silêncio não seja ausência, mas companhia.
A vida é individual em sua essência, mas a experiência de viver também é um exercício de encontro. Somos feitos de vínculos, de trocas, de mãos que nos sustentaram, de palavras que nos salvaram de dias difíceis e de pessoas que acrescentaram alguma coisa àquilo que somos. Ninguém se constrói inteiramente sozinho. Há muito de nós que nasceu do cuidado de alguém.
Talvez seja isso que estejamos esquecendo: unidade não significa pensar igual, concordar com tudo ou abrir mão de quem somos. Unidade é compreender que nossas diferenças não precisam nos transformar em adversários. É saber ceder sem se anular, ouvir sem preparar imediatamente uma defesa, dividir sem calcular cada parcela, acrescentar sem precisar ocupar o centro. É ter cumplicidade suficiente para entender que nem toda dificuldade do outro é um problema a ser resolvido; às vezes, é apenas uma dor que precisa ser respeitada.
E o amor? Talvez não tenha desaparecido. Talvez esteja apenas perdendo espaço para o orgulho, para a pressa, para o medo de se envolver e para essa necessidade constante de preservar a própria conveniência. Porque amar também exige flexibilidade. Exige sair, por alguns instantes, da posição confortável de quem acredita ter sempre razão. Exige reconhecer que o outro não existe para corresponder perfeitamente às nossas expectativas e que ninguém atravessa a vida sem precisar, em algum momento, da compreensão que hoje se recusa a oferecer.
O amor não se sustenta apenas naquilo que sentimos. Ele também se revela na maneira como tratamos as pessoas quando estamos contrariados, quando elas já não podem nos oferecer nada, quando suas fragilidades interrompem nossos planos ou quando compreender exige mais de nós do que simplesmente julgar.
Talvez a pergunta não seja quando o amor esfriou, mas em que momento começamos a considerar dispensável tudo aquilo que o mantém vivo.
Não precisamos de um mundo em que todos sejam íntimos, amigos ou concordem entre si. Precisamos de um mundo em que a humanidade do outro não dependa da nossa afinidade com ele. Em que a gentileza não seja privilégio de quem amamos, a empatia não seja seletiva e o respeito não desapareça diante da primeira divergência.
Afinal, viemos sozinhos e, de alguma maneira, também partiremos sozinhos. Mas entre uma coisa e outra existe uma vida inteira, e é nela que podemos escolher o que faremos com a presença uns dos outros.
Podemos atravessá-la como ilhas, defendendo nossas margens e desconfiando de qualquer aproximação. Ou podemos compreender que há uma diferença imensa entre ser responsável pela própria caminhada e acreditar que não precisamos de ninguém.
Eu ainda acredito na importância de somar. De ser abrigo sem aprisionar, de oferecer sem humilhar, de compreender sem precisar concordar, de permanecer quando a presença é necessária e de reconhecer que a vida de alguém pode se tornar menos pesada porque, em algum momento, decidimos não ser indiferentes.
Não sei exatamente onde foi que nos perdemos. Mas sei que não será construindo muros cada vez mais altos em torno de nós mesmos que voltaremos a nos encontrar.
Talvez ainda haja tempo de reaprender o essencial: que a nossa passagem é breve demais para desperdiçarmos a humanidade uns dos outros. E que, se não podemos impedir todas as dores, ao menos não façamos da indiferença mais uma delas.
Talvez a primeira lucidez humana tenha sido descobrir que a própria inteligência não é soberana sobre tudo aquilo que existe.
