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Um cristão sem fome insaciável de ser como Cristo pode ter tudo o que tiver, mas será sempre miserável, pobre, cego e nu.
A porta do café a abrigava. A pequena bíblia, em silêncio eloquente, suplicava por alimento para o corpo que a acolhia. Pois, em nosso mundo, a fome havia se sobreposto à fé.
Rodrigo Gael
Mata a fome que te mata
Come o pedaço de pão
Caído no chão e desfigurado
Come aquilo que te come
Às pressas, mas come
Come sem saborear
Apenas ao som do mastigar de pedaços
Com o estalar das mandíbulas desesperadas
E o ranger dos dentes amarelados pelo tempo.
Não podem ser pessoas boas
aquelas que fazem parte do 1% da população
que detém mais de 90% da riqueza mundial.
Pessoas que acumulam até o final de suas vidas
uma fortuna que elas nunca serão capazes de consumir,
enquanto bilhões de pessoas passam por dificuldades financeiras,
passam fome, adoecem e morrem.
Tais pessoas extremamente ricas
são a mais completa expressão do egoísmo humano.
São culpadas, ainda que involuntariamente,
da maior parte dos males do mundo.
Em cada pedaço de filé que consomem,
degustam a fome de crianças raquíticas ávidas por um pedaço de pão.
Em cada taça de vinho ou de champanhe que tomam,
bebem o sangue daqueles que adoeceram e morreram
por falta de um tratamento médico adequado.
Em cada dia de lazer do qual desfrutam em lugares paradisíacos,
desfrutam da dor e do terror daqueles que sofrem
a violência urbana ou nas regiões de conflito.
Não há o que admirar na saga de quem tanto acumula.
Não são mais do que vermes que chafurdam em prazeres pagos
às custas da miséria da civilização humana.
Estamos em um mundo de contrastes, entre a fome e a fama, a escassez e o excesso, como sempre foi. Ainda assim, o dia amanhece pleno de gratidão, desafiando todo senso comum.
Da fome à fama, a vida é uma jornada de superação que começa como uma história pessoal e se torna uma inspiração para muitos.
Do que acreditar na relatividade da fome, se os roncos não acalmam os nossos intestinos, este país continua com hemorroida de tanto forçar os sentimentos com as fezes.
[...]
Porque este é o humano: cruel, desalmado e incapaz de carregar remorso,
Semelhante ao lobo, que dilacera a ovelha indiferente ao sangue que tinge seu pelo e ao pecado que impregna sua alma.
Enquanto houver fome, não haverá força capaz de socorrer a presa.
