Superfície
Na superfície habita a luz, 4 mil quilômetros abaixo habita a escuridão total, uma depressão colossal que te faz insignificante.
Fantasmas afogados
Fantasmas afogados não subirão a superfície.
Pois quando no leito, forjei sua prisão
Lançada no mar com suas amarras
Morreu orgulhosa com a faca na mão
O sangue inocente já foi derramado
Enquanto apanhava seus cacos no chão
O tempo implacável parou um instante
O mundo calou sua sinfonia
Ouviu-se batidas de um coração
Fugindo cansado dessa tirania
Tirando da lama a fera encharcada
Depois te devora, por pura ironia
Fantasmas afogados não subirão a superfície.
Palavras pronunciadas trarão o seu preço
Covardes fugirão do poder da verdade
Os frutos, plantados, terão endereço
O Sol raiará forte, mais uma vez
E vida trará justo recomeço
A caveira que falava demais e morreu pois falava!
O cubismo da superfície trata da ideia em si.
Para falar no senso comum o papel do ser falante...
Pois ignora a ideia é estar quebrado.
Perdeu seu retrato por falta de palavras...
A maturidade ensina-me o valor real das coisas e das pessoas, não me atrai o que está na superfície, aprendi olhar o que não está nu aos olhos comuns.
Me atrai mais que que está coberto do que aquilo que apelar e se despe facilmente.
Ser sensível não é fraqueza, é habilidade de sentir o mundo além da superfície, é perceber dores escondidas e amores silenciosos, é ser intensidade pura em um corpo limitado,
e isso, por si só, é superpoder.
O tempo é a água ácida que dissolve a superfície, levando a espuma e o adorno, o que resiste à erosão é a densidade bruta da essência, o mineral que não se rende ao esquecimento.
Os outros enxergam a superfície, só eu conheço o terremoto interno. E é no tremor constante que descubro minha real resistência. Pois quem treme, vive. E quem vive, formula sentido até no abismo.
O tempo é um escultor que usa a dor como cinzel para esculpir em nós uma beleza que a superfície desconhece, uma luz que só emana de quem já foi moído pelas engrenagens do destino e se reconstruiu com o ouro da experiência. A vida não nos deve nada, e é nessa falta de garantias que encontramos a nossa maior liberdade. No fim, o que resta não é o que acumulamos, mas a forma como permitimos que a existência nos atravessasse, transformando o nosso barro em estrela.
- Tiago Scheimann
A Liberdade do Seu Mar
A sua alma é profunda e a sua superfície é bela, desfruta de uma certa espontaneidade; a sua liberdade é muito notória, faz parte de todo o seu ser; busca proteger a sua valiosa integridade, cuja essencialidade é bastante intensa — certamente, atributos peculiares de uma natureza grandiosa, singular, que a cada raiar do sol se renova.
A maneira com a qual a sua personalidade vai se expressar muitas vezes é imprevisível, chamativa, aprazível; tem seus admiradores e nem sempre agrada, mas não se importa, depende do momento, do clima, do tempo, pode estar tranquila ou agitada, solitária ou receptiva — uma expressão verdadeira que, de qualquer forma, se destaca.
Sendo assim, liberta, cheia de intensidade e imponência, ela se conecta facilmente com o mar e a sua farta expressividade, que vai muito além da linda aparência das suas ondas — o vaivém de águas e belas curvas —, levando em conta também a profundidade da sua transparência; não que tudo dela esteja revelado, pois isso é apenas uma limitada interpretação poética.
O Orvalho da Existência
O ar se resfria,
a superfície perde calor,
e no instante preciso,
o vapor se torna gota.
É a física da condensação,
a dança invisível das moléculas,
obedecendo às leis imutáveis
do ponto de orvalho.
Mas além da ciência,
há o mistério do instante:
a gota que nasce da noite
é metáfora da vida.
Tudo o que somos
condensa-se no breve,
na fragilidade que brilha
antes de se dissolver ao sol.
Assim o orvalho ensina:
a beleza está na transição,
na fronteira entre o invisível e o real,
entre o efêmero e o eterno.
Não é fácil mensurar à superfície aquilo que apenas tomamos em profundidade. E a recíproca é impossível.
Apenas um toque define a superfície de um objeto
Apenas um beijo comprova a maciez dos lábios de alguém
Apenas um grito salva o dia
Apenas uma palavra destrói sonhos
Apenas uma ideia sobrevive no tempo
Apenas um suicido me tornaria feliz
o dos meus sentimentos
Ele evaporou como água ao tocar em uma superfície quente. Partiu sem me dar esperanças de retorno, levando consigo partes de mim que já o pertencia. Me restando saudades e certas lembranças, que jamais poderei dizer que são infelizes. É. Eu sinto falta dele, do seu cheiro, de seu aconchego saudável.
Só Deus conhece a profundeza da alma de cada um... Mas olhando pela superfície vemos muita gente oca, ao mesmo tempo que vemos muita gente que transborda coisas boas... Se é verdadeiro ou não, voltamos à questão de que, apenas Deus sabe !!!
De Peixes
Mora na superfície, e nada na profundeza
É Inconstante, de difícil localização
Está intensamente afastado
Seu lugar, é a contradição.
Querido peixe, tenha mais exatidão.
Reluz em seus olhos a obsessão,
Cuidado peixinho, a ansiedade devora!
Teimoso, não me ouve, abocanha mais uma isca
Sorte que você ainda é pequeno!
E teve a chance de escapar.
Mas, peixinho você está crescendo
E o mar não é só diversão.
Tenha mais cuidado, você não é tubarão.
Peixe fui nadar,
Te cuida!
Se nós, meras sementes mergulhadas na terra, não acreditarmos que podemos alcançar a superfície, morreremos sem ser a árvore que absorve os primeiros raios de sol.
