Soneto da Falsidade de Vinicius de Moraes
Somos Uma Só Carne...
Somos uma só carne, um corpo só,
uma só alegria, um só lamento,
uma baixeza, um alto pensamento —
a grandeza divina em nosso pó.
Somos Judas e a luta de Jacó,
o Balaão safado em seu jumento,
a Canaã de angústia e sonhamento,
tédio de Salomão, sofrer de Jó.
Somos Ana abençoada por Eli,
somos Tomé e aquele centurião...
e a bravura e a baixeza de Davi.
Somos a confiança de Abraão
no silêncio de Sara que sorri...
e as águas do Jaboque e do Jordão.
LA
Tu És Um Homem...
Tu és um homem, não um pobre rato —
tu vieste do sonho para a vida,
da vida com o dom de renascida,
da vida que é um poema e não relato.
Tu és um homem, não um coelho ou pato —
tu vieste da Mão que te convida
ao retorno genial da mais subida
estirpe do nascido: além do fato.
Tu és um homem, esse vasto sonho —
o sopro constelado (sonho inconho)
na argila pelo próprio Criador.
Tu és um homem, cujo dom descansa
na luz eterna de perene amor —
brilhas mais que a mais plácida esperança.
LA
A Noite Inteira, Nega...
A noite inteira, nega, revirei
que revirei você em minha mente
tentando despejá-la inutilmente,
mandá-la para o quinto e mais nem sei,
nem sei pra que país nem tribo ou grei,
contanto me deixasse bem urgente
em paz e a sós comigo eternamente,
eternamente sem ninguém nem lei
E fizeram-se eternos os segundos:
me reentrava de lado e pelos fundos
de toda a mente, sem nenhum chiquê
Aí (que alívio!) o telefone toca,
fui atender (que alívio: me desfoca...),
fui correndo atender: era você.
LA
Há Um Medo Gostoso
Há um medo gostoso, se te espero.
O amor é sempre aquela porcelana
tão frágil sempre, sempre tão humana —
o amor é e não é: tal como um zero.
Sim, um medo gostoso, mas severo
como o olhar que protege, mas esgana...
como a alma que sonha, mas se engana...
pedra rara incrustada sem esmero.
Sempre um medo gostoso na esperança
de se alcançar a flor que ao vento dança...
Sempre um suor a rorejar a espera.
Sim, um suor gostoso, mas medroso
a ponto de tirar da espera o gozo...
O amor é sempre aquilo que não era.
LA
CREPÚSCULO
Vê-se no silêncio, e vê, pela janela
O cerrado, eclodindo pra vespertina
Melancólico, perece o sol, e mofina
Outro fim de tarde, e a noite vela...
E ai! termina mais um dia, e revela
As horas, que a viveza se amotina
De sua rapidez, pérfida e assassina
Tão sem troco... - um atributo dela!
A melancolia no horizonte, é saudade
As sobras das lembranças, é desgosto
E o que se resta agora é outra idade...
Olhos rasos d’água narram o sol posto
Lúrido, duma emoção em calamidade
- de o crepúsculo do tempo no rosto!
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
17/03/2026, 17'00" - Cerrado goiano
Olavobilaquiando
O GRILO ANOSO
Um grilo cantador, de rimas cheio,
Canta as dores de mim, em plena mata.
Sabe ser companheiro, enquanto canta
O que existe em minh’alma de mais feio.
Lá sarcástico, carpe o pranto alheio
Dos amores, dos sonhos… do que resta!
Faz mais bela a canção, demais funesta,
Do desdenhado amor que trago ao seio!
Por calvários da vida, lastimoso,
Quem me alegra é somente o grilo anoso
Que a cantar me traz paz, embalo e sorte!
Bem-fadado é este grilo venturoso
Que mais nada lhe importa para o gozo…
E em paz canta aguardando a doce morte!
.....
António Chaúque / 2007
(In: Fímbrias do Mar de Amor)
CÉU NOTURNO
Vem a noite no céu do meu roçado,
Posso ver as estrelas bem ao lado.
Não há postes, fumaça, impureza,
Só céu limpo, ar puro, natureza.
Parece até um quadro bem pintado.
E a Lua? Lado tão iluminado!
Vejo do telescópio, com clareza,
Via Láctea, céu limpo e beleza!
Constelação, cometa, meteoro…
Astrônomo? Sou mero amador.
Mas no cosmos, eu nada ignoro!
Céu noturno, imenso esplendor!
Tens noção do quanto te adoro?
Mais que os sóis e todo o seu ardor.
Patagônia
No sul da América, eu vejo os Andes,
O navio para a Antártida a caminho,
Pelicano, pinguim, leão marinho,
Trilhas, estepes e montanhas grandes.
Raiar da manhã, clima que se abrande.
Ó, albatroz, canta e retorna ao ninho.
No fim do mundo, não estou sozinho.
À terra glaciar que eu viande.
Cruzei fronteiras, ó Torres del Paine,
Dos bosques, da floresta temperada,
Dos lagos e rios! Vida que se aplaine.
Ó, Perito Moreno congelada,
Vem com teu vento frio e nos amaine.
Patagônia, tu és abençoada!
"SOLIDÃO"
Hoje me sinto sozinho
Sem teu amor, sem teu carinho.
Mas não sinto falta da frustração:
Como é linda a solidão.
Onde está meu coração?
Veja bem, já não preciso disso,
Já não me incomodo com isso:
Como é linda a solidão.
Cometi uma calamidade,
Que os deuses me perdoem,
Inventei de ceder à vontade;
Vontade de viver,
Que os deuses me perdoem,
Viver sem você.
AMA-ME MUITO!
Vilma Oliveira
Ama-me meu amor, e por que não?
Fúlgidos rubis entontecidos...
São os meus nos teus lábios unidos
Meu coração dentro do teu coração!
É uma febre-terçã que de mansinho
Toma todo nosso corpo, a Alma...
Aos poucos se esvai e se acalma
A febre, o rubor devagarzinho...
Amemos meu amor, que tudo passa,
Célere como o dia, vens me abrasa!
Deixa-me presa aos sonhos teus...!
Amemos meu amor, que o mundo é vão,
Beija-me! A fumaça é a ilusão...
A saudade tua, os devaneios meus!
ANDORINHAS MORTAS
Vilma Oliveira
O meu sonho a evocar-se altivo e forte
Em coroas de ouro a palpitar delírios
Poentes de novembro doces martírios
Ao pó do esquecimento até a morte!
Nesse horizonte de bruma opalizado
Onde mergulho a alma lírica e pagã
Falenas entontecidas, flor da manhã,
Rosais celestes em canteiros sagrados!
Pus-me a fitar o efêmero, o nada,
Em ritmos fleumáticos, extasiada,
A miragem fugidia do meu jardim;
Mísero pungir dessa chaga aberta,
As andorinhas mortas, a vida incerta,
A esvair-se em sangue dentro de mim!
ASAS DO VENTO
Vilma Oliveira
Se essa voz do vento murmurasse
Aos teus ouvidos, os meus desejos,
Na minha, a tua boca calasse...
Teus lábios, a me tocar com beijos!
Se o silêncio da noite despertasse
Os teus sonhos de luzes coloridas
Cada estrela do céu não se apagasse
Ao ver-me sem a Luz da tua Vida!
Nas asas do vento vou colher rosas,
Em nuvens pesadas e vaporosas...
Contidas pelo pranto que me invade;
A primavera saudosa de nós dois...
No arrebol da longa espera, no depois,
Vergel florido a recompor saudades!
" Fiz "
De tudo eu fiz pra que valesse a pena
e, para tal, de muito eu abri mão
movido por amor e por paixão
na entrega verdadeiramente plena!...
Fiz como pude e como o coração,
sangrando tanto afeto nessa arena
imposta no querer que me condena,
mandou-me amar com tanta devoção.
Se hoje se difere a nossa estrada
e nem sequer te sintas mais amada
eu sei que, do que pesa, a culpa é minha...
Por condenado, fiz o meu destino
sabendo que serei qual peregrino
na solidão em que a alma em mim caminha!
Quando eu morrer
Por mais que venha me doer
E eu tenha que gemer
Espero que o fim não venha surpreender.
Pois antes quero me arrepender
Subir e a Deus ver
Não descer.
Quando eu morrer
Não quero tristeza nem sofrer
E sim que façam chover
Lagrimas de lembranças pelo meu feliz viver.
Mas que minha morte venha ser
Mais um motivo pra seguir e vencer.
Quando um dia eu for
Que meu objetos energizados de amor
Quero que cuidem com o mesmo valor.
Pois já que não os posso levar
Que boas recordações deem quando desempoeirar.
Quando um dia eu for
Espero não deixar rancor
Espero que saibam perdoar.
Sei que nunca fui um bom cantor
Mas que herdem meu dom de emanar
E os males e dor, cantar até espantar
A flor e o sol
Por céus e terras viajei
Vi o horizonte que inventei
Na esperança de saber
O que de fato, vim fazer
Ninguém sabia me explicar
E a angústia tomou conta do lugar
De repente ouvi o sol dizer
A luz está no silêncio que não faz
O girassol precisa de espaço para brotar
Iluminado é a força para esquivar-se
Céu é o limite para arte de se encontrar
Não adianta procurar um lugar
A felicidade é tão singela
Que pode passar por ela sem enxergar
Soneto: autoria #Andrea_Domingues ©
Todos os direitos autorais reservados 25/08/2020 às 14:00 hrs
Manter créditos de autoria original _Andrea Domingues
Já ouvi do amor mil promessas
e compartilhei minhas esperanças
entre as penas de duras andanças
e as desgraças de vis remessas.
Promessas de fidedigna pureza,
tenros dias, cálidas madrugadas
Dores remotas, ledices abafadas,
toda mofina e nenhuma riqueza!
Hei vingar-me desse tal amor,
amando sem amor e sem glória.
Hei vingar-me de todo estupor
que é fruto da impoluta vitória
da esperança vazia de rancor,
amando sempre a cada história.
VALER
Eu poetizarei um momento de riqueza
por uns termos tão poéticos e ditosos
que assinalem aos infelizes invejosos
a satisfação, esse bem que da certeza
Escreverei alacridades sem dureza
suspirando mimos tão carinhosos
que jamais serão atos caprichosos
pois, são vindos da doce gentileza
Pra quem servir, não tenho segredo
no agrado, é belo como o horizonte
do cerrado, com estupendo enredo
Nessa corrente, se sente, é fonte
de amor, paz, onde não há medo
inutilmente, e nem desmonte! ...
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
22/11/2020, 08’40” – Araguari, MG
DESENCONTRO
"É tão triste
A alma poetisa
encontrar
um coração analfabeto!
A rima treme nos lábios
Engasga poema no peito
Agoniza quadra discreta
Morre e vira soneto.
Num livro. "
(O sepulcro predileto.)
ÉRIDA
Sem chão nem Fé, me vi flagelado
bem apegado a um Amor tinhoso.
Devaneando, morto, ao Sol do Descaso,
vi o mundo ruir. Abismo vultoso.
O bailar de Érida, Corpo equilibrado,
vinha mostrar seu Passo virtuoso.
Era o Baile corrente, aclamado,
tecido nos Saltos sem pouso.
E veio o Sonho: e foi desperdiçado!
E veio a Morte: o luto renovado,
o espinho encravado em meu pé!
Tudo indicava o Sol! Fiquei embaixo,
na Prisão que estive e em que me acho,
a Sonhar e a bailar, sem chão nem Fé!
ALIANÇA
Invisível é a flama que arde na troca do olhar
DIvino é o enlace das almas no beijo de saudade
MeIgo e doce abraço, és o terno arauto de felicidade
Oh! lInda jóia, devotada em minha vida a apaziguar
Verde oLhar, preciosas esmeraldas me encantaram
Nas caudaLosas ondas, lapidados guilhões de metal louro
Suaves pétaLas alvo-luz, envolvem e adornam igual tesouro
Torpes laços, Linde beleza que minhas quimeras cobiçaram
O Amor é uma doMinante centelha, que o venturo norteia
Transcendem as priMaveras, tormentas e o eterno porvir
Nossas memórias perManecem, legadas ao afeto que semeia
Frutos, que de ti, graciosA flor, d'alma vossa raiou e descendeia
Em teus braços oh! virtuosaA, lânguido descanso ei de dormir
És desvelo, esposa e amante, te Amo além do anel que nos laceia
Edson Depieri
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