Laerte Antônio

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SENSAÇÕES-VIAGENS

Há sensações que são barcos
enquanto velejamos
no oceano interior da vida.

Há sentimentos que são portos
num gosto adiado de chegar:
um sabor de lonjuras,
cristalizadas em azuis,
lembrando o verde das vagas
de um nômade fluir,
distantes, azulizantes...

Sensações barcos,
sentimentos portos —
enfunados de um vento azul,
indo e vindo,
daqui, dali,
azul azul azul...
Sinestesias de um viajar interno,
vestido de amplidão e pensamento
no vasto sabor anil e sal,
entre o glauco arfar das ondas
e vôos lonjuras de gaivotas...

Laerte Antônio
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Impossível não se molhar em suas
feminices... não saborear os sóis
de seu corpo, não degustar-lhe as luas....
o vinho de seus duplos arrebóis...
Impossível não descalçar as luvas
e afagar devagar seus caracóis...
e lento-lento saborear-lhe as uvas
com você de sandálias nos lençóis...
Impossível não lhe dizer que tudo
vira uma gargalhada, sobretudo
quando lá não está o seu sorriso...
Impossível dizer que são eternas
as rosas... pois que perco a classe e o siso
se toco a grife e o charme dessas pernas...

Laerte Antônio
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O que não dura encanta,
já o que dura
quase sempre aborrece.
Bem por isso é que as rosas são eternas.
LA

Laerte Antônio

Eu até te esqueceria
não fosse a safadeza dos teus olhos.
LA

Laerte Antônio
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Lá fora o vento bale
como ovelha perdida
de seu pastor.
A noite é densa,
mas sei que a luz virá —
e isto faz toda a diferença.
LA

Laerte Antônio
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Ser enganado é bem menos terrível
se quem o engana
não é você mesmo.
LA

Laerte Antônio
Inserida por laerte_antonio

Nossa consciência é um livro de brochura
de que ainda não abrimos
aquelas páginas coladas.
LA

Laerte Antônio
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O efêmero
só é um modo
de compreendermos
o eterno.

Laerte Antônio
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Com o tempo, falar
nos torna conhecidos
de nós mesmos.
LA

Laerte Antônio
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Passe-se a limpo,
copie-se —
até achar que ficou bom.
LA

Laerte Antônio
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Quando você chegou
já estava tudo aqui.
Quando você se for
só levará o que você é.
LA

Laerte Antônio
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Ame sem moderação
e beba com castidade.
LA

Laerte Antônio
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Tchau, que já estou achando
o que não perdi.
E se não perdi,
achar não é meu.
LA

Laerte Antônio
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Saudades

Dos amores que não tive
por preguiça de tê-los
hoje sinto saudades
de não poder sofrê-los.
Saudades masoquistas —
com ou sem analistas.
LA

Laerte Antônio
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Minha vizinha Eulália é tão bonita,
tão de todas as coisas deliciosa,
que o marido perdeu toda a esperança
de ser o artilheiro do seu time.
LA

Laerte Antônio
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Pra fora da caverna
sempre há outra caverna
onde a verdade hiberna
sua mentira eterna.
LA

Laerte Antônio
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Marli? Era uma festa...
e dava apoio logístico
para olhos esperançosos.
LA

Laerte Antônio
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Chegar

Chegar é só estar em outro porto —
pronto para partir... a jornada interior
é apenas estar de volta para Casa...
a que quando chegamos
ela volta a se tornar caminho —
sempre caminho de ser
onde Deus nos espera
dentro de nós.
LA

Laerte Antônio
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Saga Do Herói

Quando nos agarramos às saudades,
sem dúvida, é porque nosso presente
está uma daquelas... bem fedidas...
Mas que fazer, Glorinha, que fazer

nesta hora tão sem pétalas, sem cores?...
.................................................
Talvez fosse melhor não ter nascido!...
Se bem que... como iríamos saber
que nossos males, nossas dores, penas

não valiam o heroísmo de sofrê-las?
...................................................
Por isso, minha amiga, vamos rir!...
Sim, — se possível — rir e gargalhar...

E agradecer a Deus que ao ser humano
lhe permite a bravura de lutar —
lutar heroicamente... e se enganar.
LA

Laerte Antônio
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Era Chique, Era Bom...

Era chique, era bom sentir o frio
de outono-inverno em nossa carne moça.
Era assim como um rio, um grande rio
marulhando por nós em dom e força.

Nariz e pernas frias... doce cio
a coruscar nas vísceras... a nossa
pele arrepiada ao ressoprar macio
da noite toda olhos... noite moça...

Era chique, era bom, era divino:
eras minha menina, e eu teu menino —
a vida um sonho bem da cor da lava...

De sorte, nega, que eu já te esperava:
meu coração sentia quando vinhas —
tuas saudades a transar com as minhas.
LA

Laerte Antônio
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Madrugadas

Era bom despertar carente e falto
Em meio à noite, Nina, e procurar...
Buscar suave e tenso: cabisalto,
Por entre a samambaia ciliar...

Os dedos orvalhados no cobalto
De sonhos celestiais sempre a buscar
O instante de passar, de dar o salto
Da relva pra ribeira: mergulhar...

Entrar-lhe pela vinha devagar
A lhe apalpar os cachos com ardor —
Seu corpo todo-inteiro vindimar...

Com os lábios a roçar-lhe a boca e a face
Eu ia lhe servindo o bom licor
Até que sua taça transbordasse...
LA

Laerte Antônio
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Mas Venha De Verão...

Quando você, do Carmo, se lembrar
que moro junto à flauta do Espraiado —
venha ouvir um pedaço musicado
de tarde com o vento a gorjear...

Mas venha de verão: a esvoaçar...
de salto e violão bem afinado —
à sombraluz de um sonho mosqueado,
com guizos nos artelhos a dançar...

Depois nos coçaremos ( sem sapatos ),
você me tira, amor, os carrapatos
e corta aquela unha do dedão...

E depois de depois, me fará rir
com cócegas por toda a região...
e me balança e cansa até eu dormir.

Laerte Antônio
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Não Raro Esqueço...

Não raro esqueço de saber as coisas
para aprendê-las do outro lado delas,
vê-las nos olhos dentro: vê-las na alma
ou vê-las além delas existirem:

um vê-las-pensamento-sentimento
ganhando forças de imaginação
pousando em outras muitas realidades,
táteis no olhar, se bem que imponderáveis...

Desmontar as palavras uma a uma
para achar no esquecido de saber
seus arcanos guardados nas entranhas

E fazer delas límpidas canções
que nos cantem num tom jamais sabido
novos timbres lembrados em ouvi-las.
LA

Laerte Antônio
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Aeróbia Musa

Ah, Musa, se te pego! Espera só!
Tu andas inspirando o meu vizinho, —
deixas-me só: jogado aqui sozinho
e levas a outro o teu borogodó!

Quase um mês de securas... não tens dó...
Tu me negas, safada, o teu carinho
e cantarolas desde bem cedinho
como a dizer que sou teu zé-coió...

Se bem que, ciúme à parte, fazes bem
em servir dois ou mais de cada vez...
Diz o adágio: Tem um o que dois tem.

Sim, fazes muito bem, aeróbia Musa,
saber de português, economês
e do quadrado da hipotenusa.
LA

Laerte Antônio
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Somos Uma Só Carne...

Somos uma só carne, um corpo só,
uma só alegria, um só lamento,
uma baixeza, um alto pensamento —
a grandeza divina em nosso pó.

Somos Judas e a luta de Jacó,
o Balaão safado em seu jumento,
a Canaã de angústia e sonhamento,
tédio de Salomão, sofrer de Jó.

Somos Ana abençoada por Eli,
somos Tomé e aquele centurião...
e a bravura e a baixeza de Davi.

Somos a confiança de Abraão
no silêncio de Sara que sorri...
e as águas do Jaboque e do Jordão.
LA

Laerte Antônio
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