Soneto da Falsidade de Vinicius de Moraes

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A verdade literária nunca poderá ser a verdade da natureza.

Ninguém se pode gabar de nunca haver sido desprezado.

O verdadeiro amor só conhece a igualdade.

Quando a consciência nos acusa, o interesse ordinariamente nos defende.

Os empregos que por intrigas e facções se alcançam, por facções e intrigas se perdem.

Lamentamos sempre aquilo que damos aos maus.

Torna-se indispensável manter o vigor do corpo, para conservar o do espírito.

Parece, na verdade, que nós nos servimos das nossas orações como de um jargão e como aqueles que empregam as palavras santas e divinas em feitiçarias e em efeitos de magia.

O gosto de contentar um amigo é um demónio tentador.

Os homens são sempre mais verbosos e fecundos em queixar-se das injúrias do que em agradecer os benefícios.

A verdade é tão simples que não deleita: são os erros e ficções que pela sua variedade nos encantam.

Uma boa recordação talvez seja cá na Terra mais autêntica do que a felicidade.

Os oradores dão-nos em comprimento aquilo que lhes falta em profundidade.

Para os doentes, o mundo começa na cabeceira e acaba no pé da sua cama.

É tão fácil o prometer, e tão difícil o cumprir, que há bem poucas pessoas que cumpram as suas promessas.

Os mais arrojados em falar são ordinariamente os menos profundos em saber.

Não emprestes, não disputes, não maldigas, e não terás de te arrepender.

Ao bater com a cabeça contra as paredes, apenas conseguiu «galos».

As nossas únicas verdades, homem, são as nossas dores.

Para não corar diante da sua vítima, o homem, que começou por feri-la, mata-a.