Saudades de Quem Mora longe
Ainda não há um modo de nossa proximidade, mesmo que distante, não alterar a temperatura aqui dentro.
A Praça.
Hoje eu acordei com saudade de você
Beijei aquela foto que você me ofertou
Sentei naquele banco da pracinha só porque
Foi lá que começou o nosso amor
Senti que os passarinhos todos me reconheceram
Pois eles entenderam toda minha solidão
Ficaram tão tristonhos e até emudeceram
Aí então eu fiz esta canção
A mesma praça, o mesmo banco
As mesmas flores, o mesmo jardim
Tudo é igual, mas estou triste
Porque não tenho você perto de mim
Beijei aquela árvore tão linda onde eu
Com meu canivete um coração desenhei
Escrevi no coração meu nome junto ao teu
E meu grande amor então eu jurei
O guarda ainda é o mesmo que um dia me pegou
Roubando uma rosa amarela pra você
Ainda tem balanço, tem gangorra, meu amor
Crianças que não param de correr
Aquele bom velhinho pipoqueiro foi quem viu
Quando envergonhado de amor eu lhe falei
Ainda é o mesmo sorveteiro que assistiu
Ao primeiro beijo que lhe dei
A gente vai crescendo, vai crescendo e o tempo passa
E nunca esqueci a felicidade que encontrei
Sempre eu vou lembrar do nosso banco na praça
Foi lá que começou o nosso amor
A distância física é um mero detalhe geográfico; o mapa do meu coração permanece fixado em você. Mesmo longe, o silêncio absoluto do meu quarto reproduz a clareza dolorosa da sua voz doce e do seu abraço apertado, meu eterno porto seguro.Fecho os olhos e reencontro o seu olhar, aquela forma soberana que só você tinha de me ler por inteiro, sem pronunciar uma única palavra. Lembro exatamente da primeira vez que te vi pessoalmente. Guardo cada detalhe daquele dia na mente, como se fosse hoje. Você emanava uma luz tão pura que o resto do mundo simplesmente emudeceu ao redor. Sempre admirei como a sua presença animava o meu dia, a sua elegância e a dignidade bonita com que assume as suas verdades. Você possui uma inteligência sensível, daquelas que não precisam gritar para serem vistas, e uma generosidade que abraça até as dores alheias. Olhava para a sua postura diante da vida e sentia um orgulho miúdo, quase infantil, pelo privilégio de caminhar ao seu lado. Você me fazia querer ser um homem melhor só para conseguir acompanhar a grandeza da sua alma. Não sou perfeito, longe disso, mas guardo uma certeza absoluta: eu conheci o amor de verdade, e foi com você.Às vezes, a noite cai e me pega mergulhado em perguntas inquietantes, tentando entender os rumos que tomamos. Hoje, carrego o peso sufocante de saber que te perdi por besteira, por orgulho e por falhas puramente minhas. Fomos a sintonia mais bonita que o mundo já viu, e eu joguei tudo para o alto por imaturidade. Até no momento da nossa ruptura, a sua postura me desarmou. Enquanto eu me afogava em egoísmo, você manteve uma lucidez dolorosa, mas impecável. Nenhuma linha que eu escreva será capaz de alcançar a nobreza com que lidou com o meu desmoronamento. Lembro perfeitamente de quando brigamos uma vez e você me avisou que eu iria me arrepender. Estava coberta de razão. Eu ainda não me conformo com a minha própria estupidez.Chorei em muitas madrugadas em claro, admito o cansaço, mas recusei-me a deixar o tempo apagar o que fomos. Decidi transformar essa saudade no mais profundo respeito pela nossa história. Guardo cada palavra boa que me disse como um tesouro sagrado, inviolável e totalmente protegido da ausência. Hoje, olho de longe e continuo aplaudindo a mulher espetacular que você se torna a cada dia. Admiro a sua força mansa para recomeçar, a doçura que preservou intacta mesmo quando a vida foi dura, e essa capacidade quase divina de sorrir para o mundo. Você é a raridade que o destino só apresenta uma vez.Nossas almas foram afastadas pelas circunstâncias, mas continuam ligadas por um fio invisível de admiração. Eu nunca te esqueci. Sei, com toda a convicção da minha existência, que você também carrega um pedaço de mim. Amar você, mesmo neste isolamento, é a prova irrefutável de que vivi algo real, nobre e eterno.Sei que o tempo não para e que você está seguindo o seu caminho. Por mais que rasgue o meu peito e doa aceitar essa realidade, entendi que também preciso dar os meus passos. Mas caminhar para a frente não significa te apagar. Mesmo no futuro, mesmo que o destino me leve para longe, uma parte de mim estará guardada ali, naquele instante em que fomos nós dois contra o mundo.Onde quer que esteja agora, saiba que existe alguém aqui que torce pelo seu sorriso e que mantém viva a memória do nosso grande amor. Eu posso ter te perdido, mas o meu respeito por você jamais será desgastado pelo tempo. Você sempre terá um lugar sagrado na minha história; não como uma ferida, mas como o capítulo mais bonito de toda a minha vida.
Saudade do que foi vivido
Sinto saudade não do que faltou,
mas do que existiu inteiro,
do riso que aconteceu sem esforço,
do tempo em que o corpo não doía por lembrar.
É uma saudade estranha,
porque não pede volta,
só reconhecimento.
Ela diz: isso foi real, isso me atravessou.
Tenho saudade do jeito que eu era
quando aquilo cabia em mim,
quando o mundo não pesava tanto
e amar não exigia sobrevivência.
Não é ausência.
É memória viva.
Algo que passou, mas não morreu.
Algo que vivi, e por isso, deixou marca.
Saudade é isso:
não um buraco,
mas uma cicatriz quente
provando que houve vida ali.
San Telmo
Tenho saudade de San Telmo
não como lembrança bonita,
mas como falta física.
Daquelas que apertam o peito sem pedir licença.
Saudade das ruas gastas,
do chão que já ouviu passos demais
e ainda assim sustenta quem passa.
Ali, o tempo não corre. Ele observa.
Sinto falta do cheiro antigo das casas,
do tango escapando pelas esquinas
como quem não quer ser esquecido.
Em San Telmo, até o silêncio tem memória.
Ali eu era parte do cenário,
não visita.
O bairro me reconhecia
antes mesmo de eu dizer meu nome.
Hoje carrego San Telmo dentro,
feito ferida que não infecciona,
mas também não fecha.
É casa que virou ausência.
Não dói por ser passado.
Dói porque ainda é meu.
Há quem olhe de longe
não por saudade,
mas por inquietação.
Curiosidade não é cuidado.
É a pergunta que se faz
sem coragem de escutar a resposta.
Quem observa em silêncio
costuma carregar dúvidas
que não sustenta em voz alta.
Espia para confirmar
se a escolha feita
ainda se justifica.
Mas olhar não é presença.
E visitar não é permanecer.
Há histórias que não aceitam plateia
de quem escolheu não ficar.
Algumas portas seguem visíveis
não por convite,
mas por transparência.
Outras jamais se reabrem,
mesmo quando vistas.
E se alguém entende ao ler,
entende porque sabe.
Curiosidade reconhece
aquilo que não foi resolvido.
Desapego não é ausência de amor.
É a decisão de não se diminuir para mantê-lo.
Amadurecer emocionalmente é aceitar três coisas duras:
Nem todo sentimento vira reciprocidade.
Nem toda conexão vira permanência.
Nem todo valor é reconhecido por quem o recebe.
O erro comum é tentar “ensinar” o outro a perceber.
Mas percepção não se força. Ou a pessoa alcança, ou não.
Nem toda saudade significa que a pessoa precisa voltar. Às vezes ela só marcou território dentro da memória.
