Relógio Parado
O relógio da parede sempre atrasa três batimentos quando você me olha. Não é tempo, é frequência. Existe uma cor que ainda não inventaram, uma mistura de silêncio de domingo com o som do seu nome antes de ser dito. Eu a vejo toda vez que suas mãos costuram o ar entre nós, sem nós, apenas o tecido fino da gravidade.
DeBrunoParaCarla
Foi observando o relógio
Que percebi que o tempo
é bicho estranho
Quando observei
nem vi o tempo passar
Eu ainda estava no ontem
Não deixe pra amanhã
O que se pode fazer hoje
Por que o tempo passa rápido
hoje é o amanhã
e o futuro já é ontem
O tempo é um relógio que não para,
mesmo quando a alma pede pausa.
Ele segue, firme, marcando ausências,
levando embora o que não volta mais.
Mas também traz novos começos,
mesmo quando o coração duvida.
Porque o tempo não é só partida—
é, também, a chance de recomeçar.
Helaine Machado
Os rios são encontros das águas, onde a vida nunca para, não há relógio que pare ela, nem mesmo o curso…
…que segue sem pedir licença ao tempo,
levando histórias nas curvas da correnteza,
beijando pedras, lavando caminhos antigos,
como se cada gota soubesse seu destino.
Helaine machado
"O momento passa rápido, mas o que nos marca fica num tipo de eternidade que o relógio não alcança."
Hoje acordei com um relógio mastigando nuvens, e a parede sussurrava alfabetos em espiral. Três cadeiras dançavam xadrez sobre o teto, enquanto meu nome virava vapor dentro de uma xícara vazia. A rua, lá fora, era um aquário de buzinas; eu caminhava sem pés, colecionando sombras como moedas furadas. Um pássaro de papel me pediu senha, e eu respondi com silêncio em braile. Tudo parecia erro de tradução: risos que não pertenciam, cores que tinham gosto de ferrugem.
Então percebi o fio: cada imagem era um recado do corpo. O relógio eram meus prazos, as nuvens, a ansiedade. A parede repetia o que eu evito dizer. As cadeiras no teto eram as conversas que deixei para depois. As moedas furadas, a energia que gasto tentando agradar. O pássaro de papel era meu pedido de ajuda, dobrado e escondido.
Quando coloquei a mão no peito, o aquário virou janela. Respirei, sentei, e desliguei o telefone por cinco minutos; ouvi o próprio coração batendo, sem metáforas, e finalmente entendi o idioma da manhã. Escrevi uma linha simples: hoje eu vou me escolher.
O relógio suspirava em espirais douradas enquanto a bússola dormia de bruços, agulha perdida em seu próprio coração. A cachoeira subia em silêncio — gota a gota, nascendo do rio, voando para as montanhas, esquecendo que um dia foi nuvem. A lua, então, era apenas o reflexo de um tabuleiro de xadrez jogando sozinho há milênios, onde brancas e pretas trocavam segredos de boca fechada. A dama de copas tirou a coroa e virou rio, depois vapor, depois pergunta suspensa no ar. Os pensamentos, esses, nunca existiram de verdade — eram apenas o eco de movimentos que o relógio prometia mas nunca cumpria, horas que se recusavam a nascer. E quando a bússola despertou, finalmente soube: norte é onde a cachoeira descansa, sul é a lua fingindo ser lua, leste e oeste são as duas cores do tabuleiro dançando em círculos. A dama sorriu, porque entendeu — ser rainha era nunca ter sido peça, apenas água disfarçada de coroa, tempo disfarçado de estratégia, direção disfarçada de perda. Tudo faz sentido quando aceitamos que é o sentido natural da existência.
Às vezes imagino um relógio que anda para trás. Os ponteiros giram devagar, desfazendo os dias, trazendo de volta momentos que já se foram. As palavras duras que disse voltam para dentro da boca. As lágrimas que caíram secam e desaparecem. O tempo, que costuma correr sem piedade, de repente obedece ao meu desejo mais secreto: voltar.
Nesse relógio invertido, eu poderia consertar erros, abraçar quem perdi, dizer “eu te amo” antes que fosse tarde. Poderia viver de novo as risadas simples, os cafés tranquilos, os sonhos que deixei dormir. Mas será que eu realmente mudaria tudo? Ou será que, no fundo, esses erros e dores são o que me trouxeram até aqui?
O relógio que anda para trás nos faz sonhar com uma segunda chance. Ele revela o quanto carregamos arrependimento no peito. No entanto, talvez a verdadeira sabedoria esteja em aceitar que o tempo só anda para frente. Os ponteiros não voltam. O que podemos fazer é olhar para trás com carinho, aprender com o que ficou e viver o agora com mais presença e menos pressa.
INSÔNIA
Tique-taque-tique-taque
Tique-taque-tique-taque
As batidas do relógio na minha cabeça, por mais levesque sejam
são um martírio, são um tormento.
Por que o relógio me bate tanto?
Por que ele não dorme por um tempo?
Devia bater de hora em hora
para que a insônia fosse embora
e o silêncio me deixasse dormir.
Mas o relógio do tempo não dorme
e não me deixa dormir.
Por que o relógio me bate tanto?
Por que ele não dorme por um tempo?
Tique-taque-tique-taque
Tique-taque-tique-taque
Escrevo qualquer coisa,
sem pressa,
no calor do dia.
Olho o relógio,
já não tenho tempo.
Sinto a brisa do vento:
é a inspiração chegando.
De longe,
teu cheiro me alcança,
e o amor se aproxima.
Eu demorei, mas demorei mesmo, daquele tipo de atraso emocional que não aparece no relógio, só no peito, para entender que o amor, às vezes, é uma espécie de teatro interno onde eu mesma escrevo o roteiro, dirijo a cena e ainda me emociono como se fosse tudo absolutamente real. E veja só, eu ganhando prêmio de melhor atriz de um relacionamento que só existia metade. Metade não, sejamos generosas, um terço… porque a outra parte estava ocupada demais colecionando aplausos em outros palcos.
É curioso como a memória tem esse talento meio cínico de selecionar cenas. Eu me lembro perfeitamente do momento em que disse “eu te amo” pela primeira vez, abraçada, chorando, como se estivesse entregando um pedaço de mim que não vinha com manual de devolução. Naquele instante, era verdadeiro. E isso ninguém tira de mim. O problema nunca foi o que eu senti, foi o que eu construí em cima disso. Eu não amei só uma pessoa, eu amei uma narrativa inteira, uma saga digna de várias temporadas, com direito a final feliz, trilha sonora e filhos correndo no quintal que só existia na minha cabeça.
Enquanto isso, ele… ah, ele era jovem, leve, solto, quase um turista emocional. Passava, olhava, sorria, colecionava experiências como quem junta figurinhas repetidas. E eu ali, me sentindo edição limitada. Olha a audácia da minha ilusão. Eu, que escrevia “bíblias” inteiras sobre um futuro compartilhado, enquanto ele mal lia o resumo da contracapa. Não era maldade, era descompasso. Eu estava vivendo um romance, ele estava vivendo um momento.
E o mais bonito e mais doloroso de admitir é que o meu amor era real, sim. Não foi mentira, não foi invenção no sentido vazio. Foi sentimento de verdade direcionado para uma história que eu amplifiquei além do que existia. É como plantar uma árvore num terreno que nunca foi seu e depois estranhar quando alguém constrói um muro ali. A culpa não é da árvore, nem da semente. Mas talvez da expectativa de que o mundo ia respeitar algo que só eu sabia que estava crescendo.
Hoje, quando eu olho para trás, não sinto mais aquela vontade desesperada de reescrever o passado. Eu olho com uma espécie de carinho maduro, quase irônico. Como quem vê uma versão mais jovem de si mesma acreditando que intensidade é sinônimo de reciprocidade. Não é. Intensidade é só intensidade. Amor mesmo precisa de resposta, de presença, de construção conjunta. Sozinha, eu não estava vivendo um amor, eu estava sustentando uma fantasia muito bem alimentada.
E tem uma liberdade silenciosa nisso tudo. Porque quando eu entendo que não perdi exatamente alguém, mas sim uma ideia, tudo muda de lugar dentro de mim. Eu não fui rejeitada como pessoa, eu só investi em algo que não tinha a mesma profundidade do outro lado. E isso não diminui quem eu sou. Pelo contrário, revela o quanto eu sou capaz de sentir, de me entregar, de criar. Só que agora, com um pequeno detalhe a mais: lucidez.
Eu continuo sendo essa mulher que sente muito, que escreve demais, que imagina futuros inteiros em segundos. Mas hoje eu aprendi a perguntar, antes de construir castelos: tem alguém aqui comigo levantando essas paredes, ou sou só eu decorando um espaço vazio?
Porque no fim das contas, o amor não pode ser uma medalha na estante de ninguém. Amor de verdade não se coleciona. Se vive, lado a lado. E se não for assim, eu prefiro a honestidade do vazio do que a ilusão confortável de uma história bonita que nunca saiu do papel.
Se você se reconheceu em algum pedaço disso, talvez seja hora de parar de reler capítulos antigos e começar a escrever algo novo.
O relógio da vida não atrasa, nem adianta! Ele “bate” apenas duas vezes! Ao despertar e ao adormecer! No crepúsculo e ao alvorecer!
DA PERCEPÇÃO PESSOAL
Para que o relógio ande acertado, não chegam os meus olhos; é preciso acertá-lo com os paralelos e os meridianos.
