Querer algo de Verdade
Um paradoxo íntimo: querer devorar a vida e, ao mesmo tempo, aprender a degustá-la. Entender depressa só gera tensão. Olhar com calma revela profundidade. No intervalo entre um impulso e outro, entre o desejo de saber e a paciência de sentir, é onde tudo acontece. É ali que a vida realmente se mostra, silenciosa, intensa, inteira — mesmo quando nos obriga a frear.
Sabor Maresia
Decorei o perfume do teu corpo sem querer,
e desde então não soube mais te esquecer.
Procurei em flores, na chuva, no mar,
mas teu aroma não se deixa imitar.
Tens cheiro de vento beijando o litoral,
doce e salgado, divino, ancestral.
Brisa serena, desejo contido,
mistério guardado, segredo escondido.
Sabor Maresia... assim te nomeei,
pois nome melhor eu nunca encontrei.
Não é perfume, essência ou flor;
é pele que veste o próprio amor.
Será que existe em algum lugar
um frasco capaz de te engarrafar?
Ou foi o mar, com ciúme de ti,
que fez teu perfume nascer só ali?
Se fecha os olhos, ainda posso sentir
essa lembrança insistindo em florir.
E toda fragrância que o mundo me traz
perde-se inteira... jamais te refaz.
Porque teu cheiro não mora no ar,
nem em jardins, nem em qualquer mar.
Mora na ausência que insiste em ficar,
e em cada saudade que vem me visitar.
Se um dia perguntarem o que nunca esqueci,
não direi teu nome, nem falarei de ti.
Direi apenas, com um sorriso fugaz:
"Conheci uma vez...
alguém que tinha sabor de maresia."
ENTRE O FOGO E A TEMPESTADE
Se fosse simples, bastaria dizer:
“é paixão, é querer, é não saber esquecer.”
Mas há sentimentos que a língua não alcança,
e o silêncio, às vezes, revela mais que a esperança.
Você é a tempestade que chega sem avisar,
o céu que escurece só para depois clarear.
É o fogo que chama, mesmo sabendo que arde,
aquela vontade que cresce quando a razão já é tarde.
Você mora no intervalo de um pensamento,
entre o que se cala e o que vira sentimento.
É onde a razão lentamente perde o seu lugar,
e o desejo, em segredo, começa a despertar.
É o coração esquecendo o próprio compasso,
a respiração procurando um pouco mais de espaço.
É aquela presença que, mesmo distante,
faz qualquer silêncio parecer inquietante.
Talvez seja loucura. Talvez seja acaso.
Talvez seja apenas o destino ensaiando o primeiro passo.
Mas existem loucuras que não pedem cura,
porque certas vontades têm sua própria ternura.
E se alguém perguntasse o nome disso tudo,
talvez a resposta se escondesse no absurdo:
não é apenas querer, nem simples paixão…
é quando alguém encontra morada dentro de uma inquietação.
Mata-me com o teu querer... Mata-me lentamente com suas exigências...ordens, disciplinas...
Mantendo -me restrita, reclusa, indisponível...💕
Isso, vai lá — abandona o seu filho mesmo. Mostra para ele como é: não querer ser alguém igual a você. Cria traumas, sofrimento, mágoa e rancor em quem deveria ter por ti somente amor.
Um querer mórbido:
"A couve flor dos fatos,
nada mais
causa embaraço
e é minha
toda minha
a maneira
de pontuar-te,
ponderar-te
ensaiar-te:
"Teatro de loucura,
solidão sem encarte!
Viva com o necessário. A simplicidade torna o espírito livre da matéria, já a ganância de querer mais e mais nos impede de encontrarmos a paz necessária para desfrutarmos dos prazeres do mundo espiritual.
A Arte de se Ouvir Antes de Agradar
Existe uma armadilha silenciosa em querer ser o curativo para todas as dores alheias e o sim para todos os pedidos do mundo. Quantas vezes silenciamos a nossa própria intuição e ignoramos o cansaço do nosso corpo apenas para não decepcionar alguém? Que aprendamos a nos ouvir antes de agradar o outro. O preço de ser aceito por todos não pode ser a nossa própria anulação. Quando o nosso coração diz "não", mas a nossa boca diz "sim" para o mundo, estamos traindo a nossa própria essência. Aprender a escutar o sussurro da nossa alma é um divisor de águas: nos ensina a colocar limites saudáveis e a compreender que a nossa primeira e mais importante aprovação deve vir de dentro, e não de fora.
O Sagrado Direito de Não Querer
Há um momento na vida em que a maturidade nos convida a fazer as pazes com a nossa própria verdade, e foi exatamente essa intuição que hoje tocou a minha alma. Eu finalmente entendi o que eu não quero mais aceitar. Eu não quero mais rir sem vontade, fingindo uma alegria que o meu coração não sente apenas para manter as aparências. Eu não quero estar em lugares onde a minha presença não cabe, onde eu não sou vista de verdade ou onde claramente não querem que eu esteja. Recuso-me a compartilhar o meu tempo com pessoas que magoam, que não sentem a minha falta e que me dão a nítida sensação de que estar ao meu lado é uma espécie de favor. Eu não quero ir a lugar nenhum sem querer, arrastando os meus passos por obrigação ou permanecendo em espaços onde as pessoas só me aceitam por insistência minha. Dizer esses "nãos" para o mundo não é egoísmo; é um ato de sobrevivência espiritual. É escolher a honestidade de ser quem eu sou, reconhecer a minha própria importância e proteger o altar da minha paz interior.
Há uma tranquilidade que chega quando a gente para de querer entender tudo.
O que está fora das nossas mãos deixa de pesar tanto quando aprendemos a colocar nas mãos de Deus.
Nem sempre as respostas chegam.
Mas o coração encontra um jeito de descansar.
E, por hoje, isso basta.
Edna de Andrade
