Quase
CEREJAS
Degustava eu um ramo delas,
Quase assim.
Uma mais vermelhas
Ainda de formas fedelhas
De polpa ruim.
Outras, matizadas de branco,
Amarelado,
E eu sou franco,
Deixei as amarelas de lado.
Algumas, de bordeaux vincado,
Mas só cor
Sem sabor
Adocicado.
Poucas mais encontrei
Doces
Ainda que maduras
Apesar de duras
Como o mel melado.
Ia a meter a última à boca
E parei.
Era mais redondinha que as outras
Mas muito vermelhinha
E tinha
Uma outra cerejinha
Pegada à sua barriguinha
Como uma mãe que acabou
De dar à luz,
E quer mostrar a filhinha
Que reluz.
Tive pena de as comer
E num rebate de consciência,
Com exemplar paciência,
Fui metê-las em terra fresquinha:
A cereja mãe e a filha,
À espera que um dia destes
Irão nascer mais cerejas
Assim,
Por mim.
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 05-06-2023)
OLHOS D'ÁGUA
Sempre que te olhava
No pranto
Quase como quebranto
Mais que feitiço
No teu olhar em derriço,
Nessa lágrima que brotava
Dos teus olhos d'água,
É que eu compreendi
De vez e a horas,
Que quando ris, choras,
Sempre que eu choro por ti.
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 30-01-2024)
O processo de transmutação é doloroso,a primeira vez que acontece,machuca,arranha,rasga,é quase insuportável,mas os próximos se faz sorrindo.
Sou mais inimigo do quase,que do fim.
O fim pelo menos aconteceu,o quase de tão acomodado nem se esforçou.
Quase jogo tudo pela janela do quinto andar,
Depois do seu até breve, sem pé e sem cabeça.
Estranho...
Quase ninguém tem interesse de conhecer o outro por dentro,eu nem sempre estou disposto a me revirar do avesso para me apresentar a alguém.
Amaduerecer é assim rasgar-se,e remendar-se,é quebrar-se,e colar-se,é saber que quase sempre dói,mas depois é lição aprendida.
