Quanto mais me Conheco Fernando Pessoa
Os passos que se ouvia
Eram tanto, eram muitos
Porém, jamais suficientes
É preciso um pouco mais que isso
Não bastasse Deus aparecer num sonho
A face oculta da noite nada apagou
O compromisso ali firmado não valeu
Eram tanto, eram muitos
Eram todos do outro lado
E, se houve porventura, algum laço
Esse, há muito foi rompido
Sigo só no meu caminho
Na graça de Deus, esquecido
Foi preciso um pouco mais que eu
E muito menos de mundo
Face oculta e breu
Passos na calçada
Vozes que não mais se escuta
Uma espécie de conhecimentos
Cujos quais...careces
Casas, cujos nem telhados
De longe de vê
Lugares onde nunca estive
E nem nunca irei
Esqueça a vida e cresça
Há muito a vida esqueceu você.
Edson Ricardo Paiva.
Fito.
Não me lembro se chovia ou não
Era só mais um dia
Todo aquele, que anda fora do quadrado
Há de lembrar-se assim
Tinha a escada, lá no fim da rua
Um caminho sem volta
Não me lembro se pisei devagarinho ou não
Era só mais uma estrada torta
e tinha outra ao lado
Dessas, que tem muitas, era sempre assim
Sinuosa como a vida
Todo mundo pensa
Em vencer o tempo um dia
Tempo que povoa nossa fantasia
Momento e momento sem conta
Voa ao vento
Coisa boa é ver o tempo flutuando
Que, voando lento
Atento, te desmonta
Nem dá tempo de pensar
Não pense
Pise bem devagarinho a vida.
Confia no tempo, ele espera
Era ainda de manhã, bem cedo
O caminho era sem volta
Segredo, que a palavra vida abrange
Quando é a gente que flutua
Pra um lugar chamado longe
Mesmo perto
O destino põe deserto intransponível ali no meio
Pois domina a arte, essa desconhecida
De partir e repartir o tempo
O lenço, aceno, a despedida
O incompleto e o pleno
O atalho, o orvalho, o sereno, a madrugada
E, volta e meia... a vida alheia
Grasna, a gralha
Queima a ponte, o ninho, a palha
Torna sem retorno esse caminho
Mente descontente:
O morno, o incipiente que povoa a nossa fantasia
Voa ao vento a vida à toa
Flutua até a lua, beija e volta
Noite e meia, olha de longe
Luz do sol, essa que dourava a pele
Toda vez, agora agoura
Lírico empirismo
Limite do que não se vê
Se havia um fito na existência
Era do espírito
A vivência de saber ser leve
É hora de aprender, se apresse
A beleza da vida, em resumo, era essa
O tempo, em seu vagar garboso de aprumado
Não deu tempo de pensar, não pense
O tempo brumo, impiedoso
No final, te vence.
Edson Ricardo Paiva.
Um Lugar Chamado Nunca Mais.
Nenhum de nós jamais
Conseguiu reter pra si
Sequer a própria presença
Olhe a sua imagem refletida
Nas águas desse rio da vida
Enquanto ele evapora
E que carrega a tudo que hoje tanto preza
Ninguém jamais teve palavra que resuma
Nem desenho que descreva
O que se esconde atrás do nevoeiro
Nada, além de brumas
Até que a veja de frente
Até que seja tarde pra saber
Um dia essa melancolia leve
Vem, bem de repente
Leva embora noites de tristeza
Tardes de alegria
Pra um lugar chamado nunca mais
Por mais que se pretenda
Tudo é feito pra viver
No dia que amanhece, alegre ou triste
Não existe tempo que se prenda
O mundo é feito de algo igual ao ar que se respira
Você sempre poderá voltar e perceber
E lugar nenhum jamais terá guardado
Um pôr de sol sagrado, um dia do passado
Tudo reinicia novo e novamente
E você nunca o poderá trazer de volta
A gente é que deixou passar
Tornar-se, então, deserto e mudo
E, dessa vez, distante
Começou a deixar de ser o que era
No momento em que você deixou que fosse
Pois, na verdade, de outra forma não podia ser
Um dia terá sido sempre a última vez
Só que dessa vez
Você não terá sequer percebido
O ruído dos seus passos
Abraços perdidos
Olhos, cujos teus olhares nunca mais verão
Olhares, que de tão indiferentes
A gente não guardou nos braços, nem no coração
Passos se afastavam lentamente
Até que, então, silenciassem
Num fluxo constante, instante após instante
Lembranças de um passado que desbota
Algumas alguém lembra
Tudo mais é coisa tão desimportante
Que ninguém sequer nem nota
Nem pensa em tomar nota
Tudo é a própria imagem refletida
Nas águas do incessante rio da vida
Coisa que não se represa
Ela evapora e chora e chora
Como o ar, que se respira e se renova.
Edson Ricardo Paiva.
Num lugar que ainda existe
Onde nunca mais voltei
Onde eu acordo todo dia
Sem flecha apontada
Nem pra nós
Nem pela gente
Noites de fogueira
e festa e fada e bailarina
e sonhos
Todo dia era essa noite
Esse lugar havia
Mas a gente precisou buscar
Alguma coisa
Que não tinha nome
Que não tinha lá
Que estava num dia
Que não tinha nascido
Talvez fosse melhor assim
Muitas folhas vão morrer
Antes que o fruto de uma árvore
Também possa cair e apodrecer
Não por nós, nem pela gente
Faz parte de um outro ciclo
E de uma outra verdade
Não muito poética
Mas gera sementes
Numa duradoura espera
Por olhares de monge
Que não tinha nome
Que não estava lá
A procura de um tempo
Que ainda ia nascer
Que tivera de partir
de algum lugar pra onde
Nunca mais voltou, partiu pra longe
Mas pelo resto da vida
Trouxe uma velha paisagem no olhar
Onde, nela amanheceu
Até seu último dia.
Edson Ricardo Paiva.
Quais serão teus pensamentos?
O ato de compreender
É tão ou mais importante
Que o fato de te dizer
Aquilo que no final
Parece que não foi dito
Apesar de parecer
Não equivale ao escrito
Centelha de vida
Orelha mouca
Pouco divaga, ideia vaga
Ovelha que bale, diz mais
Quais serão seus pensamentos
Creio eu, serão iguais
Se pouco puderes
Deixar os teus pés flutuarem
Ao ouvir a voz do vento
Pedir pruma estrela o desenho
Se não tenta entender
Que, apesar do alicerce
Os céus se movem
Fecha os olhos pra enxergar
A arte de menino arteiro
Em parte foi, talvez, a única
Que me creditaram por inteiro
Há muito tempo
Aquela parte
Sobre dizer o que não foi dito
Que te é ilícito
Que te não parece implícito
Que cresce como o cinzel
Que desvenda o vulto
Oculto a sorrir-te
Detrás do monólito
Num grito inaudível
Lançado ao possível
Este acorrentou-se
Aos braços do impossível
E lá permaneceu
Deus, que prescruta-lhe a alma
Bem sabe...
A ovelha que bale, diz mais.
Edson Ricardo Paiva.
Mais que o caminhar.
Pensar
Tirar pedaços
do espaço incompleto
Imaginar-me
Somente imaginar
Lembrar de todo faz de conta
Quando mesmo o próprio ar
Chegava a ser concreto
Em que a chuva no terraço
Era um laço com o poético
Toda espera era esperança
E que pensar na vida
Era viver sem precisar
Pensar na vida
Era somente imaginar
Sem questionar a distância de um passo
Mas a vida não era assim
Era a gente que era
E quando a chuva passa
Vem a hora da ciranda
Varanda inocente, gente rindo
A gente ria sem sequer lembrar
Tudo era graça
Era engraçado o querer esquecer
Do que nem tinha certeza
Seguir sempre e nem sempre saber
Que o caminho era importante
Mais que o caminhar até
Esse, o tempo o faz sozinho e à pé
Hoje, todo mundo tão repleto
Tudo tão completo de ares concretos
Esquecidos de pensar
Tá tudo em seu lugar, tá tudo certo
Tão certo quanto a gota d'agua
Que evapora na roseira
Quando a chuva passa
Certamente ela passa
Pois, não mais existe
Aquele lado imperfeito, poético
E todo mundo é cético a seu jeito
O velho contrato firmado
Perante o abstrato
É velho, é só isso
Vale o visto
Quem manda é a ciranda do tempo
E seu ar inocente
Um a um
Sem pensar, nos engolindo.
Lindo, veja:
Ela vem vindo!
Edson Ricardo Paiva.
Feridas.
De tanto viver em descompasso
O dia é sempre um dia e nada mais
Pensar no amanhã, jamais
Sem lugar pra voltar, sem abraço
De viver eternamente
O mesmo passo a passo
Era somente a vida e o estar vivo
Era ser pra sempre
A própria ferida
Todo dia o mesmo curativo
Transpondo as pedras que surgissem
Uma a uma, passo a passo
Uma hora, nem percebe, se acostuma
As gotas de chuva na cara
A vida segue...o coração não para
Se é que a gente de vez em quando
Para e olha
As gotas de chuva na cara
Tanto faz se molha
A paz se instala
Os olhos veem, o ouvido escuta
O coração fala menos comigo a cada dia
Sem lugar pra voltar, sem abrigo ou abraço
...e sem palavra arguta
Vou pra onde o vento me levar, não ligo
Não levo um sorriso e nem lágrimas
Nem meu coração não fala mais comigo
Tanto faz, nada faço
Cada dia é sempre o dia e nada mais
Um dia a paz, ela vem e se instala
Nesse descompasso
Minh'alma se cala também
Tem um Deus, também calado
Passo a passo desse dia a dia
Pensar no amanhã, jamais
Trago meu coração em silêncio
Na ferida da vida que eu vivo
Todo dia o mesmo curativo.
Edson Ricardo Paiva.
Tem sempre alguma coisa.
Um dia
Mesmo o coração de olhar mais duro
Lança um olhar à estrada
Depois de muito ter partido
Porque nada a paisagem lhe diga
Quanto ao começo
Tem sempre um pedaço que fica
Esse é o preço da vida
Num mundo onde tudo é de graça
Passa tudo, passa o tempo
Passa toda e qualquer ilusão
Não mais me iludo
Mesmo o coração mais puro
Não foge a ter o olhar endurecido
Mesmo que a paisagem lhe diga tudo
Tem sempre alguma coisa que não fica
Porque nada é de graça
Um passo deixa sempre rastro
Um mastro ao longe, uma pegada
Mentira acreditada, conta que não fecha
A estrela errada que te orientou
Tem sempre alguma coisa a ser lembrada
No pouco que se traz ou deixa
Esse é o preço da vida.
Edson Ricardo Paiva
Como é tão fácil julgar uma flor que brote de uma árvore espinhosa, por mais bela que pareça, mas como é difícil ter a integridade de toca-lá para ver se fere.
Tão sutil e simplório é o amor que seria capaz de passar despercebido até pelos corações mais amáveis.
Quero ir mais além de um colorido de cores enfeitado sobre a terra, quero penetrar sua esfera
Quero ir mais além de um céu azul vestido de manjedoura, quero desavessar seus mistérios...
Quero ir mais além do infinito e da profundidade, quero possuir o território das essências, aonde olhos nenhum podem ir.
Sem choro
Sem lamento
Sem dor
Quero ir pra onde não tenha adeus e nem lembranças
Quero uma ida sem volta
Sem medir distâncias e altitudes
Quero ir aonde o limite não me alcance
Quero ir...
Apenas ir...
Deixe- me ir...
Preciso ir...
Quero ver a linha do horizonte acima do oceano a me guiar
Quero ver os raios de luzes se desprender no caos da escuridão
Quero ser o passado no presente
Quero ser o futuro no presente
Quero ser a ironia do tempo
Quero fazer o que ninguém ousou
Quero ser o que o mundo esqueceu
Quero ser o diferente dos iguais
Quero ser apenas um entre muitos
Quero a chave da minha liberdade que me roubaram
Quero ser livre
Quero ser prisioneiro de mim mesmo
Quero ser apenas eu em espírito e em verdade, e mais nada.
A dor mais cruel não é a que mata, mas a que se vive no espetáculo da vida, com direito a plateia, porém sem aplausos. Quando todos os aplausos seria mais que merecido.
Quem me dirá se as lágrimas que caíram dos meus olhos eram bem mais profunda do que o oceano que me banhava?
Quem me falará se o pequeno pedaço de chão onde meus pés pisaram era bem mais firme que as ondas da maré que vinha constantemente me bater onde naufraguei?
Quem adivinhará se morri ou sobrevivi naquela profundeza de um mar profundo que me lançaram? Ah! e o ar que eu prendi me diz tantas coisas (...) uma delas que estou vivo!
