Poesia Morena Flor de Morais
"SE EU PUDESSE"
Se eu pudesse voltar...
Voltar atrás no tempo por momentos.
Seria talvez louca...
Mas procuraria na tua boca...
O sopro de vida que me falta neste momento.
Se eu pudesse...
Correria para os teus braços sem pensar...
Deixando, o passado ser o nosso presente.
Sem medo, como outrora, éramos só nós os dois.
E, se eu pudesse controlar o pensamento sem rodeios...
Esqueceria o passado, viveria o nosso presente.
Tão presente em nós!
"SILÊNCIO"
Do meu silêncio resta tão pouco.
Eu queria fazer e trazer-te uns poemas
Mas trago-te apenas
Apenas estas mãos vazias de quimeras
Não consigo ler, nem tão pouco escrever
Perdi as palavras, perdi o jeito de ler
Enquanto os meus olhos caminham
A minha alma dissolvia-se em lágrimas de sangue
Dentro do meu livro está a cinza das horas
Horas, horas cruas de palavras calmas
Firmes que caminham levemente.
Palavras tão minhas com sentimentos
De alguém para ninguém
Tento escrever com insistência
Estas letras tingidas de amor
Apenas os meus gritos
Ecoam silenciosamente dentro mim
Oprimindo os meus sonhos
E as minhas pobres esperanças
Queria prender o tempo
Mas ele foge e esvanece-se!
"OUTONO"
Outono, outono meu...
Quero entregar-te os meus delírios.
Nas ruas do nosso outono
Onde os nossos passos vão ficar
Folhas do abandono pelo chão
Que um dia o vento vai levar
Os nossos olhos verão tudo a mudar
E eu escreveria um livro só para te ver chegar
Se eu te fosse contar, antes de te encontrar
Subiria os montes, desceria as ladeiras
Enfrentaria perigos, sentiria a força vento
A romper a fúria de uma tormenta
Molharia o corpo neste mar profundo
Dormiria com o teu olhar, perderia a noção das horas
Se as ruas do nosso outono pudessem
Despiriam as vestes da hipocrisia em folhas
"ADVENTO"
"Senhora do Advento"
"Senhora dos nossos caminhos"
"Senhora dos nossos sonhos"
"Senhora da nossa esperança"
"Senhora das nossas lágrimas "
"Senhora das nossas flores"
"Senhora das nossas horas "
"Senhora da nossas esperas"
"Senhora do nosso silêncio"
"Senhora das nossas memórias"
"Senhora do nosso tempo"
"Senhora das nossas dores"
"Senhora da nossa felicidade"
"Senhora das nossas palavras"
"Senhora das nossas preces"
"Senhora da nossa solidão"
"Senhora do advento rogai por nós"
"GUERRA ABERTA"
A carne é fraca, a guerra é constante
Quando o espírito deixa e não é forte
Desejo maldito, bendito, profano, covarde.
Boca que a língua invade, no corpo, na carne
Do sangue que é alarme, onde a brasa inflama.
Na luta onde o sangue que se exalta, pecado capital.
Dor, amor salgado que a vida nos dá muitas vezes
Navalha que corta a fraca carne do nosso pecado
Guerra constante, constantemente sem vencedores
Besuntados estão os corpos estendidos
Na lama antiga no chão do nosso instinto
Com a mesma intensidade num labirinto
Rugem as carnes sem sangue já apodrecidas
Memórias de um tempo de batalhas de glórias
Palavras ditas talvez corrompidas na noite
Flor de um jardim bela ardente e misteriosa
Religião com o terço na mão de quem ama
Vertigem no passo longo de um precipício
Boca que ruge na selvajaria do instante
Gemido do homem que ama já feito amante
Muralha com a bandeira mais bela do mundo
A fé de uma sombra num templo perdido
Insanidade de todos os descrentes e ferozes
O vento que guia-nos no céu com o seu rastro.
A carne é fraca, a guerra é tantas vezes constante
Como é constantemente vencida sem vencedores
Quando o espírito é fraco, na luta do sangue
Sombra da navalha, gemido do homem descrente.
AMO-TE
Amo-te, em cada recomeço de mim em ti
Amo-te, nas noites frias de insônia
Amo-te, nas horas que padeço de saudade de ti
Amo-te, na ânsia sinto que me tira a calma
Amo-te, na liberdade que assola-me a minha alma
Amo-te, unicamente em cada batimento cardíaco
Amo-te, em cada pedaço meu em ti
Amo-te, em cada fragmento vivo no meu peito
Amo-te, nas horas que padeço de solidão
Amo-te, no silêncio marcado, calado de dor
Amo-te, da forma mais selvagem que há em mim!
"PORTA ABERTA"
De um sonho angelical
Segurei as minhas lágrimas...
Procurei por mim...nas noites caladas
Lembro-me o quanto eu vivi
Encontrei a porta aberta...
Vi que procuravas por mim
Senti a leveza das horas.
Que passavam por, mim suavemente
Grito de dor, do meu peito rasgado.
Punhal de prata ensanguentado.
Caprichos da vida
Lembranças no amanhecer.
Nascemos sozinhos e morreremos sozinhos
Sente-se a falta de amor, de conforto e carinho.
Então só fica a solidão.
A alma encontra-se; vazia e sem cor...
Procurei por mim, nas noites quentes e caladas.
Encontrei a porta aberta e vi que procuravas por mim.
Iluminas os meus caminhos; as minhas noites e manhãs!
LÂMINAS
Malditos sejam malditos
Carrascos que castram
De lâminas que penetraram
No teu corpo já tão frágil
Gritos de dor
Sangue inocente derramado de uma menina
Será cultura, ignorância ou egoísmo!
Menina, mulher submissa
Facas cortantes, lâminas que castram
No ritual da passagem
De menina a mulher já mutilada
Deixam marcas dolorosas
No corpo
Na alma
Malditas, malditos carrascos
Que derramam o sangue dos inocentes
Hadem arder nas labaredas do inferno, malditos.
"PASTOR"
Repousa o cego perdido por culpa merecida
Geme de frio, suspira, suspira a saudade
Chora, chora a chuva toda a sua vaidade
Agua corrente entre seixos de ervas sombrias
Pensamento atroz, desmontado de palavras
Cansaço nas pálpebras, no vale das flores
Enjeitadas, vestidas de lindas cores no monte
Fortaleza de terra fértil, colhidas no tempo
Ardendo, queimando como se carne viva fosse
Levanta-se o vento, onde pasmo, tremo e desfaleço
Daquele amor inocente de olhos tapados, vendados
Divino entre o céu e a terra, do teu tempo encantado
Como um lindo pássaro doce canta uma melodia
Serra dura do homem pastor, amigo da mãe natureza
Alma acesa rodeada de fogo, do entardecer que me foge
No momento mais puro e seguro, amor fraco no peito
Dor no escombros, frio da guerra vivida talvez esquecida
Mente sã, corpo termo ferido, mar morto, em fim de vida
Pecados seus, lembranças suas, tão firmes de esperança
Dores estranhas rasgadas em lágrimas, banhadas de confiança
Onde as mãos brandas estão cegas de miseras, cercadas.
"DRAGÃO"
Dragão fingidor
Fugindo por insônias
Pesadelos,sofrimento que mortifica a loucura
Amnésias pinceladas de tantas conveniências
Demônio, inferno benevolente
Que não nos deixa indiferente
Mastiga-nos inteiros, a nu descrevendo-nos
Tártaro corpo, quente sol, salgada sede
Lua intransigente, cega luz
Lágrimas de uma cegueira
Inexplicavelmente permanente
Bastardo, inferno que nos deixa incoerentes
Misturados de gestos, colados, secos na alma
Da chávena, do chá, do reflexo, ao mar
Feitos de desabafos, abafos
De água, de fogo, de sorte, de azar
Companheira feita em compaixão
Dragão, benevolente, demônio da nossa mente
Alma cercada pelo sofrimento
Desfeita em insônias, do pensamento
Cravado no peito, do nosso encantamento
Fingidor de pesadelos
De amnésias, cegueira nossa
Mortifica a carne do nosso sentimento
Fingindo que é dor
Colados nos ossos da nossa loucura
Perdida, esquecida, sem olhos, sem sangue
Sem veias, do nosso desentendimento!
"DESTINO"
Mais uma noite de espera
Pois o meu destino é amar-te.
Olho o espelho do nosso quarto
E vejo refletido o teu rosto
Viajo na amplidão de meus anseios
E ouço a tua voz em devaneios.
Fica na minha pele e não só, nos meus desejos
Quero fundir-me contigo
Perder-me nos teus braços e que dure para sempre
Fica com a minha ternura nas tuas mãos
Beija-me com carinho para que seja eterno
Deixa-me amar a tua alma
Quero viver cada momento, cada segundo
Cada minuto com o bater do teu maravilhoso coração
Mais uma noite à tua espera
Pois o meu destino é ser amada!
"PROCURO-TE"
Procuro-te e busco-te
Nas fragas do caminho
Pelos vidros da janela
Em cada nascer do sol
E não consigo encontrar-te.
Procuro-te e busco-te
Nos seixos da rua
Nas brechas da porta
Nos grãos de areia.
E não consigo encontrar-te.
Procuro-te e busco-te
No brilho das folhas à chuva
No nevoeiro estampado na serra
Nos espelhos do orvalho
E não consigo encontrar-te.
Procuro-te e busco-te
Na tempestade dos ventos
Nas nuvens altas e azuis
No escuro da noite.
E não te encontro, mas tu revelas-te!
"CALVÁRIO"
Sofrimento, desprezível
Dum inútil invejoso
Com o terço nas mãos ajoelhado
Ferro quente cruel
Termo da crueldade humana
Lança perversa, madeiro companheiro
Pregado, sofrido, morto
Rastro de sangue derramado
Amado, odiado entre caminho de pedras
Monte calvário, a passos dados
Dores de amor, peito trespassado
Sangue do pecado só nosso
Onde foi consumado, madeiro nos ombros
Cordeiro morto inocente
Pedras quebradas, tesouro do mundo
Fonte de vida da pouca humanidade.
A nossa vida é um grande jardim (...)
Um caminho estreito, uma estrada de pedras
Mas...Onde podemos semear sempre flores ou espinhos.
HÁ DIAS E DIAS
Há dias que a morte é lenta como os mantos de lã
Há dias cinzentos que a fome engole o sossego
Há dias que o rosário é negro e dilacera o peito
Há dias que a prece é a revolta aguçada dum estalo
Há dias que são alinhavados por linhas escuras
Há dias que os punhais massacram as veias de sangue
Há dias que só Deus sabe os passos que dei, os erros que fiz
Há dias que a noite afugenta as sombras com o som do sino
Há dias que o poema está escondido, vestido de púrpura
Há dias que a mentira cede e é tocada com um dedo no espelho
Há dias que o nosso silêncio é simplesmente um dia de festa
Há dias que o teu riso, o teu beijo é o melhor do mundo
Há dias que o cheiro a canela, alecrim, alho, gengibre, é amor
Há dias que o delírio é penitente, nas ondas que cantam embriagadas.
Amo-te.....Tu sabes, que nascemos para amar
(...) para amarmo-nos
Tu sabes, porque eu sinto e respiro o teu amor
PASSADO PRESENTE
Agora as minhas horas evocam o silêncio
De amar tanto nas memórias do passado
Erva de coentros, semente de mostarda
A minha alma guarda as lágrimas que secaram
Nas varas da canela ou no cravo da índia
O meu coração, já não está ou sente-se magoado
No sabor entre o alho, gengibre ou malagueta
São agora apenas lembranças levadas pela água
Que corre nas margens das raízes dos choupos
Folhas velhas da vida amareladas pela chuva
Soltas pelo vento, da erva-doce e da canela
São folhas de louro à deriva, no bacalhau no forno
Levadas ao sabor da ventania. arrastadas na noz mostarda
Esquecidas, lembradas no paladar do tempo
Manjericão num navio naufragado, talvez já sem glória
Raminho de alecrim para alegrar os nossos momentos
Como gosto do queijo de cabra, é forte como os teus braços
Evoco o silêncio de amar-te tanto nas memórias do presente.
Senhor, neste novo dia que começa
Perdão porque cometi muitos erros
Perdão pelo mal que eu já causei.
AROMA FORTE
Escuta-me em silêncio, ouve o meu silêncio
Entre o molho holandês refeito pela segunda vez
Palavras ditas, silenciosas no olhar de altos e baixos
De embalados morangos doces do nosso Alentejo
Chá fresco ou quente com hortelã pimenta, no quarto
Fogo de pensamentos entre paixões e desejos nossos
Amante amoroso, sentinela dos teus, dos meus sonhos
Cúmplice na alma, canela posta no arroz doce ou aletria
Quente corpo nu, cantos sonolentos que gritam a raiva
Sonhos trancados, açúcar queimado no doce leite creme
Perdida paisagem no deserto de agitação estéril de ilusões
Doce de abóbora com requeijão, leva à loucura qualquer paixão
Noite de poucas palavras no sentir como um amor infinito
Escuta-me em silêncio, ouve-me em silêncio ao vento
Na imaginação das lembranças maravilhosas perfumadas
De rosmanhinho na abnegação de não conseguir suprimir
A curta distância de um delírio no aroma forte de gengibre.
Escuta-me em silêncio
(...) ouve-me em silêncio ao vento
Na imaginação das lembranças maravilhosas perfumadas.
