Poesia Amor Nao Realizado Olavo Bilac
O aroma que emana do jasmim
tranquiliza o mais feroz dos leões,
o mais forte dos ursos,
até a mais ágil das harpias…
E, por mais impossível que pareça —
uma dádiva quase irreal —
tranquiliza também
o coração dos homens.
Imaturo, porém gentil
Quando o vi naquele estado,
sofrendo, acompanhado apenas da solidão,
me compadeci e minhas dores de lado deixei.
Não as esqueci, pelo contrário, apenas as ignorei.
De uma dor cicatrizada surge a sabedoria,
um fato que negligenciei.
Fui, sabendo que não teria palavras de conforto,
sabendo que não teria a compreensão da sua dor.
Da minha dor não tirei o saber,
não aproveitei as receitas de cura
que poderiam ajudar não só a mim, mas aos outros também.
Muitas almas necessitam dessa ajuda,
mas, nesse momento, somos só nós dois:
duas almas, com dores não cicatrizadas,
sedentas por alguém que as cure de algo que só elas podem curar.
Sentei ao seu lado e disse:
— Sei que não sou médico,
muito menos um bom conselheiro...
mas sou um bom ouvinte,
então, me conte sua história, meu gêmeo sofredor.
— ...
"Silêncio..." foi a resposta que recebi.
Sendo assim, não vou insistir.
— Certo, não vou te atrapalhar...
mas desejo que fique bem.
Até alguma primavera.
— Espere...
Ele disse, receoso.
— Falar não é a única etapa para aliviar os pesos da vida.
Apenas fique... fique ao meu lado,
e cada lágrima contará minha jornada.
Me impressionei, mas fiquei ao seu lado.
E ali também lhe contei a minha e,
em terno silêncio, dois livros foram escritos e lidos.
"Quantas histórias você guardou durante sua trajetória?
Nem sempre haverá alguém para ouvir,
mas as conte mesmo assim.
Às vezes, é você quem precisa ouvir sua história."
"SONETO DA REPARAÇÃO"
Tentei, eu, reparar o acontecido
e consertar os erros do passado
mas acho que eu estava equivocado
e o que passou, passou! Fui, pois, vencido!
O tempo encarregou-se em ver lavado
os meus percalços, falhas, o ocorrido,
e viu-me o tanto que já padecido
no espaço do remorso consumado.
Reparação se fez sem minha ajuda
quando a poesia pura, aqui desnuda,
juntou-se a ele pra falar de amor…
O acontecido, reparar bem quis
pra ser, um pouco mais aqui, feliz
mas, para tal, o tempo é que é senhor!
" ARREBATOU-ME "
Levou-me a viajar por outros mundos,
por astros, por estrelas no infinito,
e constatei não mais estar restrito
pois que me haviam sonhos mais profundos!
E tudo se fez belo, mais bonito,
bem como, meus amores, mais fecundos…
Valorizei as horas, os segundos,
como algo eterno em mim. Isso eu admito.
Eu fui ao caos primeiro, à imensidão
que, origem, deu a tudo aqui, e então
se abriram, para mim, novos caminhos…
Por outros mundos fui, quando perdido,
vagando o medo, em meu sofrer, ferido,
até que arrebatou-me seus carinhos!
"ALCANÇA"
Eis que eu estava bem, no paraíso,
em meio a encantos tais, da criação,
e tendo, o essencial, ali, à mão,
sem chuvas, sem tormentas nem granizo…
Mas eu olhava a vida à volta e, então,
não via o sonho que, hoje, exteriorizo…
Faltava-me o olhar, a voz, o riso,
que iria me encantar o coração!
Eu tinha tudo, mas não tinha nada…
Ninguém pra partilhar a minha entrada
com mesmo passo, fé, mesma esperança…
Eis que chegaste, então, na minha história
e tudo pôs-se em nova trajetória
porquanto o amor real hoje me alcança!
"CONSIDEREM"
Talvez me considerem na vaidade,
na vida de luxúria e de pecado,
entregue a essa velhice em bom estado,
porém sem ver o peso dessa idade!
Sou, do que fiz de mim, o resultado
e, francamente, vivo, é bem verdade,
com força da paixão, na intensidade,
fazendo, co'a poesia, um bem-bolado.
Se a lua pode amar estrelas tantas,
também tive paixões reais (e quantas)
sabendo que o amor é um bom caminho…
Me considerem, pois, um mero poeta
que tem uma alma impura e indiscreta,
mas sofre e chora quando está sozinho!
"TERAPIA"
Eu sou de uma guerreira geração
que tinha de enfrentar, com garra, a vida
se ousasse ter a meta pretendida
que desse amor e paz ao coração!
Os traumas, qualquer marca recebida
por erros dados de uma educação,
tratávamos com fé, com comunhão
de amigos numa prosa concedida.
Porem tem-se, hoje, à mão, a terapia,
recursos dados na psiquiatria,
que ajudam a vencer tão triste estado…
Mas veja com quem abres teu segredo
que é bem comum, na escrita desse enredo,
ficar, da terapia, apaixonado!...
" IMAGEM "
Que imagem passo eu? A verdadeira?
Aquela que demonstra, em perfeição,
o que trago guardado ao coração
ou a que finjo ser, por brincadeira?
Transmito o que me é justo, o que é paixão,
de forma honesta, séria, firme, obreira,
ou dou, a quem me vê, total canseira
por camuflar a essência aqui em questão?!
Será que me conheço, de verdade,
ou prisioneiro sou, na realidade,
da imagem que pretensamente exponho?...
Preciso conhecer-me aqui, primeiro,
e tudo o que retenho em meu celeiro
pra imagem não fazer-se, apenas, sonho!
"TESOURO"
Amei o que era infância, ingenuidade,
e, nela, a quem primeira namorada…
Também amei, na adolescência dada,
já com gostinho de promiscuidade!
Me veio amores mais! Pessoa amada
também eu tive em minha mocidade
e, quando veio-me a maturidade,
amei de forma adulta, apaixonada!
Deixou-me, a estrada, pronto pra que agora,
quando a minh'alma velha se enamora,
eu tenha amor sereno, duradouro…
Se eu, hoje, estendo a mão a um compromisso
não quero ser, do sentimento, omisso
e faço, deste amor, o meu tesouro!
Minha alma tem sede,
Sede de amplidão.
Na vastidão do infinito,
Brilhar na escuridão.
Nos incontáveis desertos desta vida,
Encontrar a flor sagrada dos nobres peregrinos.
E, como um caminhante em busca do eterno,
Me encontrar com o meu Criador.
"MAIS UMA VEZ"
Parece que ficou, ela, encantada
com a aparência bela do rapaz
que nem lembrou dos erros lá de trás,
no outrora em que já esteve enamorada!
Passou por um romance forte, audaz,
que, a alma, lhe deixou, de dor, marcada
e, agora, está, de novo, apatetada
que nem lembrou-se do sofrer mordaz.
O amor é mesmo assim: nos alucina,
nos entorpece e, enfim, nos arruína
de forma a nos moldar na insensatez…
E, uma vez mais, nos faz agir estranho,
num caos de insanidade, tal, tamanho
que erramos, todos nós, mais uma vez!
"SAI"
Tentou me converter pra sua crença
e me levar cativo pro convento
agindo na surdina, igual ao vento
chegando de surpresa, sem licença!
Mas sou macaco velho nesse intento
e já perdi, faz tempo, a inocência
porém muito aprendi sobre a prudência
de forma a me escusar do chamamento.
A dama que ache um outro pra sua reza
que um homem, sábio, santo, que se preza
não muda, a sua crença, assim, por nada…
Cruz credo! Saravá! Sai, tentação…
Sou homem, pois, de determinação
que só coloca os pés em santa estrada!
" AVULTA "
Eu fico aqui sentado, sem maldade
observando, apenas, a intenção
daqueles que só vivem da ilusão
de que, pra amar, também se tem idade!
O amor olha, de cara, a pretensão
de quem se veste só da mocidade
achando que ela dura a eternidade
e, então, isso lhes basta ao coração.
Há três amores que nos vem (ou mais):
aquele que é da infância, os joviais
e o que chega depois, na vida adulta…
Pra amar não tem idade, tempo certo…
O amor se nos expõe, de peito aberto,
à força da paixão que, em nós, se avulta!
" MANSAS ÁGUAS "
Navego as águas mansas desta vida
levado pela barca da emoção
e encanta-me, bem junto ao coração,
o sol se pondo à luz de sua partida!
Chegando ao fim vou eu, na embarcação,
sabendo logo ser-me a despedida
como este sol que parte em luz remida
dizendo adeus ao céu de sua paixão.
São poucos os que estão comigo ao barco…
No paz que trago, a todos, eu abarco
com gratidão por tudo me ofertado…
Nas mansas águas desta vida minha
lembrança tua, junto a mim, se aninha
nesse infinito amor já consumado!
" ME LIGA "
Me liga, às vezes, longe, do passado,
em meio à madrugada, uma saudade,
distante, vinda lá de outra cidade,
de algum lugar, de um lance recordado!
Me fala com ternura e com bondade
num papo extenso, longo, demorado
qual se estivesse, mesmo, do meu lado
sentindo-se, feliz, bem à vontade.
E como fala… Horas! Sem ter pressa…
Não vejo como e nada que lhe impeça
de me ligar em meio à qualquer hora…
Então, desta conversa, amiga, boa,
um sentimento agudo me ressoa
que, o tempo, em nada ajuda nem melhora!
Havia somente nós naquele canto da praia.
Enquanto sua língua percorria o meu corpo,
O mesmo ardia, queimava...
Eu te acariciava, sua pele arrepiava.
Sedento de desejo a sua boca salivava.
Parecia querer me devorar.
E eu ali pronta pra ser o jantar.
Totalmente entregue aquele momento.
Que eu desejava eternizar.
" TAL COMO "
Pra ser, se era, romance, uma aventura,
instantes de loucura e de paixão
ou se era mesmo a voz do coração
a me indicar caminhos de ventura,
não saberei dizer na exatidão
nem dar real valor ao que era jura,
se promoveu-me o mal ou deu-me a cura,
se foi real história ou ilusão!...
Só me entreguei por força do momento
sem questionar qual era o sentimento
pro trás do instinto puro e verdadeiro…
O olhar quebrou-me, assim, de tal maneira
que promoveu, ali, real cegueira
tal como foi no meu amor primeiro!
" ESQUEÇA "
Passou, jogou-me o olhar feito em malícia
acompanhado de um sorriso ao rosto
e ali se fez o curso, então, proposto
de que, lhe ter, seria uma delícia!
Vontade de provar-lhe a carne, o gosto,
mas isso se faria uma estultícia..
Teria, ao fim, história é pra polícia
e assunto, de luxúrias mil, composto.
Sorri de volta, a lhe guardar segredo
de qual seria o rumo desse enredo
que já não tinha nem pé nem cabeça…
Não sou mercadoria de vitrine
e antes que isso, em vendaval, culmine
melhor deixar prá lá. É fato. Esqueça!
Providência
Empunhem arcos, ergam as espadas,
Contem as luzes no horizonte — a cavalaria.
Sob a lua cheia, os vampiros se preparam,
Ouvindo o trotar dos demônios no ventre da terra.
Os poderosos tomam dos pobres sua determinação,
E a providência vem, a nos salvar —
Cintilando como luar suave de outono,
Bendito seja o fogo que se alastra sobre o inferno.
Os espanhóis trepidam suas mãos sob o violão,
A noite ecoa em acordes belos e dissonantes,
Bendita seja a liberdade, que toca os despreocupados.
Vampiros andando pela avenida do condado,
E eu me pergunto — eles vivem e adoram a boêmia?
Minha alma se preocupa, sempre em vão,
Pelo que será desta terra ao amanhecer.
Talvez eu me junte aos vampiros, componha versos,
Viva de sangue e poesia — a providência divina.
E escreverei sobre vocês, em minhas epístolas, meus poemas velhos.
" INFINDA "
Às vezes loiro, liso ou ondulado,
moreno, crespo, ruivo, sem pintura,
puxando pelo branco, já na alvura,
tingido por estar agrisalhado…
Ou ralo pela idade, com fissura,
com pouco trato ou mesmo caprichado,
cabelo deixa o rosto emoldurado
e, assim, destaca o belo da gravura.
Mas, não é dele a graça e formosura!...
O belo é da mulher que lhe depura
e, até careca, a vejo sempre linda…
Quer seja loira, ruiva ou se morena,
sem ter cabelo algum, alta, pequena,
mulher vem sempre c'uma graça infinda!
