Poesia Amor Nao Realizado Olavo Bilac
LevitAção
Manter-se leve e voando
é o maior desafio da vida
:
saber se livrar dos pesos
do parto até a partida
VIGÍLIA
Na rua à esquerda do sonho
bem na esquina com a fantasia,
seguirei sentado, cão sem dono,
esperando que amanheça o dia.
Voo livre
tenho voado tão alto
que, nesses últimos dias,
penso, respiro e exalo,
à flor da pele, poesia.
O jogo
Se acerto, movimento a pedra do jogo.
Se erro, prossigo, penso, tento de novo.
Assim foi, é e para sempre será.
Eu só não posso parar de caminhar.
Sísifamente hercúlea
Que triste a nossa sina:
conviver com a morte
todos os dias
e lutar pra mantê-la
esquecida.
CANINO
o capitalismo
sempre arreganha os dentes
seja pra sorrir
ou devorar
um cão selvagem
é sempre um cão selvagem
inclusive quando
calmo ele está
BLINDADOS
para Ruy Proença
Quem se lembra ainda daqueles tempos idos
em que havia poucos muros, grades e redes?
As paredes até podiam ter ouvidos,
mas os ouvidos não tinham tantas paredes.
DESCONSTRUIÇÃO
Quando os pais e os avós
vão aos poucos morrendo
é como um prédio antigo
perdendo os pavimentos.
Mas não é ele que cai:
sou eu
desmoronando
por dentro.
Muita expectativa
Acarreta frustrações
No mundo das emoções
Esta forma negativa
Atrapalha e desmotiva
Inúmeras convivências
Então tenha paciência
Vá devagar com as pessoas
Não se estresse á toa
Pra não perder sua decência.
A lágrima te ensina
O valor de um sorriso
Aonde o tempo é preciso
Ao alcance da retina
Mas um dia ele termina
Ligeiro igual trovão
E o efeito da tua ação
É o que faz você colher
Felicidade ou sofrer
Para o seu coração.
Erros servem de lição
Para trilhar o caminho
A idade é um cursinho
Que te dá graduação
Sendo esse o galardão
Através de muita dor
Você se torna o pintor
Que pinta a aquarela
Da sua vida mais bela
Com as cores do amor.
DE NATUREZA SELVAGEM
De onde vim deixei um mundo inteiro
Minhas várias gerações
Trazendo opções
De habitar novas versões
Descobri mistérios
Entrei em vales
Acendi fogueiras
Dancei em rodas
Usei ervas
Cantei para lua
Amei ao sol
Pisei na terra
Em cachoeiras lavei-me
No mar mergulhei
Mergulhei em mim
Renasci
Renasço todos os dias
Abraço
Almas que chegam
Lavo pés, beijo mãos
Recebo bênçãos
Aprendo lições
Boas vibrações
Eu me enxergo
Eu sou vista
Eu vivo grandes conquistas
Eu sirvo
Com todos os meios
Eu curo
Com todas as fontes
Eu tenho
O mundo de onde vim
Minha origem
Eu mantenho
A verdade eu carrego
Eu entrego
Eu pinto um livro
Aquarelando as páginas
Com tons, pétalas e
O brilho de lágrimas
De fé e devoção
Que me comovem
Me movem
Me convém
Convencem
A viver a natureza selvagem
De quem eu sou
"Nada mais somos;
Que inquilinos da vida;
Esta nossa senhoria a quem ousamos;
Percorrer caminhos sem saída..."
"Sorver da dor,
o sabor do aprendizado,
sem fazer disso um lenitivo,
tampouco um predicado,
exceto,
seu destino,
seu legado."
UTOPIA
Aquela estrela é minha
Aquela, pequenina,
Na esquina do Universo, escondidinha.
Eu, que não tenho nada além dos meus chinelos,
Além dos meus poemas, além dos meus anseios,
Sou feliz proprietário de uma estrela,
Uma que eu inventei, e para vê-la,
Fecho os olhos na hora de sonhar.
Aquela estrela é minha, senhores astronautas,
Vagabundos do espaço de ninguém:
Cuidado, ela é frágil, assim como meus versos,
Astrônomos, que fuxicai pelo Universo,
Se um dia descobrirem essa estrela,
Ela tem nome, chama-se Utopia.
Aquela estrela é minha, senhor Deus,
Que pastoreais nuvens no Infinito,
E que semeais sóis e tempestades
Não leves a mal a pretensão do poeta,
Mas, aquela estrela, ainda que feia, é minha,
Não faz parte do elenco dos teus astros,
Eu a fiz com as mãos, o sonho, o coração.
Aquela estrela é minha, senhoras e senhores
E, quem quiser passear na minha estrela,
Numa tarde qualquer, de chuva ou sol,
É só me dar as mãos, ser meu amigo,
Compreender minhas incompreensões,
E caminhar comigo.
Mas não reparem se, de madrugada,
Não houver mais estrelas nem mais nada
É que ,às vezes, acordo mal dormido,
Oprimido, homem e pingente,
E minha estrela, triste, vai embora,
E só regressa numa nova aurora,
Quando eu volto a ser gente..
MEMORABILIA
para minha avó, Cenira
Minha avó sempre dizia
quando alguém morria:
"Descansou."
E eu logo pensava: será?!
Nessa cama, não conheço um
que queira se deitar.
Ouvimos o tempo todo que a vida é um sopro. Que no instante seguinte tudo pode desmoronar ou deixar de existir. E em contra partida vamos adiando pra depois um tanto de abraço, um bocado de saudade, uma série de (re)encontros que fariam o coração pulsar em ritmo de gratidão.
Calamos pra não estar vulnerável. Não expressar o que mora em nós.
A vida passa ligeira, não aguarda no acostamento. Segue pedindo passagem e não dá a menor garantia de haver um depois - ou mesmo um até breve!
Por isso, usufrua do agora. Liberte-se de todos os rótulos e se faça feliz de fato.
O POEMA ERRADO
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Drummond
Vou ao reino das palavras com a tranquilidade de quem trouxe de lá uma ou duas páginas valorosas. São minha permissão. Entro quando quero, extraio as palavras de onde repousam em estado de dicionário, e as acomodo para viagem na forma de poemas perfeitos. Todos se corrompem na passagem, alguns irremediavelmente. É por esse motivo que tantas linhas imprecisas são escritas. Tenho impulsos de retornar ao reino das palavras e vasculhar incansavelmente pelo poema certo. Ele ainda está lá. Mas desse já não tenho a chave, e ninguém mais a poderá ter. Perdeu-se. Olho para o poema embaralhado que possuo, sentenciado à inexistência, e me compadeço do seu destino. Sorrio. A inexistência é uma condenação impossível.
O poema errado
Com a vida diante dos olhos
Escrevi minha história
Manchei os campos com meus passos
Maculei a água com minha sede
Julguei merecer que me sorrissem
Um sorriso puro e ingênuo
Que já não sorri sem tristeza
Fui amado com um amor perfeito
Que hoje tem a marca da minha estupidez
Quisera ter entendido o que é ser humano
O que é ser imperfeito
Quisera ter entendido o propósito de todas as coisas
Segundo o qual nada existe em vão
Não se vive sem culpa
Mas não se existe sem razão
Se em tudo eu tivesse errado
Não choraria por não ter tocado
A flor que deixei morrer no jardim
A flor não temia a morte
A vida era o seu fim
