Poesia Amor Nao Realizado Olavo Bilac
Alquimia
-uma pitada
-um montão
-alma apaixonada
-um coração
-palavras à sorte
-sentimento forte
-arrepio no cangote
-pensamento à levar
-estrelas verso luar
-olhar contra olhar
-mesclado no sentir
-dose de ouvir
-bucado de emoção
Mistura-se tudo a paixão,
até dar ponto de amor...
Tempo do fim
Morre-se a cada momento
No caducar do tempo
Sem se quer,
ter valia o lamento
De se é justo o instante
E num só solavanco
Num medo ofegante
A vez, faz-se saltimbanco
Tocando a paz interior
Num golpe franco
Despede-se do vigor
Da vida, assim,
Faz-se o tempo do fim
O criado mudo
o criado mudo fiel ao lado
sempre lacaio se faz calado
serve pra tudo
servo de agrado
mudo servil
pajem criado
de cria gentil
fadado fado
multi fértil
criado
guerreiro
mudo
companheiro
contudo
servo, criado mudo...
Lágrima de poeta
O poeta chora...
Seu espírito olha de dentro para fora
Rimando as tramas ilusórias da poesia
Em versos de dor ou de alegria
Expelidas das lavas da inspiração
Do profundo sentimento
Da sua solitária emoção
E povoado argumento
De sonhos, de imaginação
O poeta chora...
Diz querer mas não vai embora
Insiste nos soluços da memória
No amarelado da saudade
E o colorido da felicidade
Pintando as páginas da vida
Em pinceladas de chegada e partida
Com palavras livres de alma aberta
Caídas da verdade fingida da lágrima de poeta
Lágrima,
Tão frágil, tão pequenina
Ao vê-la nem se imagina
A imensidão do sentimento
O carisma de seu surgimento
O silêncio
Assim, como do fundo da solidão
O silêncio emudece
A voz da saudade cala o coração
Com mutismos que a alma conhece
Nas lembranças que a dor adelgaça
O amor, a angústia, a emoção
Onde o caçador torna-se caça
Desembocados no vazio
Da esperança, da ilusão
Engasgados no arrepio
Do abafado ruído da interiorização
E o silêncio se faz sombrio...
Assim, como do fundo da solidão
O silêncio emudece
A voz da saudade cala o coração
Com mutismos que a alma conhece
Hoje te encontrei na saudade
Nas fotos no tempo amareladas
Que um dia se fez realidade
E as noites dores enrugadas
Eu te encontrei na saudade...
No varal do quintal pendurada
Nunca confies na mentira que tem perna curta,
porque a verdade é sempre mais astuta.
Um dia vamos todos acabar por morrer,
e não haverá ninguém para nos socorrer.
Ha vida é sempre a mesma coisa,
uns comem a cominha
enquanto outros lavam a loiça.
É para veres que a vida tá uma merda,
por isso vê lá se estudas e aplica-te mais nela.
Então vê se te concentras no teu futuro,
que tenhas uma vida com sucesso
e que sejas muito sortudo.
O cerrado é um gole d'água na secura
Amargo, após saciado, vê-se o cerrado
Em sua candura árida, em sua ventura
Melancolicamente torto e cascalhado
Horizonte do por do sol que se agiganta
Um poema desigual, igual ser amado
Cerrado, gole na admiração que encanta
Cerrado do Goiás
O cerrado é um desalinhado que espanta
Deixa maravilhado quem passa por aqui
Pois nem ele sabe o tanto que encanta
A todos que vem e provam do seu pequi
Ah! Se eu pudesse lhe dizer de tua beleza tanta
Todos quereriam ser daqui...
Maleta de viagem
O poeta veio pro cerrado
foi visto na meseta
em minas foi saudado
nas mãos poemas e uma maleta
Depoimento
A caixa de surpresas do planeta
Está cheia de espantos e trova
Em cada rima o coração do poeta
E nos lamentos o amor à prova
Tu nunca entenderás a minha maneira de ser,
a sociedade tronou-me na pessoa que tas a ver.
Tudo que eu fiz foi só pensado por mim,
e se me tentares imitar nunca iras de conseguir.
Se és do cerrado
Quanto mais amado
O cerrado é admirado
Se és sem moradia
E vive em romaria
O cerrado é ousadia
E aqui tem poesia!
E desde então, sou cerrado
Desde quanto cá vim
sou árido, ressecado
Por servidão, assim
cá estou, sou, até o fim...
De partida!
Pois quem vai volta
Volta na saudade,
de ida e vinda
Embora seja outra rota
Várias até que se finda
Então,
que venha outra cota
E também outra filosofia
Pois a vida é uma pelota,
e viver uma mercearia...
Sou de onde o cascalho forra o chão
Onde o vento se perde no horizonte
Aqui nasci, e a poeira trago na canção
Sou do cerrado, árido, a minha fonte
Onde bebo da água da poética ilusão
A volta
Quando eu partir
quero ir com saudade
assim, poderei sentir
saudade e liberdade
juntas no meu existir
arrumadinhas
sem nada por vir
só lembrancinhas
que as carregarei
no meu poetar
e assim, estarei
lembrando, sem recuar
sem mala, sem passaporte
pois estou voltando...
me deseje sorte!
