Poesia Amor Nao Realizado Olavo Bilac
Sempre o futuro, sempre! e o presente
Nunca! Que seja esta hora em que se existe
De incerteza e de dor sempre a mais triste,
E só farte o desejo um bem ausente!
Ai! que importa o futuro, se inclemente
Essa hora, em que a esperança nos consiste,
Chega... é presente... e só á dor assiste?...
Assim, qual é a esperança que não mente?
Desventura ou delirio?... O que procuro,
Se me foge, é miragem enganosa,
Se me espera, peor, espectro impuro...
Assim a vida passa vagarosa:
O presente, a aspirar sempre ao futuro:
O futuro, uma sombra mentirosa.
Abnegação
Chovam lírios e rosas no teu colo!
Chovam hinos de glória na tua alma!
Hinos de glória e adoração e calma,
Meu amor, minha pomba e meu consolo!
Dê-te estrelas o céu, flores o solo,
Cantos e aroma o ar e sombra a palmar.
E quando surge a lua e o mar se acalma,
Sonhos sem fim seu preguiçoso rolo!
E nem sequer te lembres de que eu choro...
Esquece até, esquece, que te adoro...
E ao passares por mim, sem que me olhes,
Possam das minhas lágrimas cruéis
Nascer sob os teus pés flores fiéis,
Que pises distraída ou rindo esfolhes!
Balada de Sempre
Espero a tua vinda
a tua vinda,
em dia de lua cheia.
Debruço-me sobre a noite
a ver a lua a crescer, a crescer...
Espero o momento da chegada
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas...
Rasgarás nuvens de ruas densas,
Alagarás vielas de bêbados transformadores.
Saltarás ribeiros, mares, relevos...
- A tua alma não morre
aos medos e às sombras!-
Mas...,
Enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí além,
sempre duvidoso,
desenha interrogações na areia molhada...
Aves
ter-te suspensa
do meu lume
na fogosa boca
o ardume
a explodir
tu
ardida e intacta
sonho e nuvem
voz exacta
um soltar
de aves
em pânico
na relva do olhar
Clandestinos somos
quando
o que somos
teme a face que pesquisa.
Os olhos são claros
quando
a superfície do espelho
é lisa.
Nem me disseram ainda
para o que vim.
Se logro ou verdade,
se filho amado ou rejeitado.
Mas sei
que quando cheguei
os meus olhos viram tudo
e tontos de gula ou espanto
renegaram tudo
— e no meu sangue veias se abriram
noutro sangue...
A ele obedeço,
sempre,
a esse incitamento mudo.
Também sei
que hei-de perecer, exangue,
de excesso de desejar;
mas sinto,
sempre,
que não posso recuar.
Simplicidade
Queria, queria
Ter a singeleza
Das vidas sem alma
E a lúcida calma
Da matéria presa.
Queria, queria
Ser igual ao peixe
Que livre nas águas
Se mexe;
Ser igual em som,
Ser igual em graça
Ao pássaro leve,
Que esvoaça...
Tudo isso eu queria!
(Ser fraco é ser forte).
Queria viver
E depois morrer
Sem nunca aprender
A gostar da morte.
Felicidade, agarrei-te
Como um cão, pelo cachaço!
E, contigo, em mar de azeite
Afoguei-me, passo a passo...
Dei à minha alma a preguiça
Que o meu corpo não tivera.
E foi, assim, que, submissa,
Vi chegar a Primavera...
Quem a colher que a arrecade
(Há, nela, um segredo lento...)
Ó frágil felicidade!
— Palavra que leva o vento,
E, depois, como se a ideia
De, nos dedos, a ter tido
Bastasse, por fim, larguei-a,
Sem ficar arrependido...
Andamos nus, apenas revestidos
Da música inocente dos sentidos.
Como nuvens ou pássaros passamos
Entre o arvoredo, sem tocar nos ramos.
No entanto, em nós, o canto é quase mudo.
Nada pedimos. Recusamos tudo.
Nunca para vingar as próprias dores
Tiramos sangue ao mundo ou vida às flores.
E a noite chega! Ao longe, morre o dia...
A Pátria é o Céu. E o Céu, a Poesia...
E há mãos que vêm poisar em nossos ombros
E somos o silêncio dos escombros.
Ó meus irmãos! em todos os países,
Rezai pelos amigos infelizes!
A te escrever!
Estou a escrever
Um poema a você
Sem rimas e versos
Apenas sentimentos
Te mostrar o valor
Ao longo dos trechos
Como o mundo é lindo
Apenas ao seu contexto
As linhas longas
O meu amor escrevo
No melhor papel
Os meus desejos
Você está a ler
Apenas um texto
Outrora
Estou lhe sentindo longe como outrora
Num inverno sem sentido
Pularei deste abismo sem pensar
Basta pegar minha mão
Que o inverno vai passar
Estou me sentindo um tolo
Estou aqui apenas para te amar
Mais não queres meu amor
Na solidão irei estar
Péssima outrora de inverno
Em paz tem que me deixar
Morte me leve agora
Com ela não irei ficar
Amargo vasto da outrora
Essa tal liberdade
Seria uma utópica verdade?
Com a razão e emoção condicionada
Estaria a liberdade acorrentada?
Parece uma verdade abstrata
Mas só a loucura é sensata
O desconhecido.
É na sociedade que este mal se aparenta,
Que consequentemente inquieta-se
Que consequentemente ñ se apresenta.
Escrever é ñ ser desconhecido,
Mesmo sendo autor anónimo
Só se omite um ser adormecido,
Em ti privas o antônimo.
Há quem escreva, há quem pinte.
É um mundo que pouco se sente.
Moda é um extinto,
A vocação é subjacente.
De um ébrio
Às vezes paro e penso:
o passado já era,
o futuro é escuro,
o presente é o que me resta; é o que nos resta,
é o que resta a todos condenados à morte.
O velho Baldelaire
está certo: é melhor existir menos e viver mais.
Se Deus existe, se escondeu de mim,
enquanto carrego os
meus restos para o fim...
Oh, só os poetas compreendem os poetas!
Nem a mulher, a quem jurei amor, me compreende.
Falta pouco para eu acabar esta tóxica garrafa de cerveja...
Sobre meu coração
chovem gotas frias de desalento...
turvas são as águas,
Nelas me sinto como um náufrago
Tento retorquir,
flamejando em meio à multidão atingida pela maldição do facciosismo...
Diante desse tempo úmido e frio
Domados atrozmente por avalanches de distorções e invenções
Carregados de vazio,
Sem ideias,
embriagados pelo inculto...
Suas mudanças revelaram-se navalhas
que não cicatrizam
Feridos, desempregados,desabrigados e famintos
Sob marquises pleiteiam acomodação.
Onde está a rosa?
Te tornaste símbolo, carregada em punhos cerrados
Sempre fostes resistente
Precisamos que cresças entre escombrosde pedras brutas
Que floresças nos corações e mentes,
que transforme a melancolia em esperança.
A FORÇA DO SENHOR
Eu venho Senhor,
Das minhas lutas te falar,
Eu venho te pedir forças,
Para a caminhada continuar!
Senhor ouve a minha voz,
Já não consigo carregar a cruz,
Senhor toma as minhas mãos,
E guia-me para a tua luz!
Não me deixe no meio do caminho,
Me ensina a lutar e vencer,
Transformando essa estrada de espinho,
Em flores que um dia eu possa colher!
De Rodivaldo Brito em 14.10.1978
SE SOU EU OU VOCÊ
Quando em teus olhos me afundo,
Fico encantado com o que vejo,
Parecem rios caudalosos e profundos,
Que sempre mergulho pra desvendar teus segredos!
Te beijar não é nenhum sacrifício,
Eu morreria sem poder respirar,
É uma droga que me controla, meu vício,
É onde me realizo quando quero te amar!
Teu sorriso tem tudo que nem consigo dizer,
A imagem que me deixa mais apaixonado,
Sem ele não sei se consigo sobreviver,
Um dia sem te ver sorrir é um dia desperdiçado!
Sou como uma peça tua que não consegue se desprender,
Preso a ti como um nó que não consegue se desatar,
Que já nem sei se sou eu ou você...
Porque amar é ter tanto a dizer e não conseguir explicar!
De Rodivaldo Brito em 04.08.2019
NA HORA DA CEIA
Na hora da ceia,
Minha alma anseia,
Quer repousar em ti Jesus!
Participo do pão,
Declamando um refrão,
Foi lá na cruz...
Bebo o vinho,
Te ouvindo com carinho,
- foi por ti que eu me fiz maldito!
Vem na memória,
A tua trajetória,
A história do ser mais bendito!
Eu, que sou tão culpado,
Por teu sangue sou lavado,
No vermelho carmesim!
Que não falte aos meus pecados,
O perdão tão esperado,
Que trouxeste para mim!
Rodivaldo Brito em 05.08.2019
ADEUS O ÚLTIMO CARINHO DO REJEITADO
Enquanto a vista alcançava, na tarde ligeira,
Teu corpo, a cada passada, desaparecia,
Num último esforço, a imagem derradeira,
De quem ainda há pouco, o adeus me garantia!
Porque partiste, me deixando de lágrimas banhado?
Tomado por tantos tornados e tempestades,
Não sabes que te amo e que por ti tudo tenho dado,
Porque me abandonas com tamanha crueldade?
Porque teu coração inconstante não responde?
Arde em chamas num instante, logo depois esquece,
Uma hora aparece, outra hora se esconde,
Quem não te ama amor, não te conhece!
Desaparece quando cresce na companhia,
Na ventania carrega os nossos melhores anos,
E conquista a confiança de quem já desistia,
Acabando com o sonho de tantos planos!
Porque mergulhei nesse mar turbulento,
E não procurei evitar esse resultado?
Hoje vendo você partir, disse pra mim mesmo: como me arrependo!
De viver esse adeus, o último carinho do rejeitado!
De Rodivaldo Brito em 16.08.2019
A FLOR E A PRAGA
Numa certa manhã, uma flor desabrocha,
Nasce Linda, com cores vivas e vibrantes,
Sua beleza é incomparável, estonteante,
Veio do galho mais forte, firme como uma rocha.
Uma praga surgiu imponente na madrugada,
Vindo no meio do excesso de adubação,
Num ambiente sem qualquer irrigação,
Se alojou nas pétalas da flor tão desejada.
Durantes dias a flor lutou contra a praga,
Mas suas forças se esvaíram. E desanimada,
Sem os cuidados necessários, murchou.
O amor é como um jardim florido que a todos agrada,
Mas sem cuidados, é como uma flor que não é regada.
A praga se dissemina onde ninguém tratou.
De Rodivaldo Brito em 26.08.2019
