Poemas Reflexivos

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A vida é uma coisa muito complicada. E toda a questão de ser ou de não ser consiste em encontrar-se nesta confusão.

O que mais precisamos na vida é de alguém que nos leve a realizar o que podemos realizar e o que de útil podemos fazer.

Se a vida é um mal, por que tememos morrer; e se um bem, por que a abreviamos com os nossos vícios?

Talvez amar alguém seja o único ponto de partida para tornar nossa a nossa vida.

O prazer do amor dura apenas um instante, os desgostos do amor duram toda a vida.

O instante só tem um lugar estreito entre a esperança e o desgosto, e esse é o lugar da vida.

Para agradar aos homens é preciso professar o que cada um desses homens repudia e odeia na sua vida secreta.

Nós não o conhecemos, mas sentimos: existe um irmão barco para a nossa vida que leva uma rota completamente diferente.

Vive cada dia como se tivesses vivido a vida inteira visando justamente àquele dia.

Todas as especulações são pardas, certamente, mas eternamente verde é a árvore de ouro da vida.

Há homens que parecem grandes no horizonte da vida privada e pequenos no meridiano da vida pública.

Se considero quanto me custa a ideia de deixar a vida, devo ter sido mais feliz do que pensava.

A vida é amarga e doce. Por isso não há outra forma de descrevê-la senão captando esses dois sabores.

É necessário ter amor pela vida para o prosseguimento vigoroso de qualquer intento.

Com os seres vivos, parece que a natureza se exercita no artificialismo. A vida destila e filtra.

Sê alegre apenas depois de dares a volta à vida toda. E regressares então a uma flor, ao sol num muro, a um verme no chão. A profunda alegria não é a do começo mas a do fim.

Vergílio Ferreira
FERREIRA, V., Escrever, Bertrand, 2001

A vida é fictícia, as palavras perdem a realidade. E no entanto esta vida fictícia é a única que podemos suportar. Estamos aqui como peixes num aquário. E sentindo que há outra vida ao nosso lado, vamos até à cova sem dar por ela. Estamos aqui a matar o tempo.

Muito pouco se padece na vida, em comparação do que se goza; aliás, não sendo assim, como se viveria?

Os dados reais da vida não têm valor para o artista, são unicamente um ensejo para manifestar o seu génio.

O hábito é que me faz suportar a vida. Às vezes acordo com este grito: - A morte! A morte! - e debalde arredo o estúpido aguilhão. Choro sobre mim mesmo como sobre um sepulcro vazio. Oh! Como a vida pesa, como este único minuto com a morte pela eternidade pesa! Como a vida esplêndida é aborrecida e inútil! Não se passa nada, não se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os hábitos lentamente acumulados. O tempo mói: mói a ambição e o fel e torna as figuras grotescas.